Ela apareceu


Mais uma vez no baile aquele garoto tomou algumas. Amigos aqui e lá, abraços, batidas de punhos, de palmas, braços no ar, pernas e pés que não paravam. A música era boa, sabia todas as letras, cantava as músicas e as moças, aquelas palavras que saiam com gargalhadas.

Em certo momento, o som aumentou, o furor, as pessoas se alvoroçaram. E aí é que aquele garoto a viu; ela apareceu de entre aquela multidão que pulava, se empurrava, gritava. Todos a conheciam, todos a queriam, a temiam, a respeitavam. Aquele avançar reto, ininterrupto, por entre todo o mundo, como se seu único objetivo fosse ele, só ele, como se o próprio ar se afastasse para dar-lhe passo. Aquelas formas finas, curvas precisas, fascinantes e aterradoras; aquele corpo voltado completamente para ele que avançava, que deixava-o sem escapatória.

Pela descrição, pode parecer que esse momento é único e especial, mas sabemos bem que acontece com muitos outros garotos; o momento em que ela aparece e você entrega a vida. Mas à diferença do resto, aquele garoto a viu vir, a contemplou detidamente enquanto ela se aproximava mais e mais, sem titubeios, sem pausas, sem opção.

Ela o alcançou e engoliu seu corpo com um contato ardente e extasiante. Ela penetrou na sua alma, e ele soube que esqueceria o resto do mundo.

O garoto caiu no chão, seco, e virou estatística.

Rio de Janeiro, 31 de setembro de 2014
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