Olimpíada, reflexão jornalística


Carlos Alberto Di Franco

A Olimpíada do Rio de Janeiro foi um sucesso. Indiscutível. O desastre anunciado não se confirmou. A violência não teve a última palavra. A cordialidade brasileira virou o jogo. A autoestima do nosso povo, tão testada e machucada nos últimos tempos, foi revigorada. O Brasil, independentemente de limitações e falhas pontuais, fez bonito. Soube mostrar a um mundo cansado, talvez demasiadamente cético, marcantes exemplos de tolerância, superação e alegria.

Thiago Braz, medalha de ouro no salto com vara e recordista olímpico (saltou 6,03 metros), é um exemplo dessa superação. Sem mágoa. Sem ódio. Sem confronto. O atleta brasileiro foi abandonado pela mãe ainda menino. Os avós foram responsáveis por sua criação. Passou dias esperando a mãe com sua mochila nas costas. Ela nunca apareceu. Os avós viraram referência: “Todas as qualidades que tenho hoje vieram dos ensinamentos deles, que foram meus pais na realidade”. Apesar de ter 22 anos, Thiago é casado há quase dois anos. Em 2014, ele subiu ao altar com Ana Paula Oliveira. Os dois se conheceram no ambiente do atletismo. Thiago e Ana formam um casal descontraído e, ao que parece, praticam a sua fé. São a cara do Brasil real.

A Olimpíada gerou pautas positivas. Verdadeiras. Necessárias. O Brasil não é só corrupção, violência e incompetência. Tem muita coisa boa acontecendo, gente empreendendo, histórias brilhantes quicando na nossa frente. Não podemos priorizar uma agenda depressiva. A vida é feita de luzes e sombras. Impõe-se apostar no equilíbrio informativo.

Impressiona-me o crescente espaço destinado à violência nas nossas reportagens, sobretudo no telejornalismo. Catástrofes, tragédias e agressões, recorrentes como chuvas de verão, compõem uma pauta sombria e perturbadora. A mídia, argumentam os aguerridos defensores do jornalismo realidade, retrata a vida como ela é. Teria, contudo, o cotidiano do brasileiro médio tamanhas e tão frequentes manifestações de violência e aberrações patológicas? Penso que não. Há uma evidente compulsão para pinçar os aspectos negativos da vida.

Por mais que a sociedade tenha mudado, tenho a certeza de que o pretenso realismo que se alardeia como justificativa para o excesso de violência e mau gosto que, diariamente, desabam sobre leitores e telespectadores não retrata a realidade vivida pela maioria esmagadora da população. Na verdade, ainda há muita gente que cultua os valores éticos, os quais dão sentido e dignidade ao ato de viver; ainda há pessoas que, diante do vizinho doente, correm a socorrê-lo; e sofrem por uma criança abandonada; e estendem a mão a um amigo necessitado; e choram pelas vítimas de uma injustiça, como qualquer ser humano.

A violência não é uma invenção da mídia. Mas sua espetacularização é um efeito colateral que deve ser evitado. Não se trata, por óbvio, de sonegar informação. Mas é preciso contextualizá-la. A overdose de violência no jornalismo pode gerar fatalismo e uma perigosa resignação. Não há o que fazer, imaginam inúmeros leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Acabamos, todos, paralisados sob o impacto de uma violência que se afirma como algo irrefreável e invencível. E não é verdade. Podemos, todos, jornalistas, formadores de opinião, estudantes, cidadãos, enfim, dar pequenos passos rumo à cidadania e à paz.

Os que estamos do lado de cá, os profissionais da mídia, carregamos nossas idiossincrasias. Sobressai, entre elas, certa tendência ao negativismo sensacionalista. O rabo abana o cachorro. O mote, frequentemente usado para justificar o alarmismo de certas matérias, denota, no fundo, a nossa incapacidade para informar em tempos de normalidade. Mas, mesmo em épocas de crise (e estamos vivendo uma gravíssima crise de segurança pública), é preciso não aumentar desnecessariamente a temperatura. O jornalismo de qualidade reclama um especial cuidado no uso dos adjetivos. Caso contrário, a crise real pode ser amplificada pelos megafones do sensacionalismo. À gravidade da situação, inegável e evidente, acrescenta-se uma dose de espetáculo. O resultado final é a potencialização da crise. Alguns setores da mídia têm feito, de fato, uma opção preferencial por uma agenda negativa. O problema não está no noticiário da violência, mas na miopia, na obsessão pelos aspectos sombrios da realidade. É cômodo e relativamente fácil provocar emoções. Informar com profundidade é outra conversa. Exige trabalho, competência e talento.

O que eu quero dizer é que a complexidade da violência não se combate com espetáculo, atitudes simplórias e reducionistas, mas com ações firmes das autoridades e, sobretudo, com mudanças de comportamento. O que critico não é a denúncia da violência, mas o culto ao noticiário violento em detrimento de uma análise mais séria e profunda.

Precisamos, ademais, valorizar editorial e informativamente inúmeras iniciativas que tentam construir avenidas ou ruelas de paz nas cidades sem alma. É preciso investir numa agenda afirmativa. A bandeira a meio pau sinalizando a violência sem-fim não pode ocultar o esforço de entidades, universidades e pessoas isoladas que, diariamente, se empenham na recuperação de valores fundamentais: o humanismo, o respeito à vida, a solidariedade. São pautas magníficas. Embriões de grandes reportagens. Denunciar o avanço da violência e a falência do Estado no seu combate é um dever ético. Mas não é menos ético iluminar a cena de ações construtivas, frequentemente desconhecidas do grande público, que, sem alarde ou pirotecnias do marketing, colaboram, e muito, na construção da cidadania.

A Olimpíada não foi só um belo espetáculo. Projetou uma boa imagem do Brasil. Acariciou nossa autoestima. Quem sabe, assim espero, também tenha suscitado uma reflexão sobre o nosso modo de informar.


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