O mundo assombrado pelos demônios

Não é mera coincidência parte da minha história de vida pessoal e da relação com a ciência partilhar do título de uma das obras de Carl Sagan. E para explicar o motivo disso, preciso te levar aos primórdios da minha infância.
 Eu sempre fui uma criança curiosa. Desde o momento que me entendo por ser humano autoconsciente, sei que questionava tudo e todos e tinha a maior das satisfações em descobrir o que algo novo era ou como funcionava. Os poucos brinquedos eletrônicos que a modesta condição familiar me permitia eram fontes sem fim de entretenimento. E isso era do momento em que o brinquedo era retirado de sua embalagem original até o climax que era quando ele parava de funcionar. Afinal de contas, era isso que me dava o direito de abri-lo e mergulhar no universo dos componentes eletrônicos que formavam cada estrutura interna ; quase alienígena para o meu eu de 3 ou 4 anos.
 As horas acendendo leds ou fazendo girar motores de passo com pilhas formaram a estrutura embrionária do que viria posteriormente se tornar o meu amor pela Engenharia e ainda mais tarde, a escolha da Engenharia Eletrônica como objetivo acadêmico.
 No entanto, além da aptidão a carreira de Engenheiro, a curiosidade me levou a um fascínio sobre a natureza das coisas e a uma busca incansável por respostas sobre tudo a minha volta. Não só respostas, mas justificativas e provas que me deixassem minimamente satisfeito com os argumentos apresentados. Essa fagulha de método científico era um elemento perfeito para um adepto das ciências exatas. Contudo, um (na época) pré adolescente questionador pode significar problemas dentro de uma família fervorosamente religiosa.
 Ainda que sem entender a extensão disso, não demorei muito para compreender as limitações da minha condição financeira e social. Viagens internacionais não eram uma opção viável, visita a museus era totalmente fora do contexto de vida dos meus pais (e por consequência da minha) e o contato com as mais diversas artes e ciências que eu conseguia ter era limitado pela precária estrutura do ensino público do Rio de Janeiro.
 Em negação, me rebelei. Da única e talvez menos cara e labutar maneira que consegui imaginar. Resolvi que na medida do possível (e financiável), ia me enterrar em livros. A imaginação e a leitura é o único caminho de auto expansão do conhecimento com recursos ilimitados. Mergulhei de cabeça. E me via figurativamente crescendo como pessoa a cada livro que lia. De versões simplistas do Big Bang e da Teoria Evolucionista até a deliciosa fantasia londrina de J.K. Rowling e a definitiva obra de J.R.R. Tolkien.
 Tanta informação nova não podia ser contida na minha cabeça e como bom adolescente que era, o que se passava no meu cérebro quase sempre “vazava” pela boca. Na época, não sabia que a divergência de ideias sobre assuntos científicos e sociais poderia ser motivo de repreensão. Para piorar, eu sofria da inocência de acreditar que mais idade era sinônimo de mais sabedoria sobre o que quer que fosse.
 Não demorou muito para a tentativa de supressão dessas ideias e comportamentos começar. É importante dizer (para contextualização) que venho de uma família materna majoritariamente cristã protestante fervorosa. E embora eu não tenha nada contra a crença, a soma dessa animosidade com a baixa escolaridade quase que geral da geração anterior a minha, contribuiu para um dilúvio de ideias fechadas. Sem falar na reprodução não processada de pensamentos preconceituosos e superficiais e por último e não menos importante, a negação sistemática de qualquer coisa que fosse na contramão da interpretação deles do próprio livro sagrado.
 Esses momentos ruins sempre tiveram seus pontos altos e baixos. Já tive de esconder livros de parentes quando me visitavam, evitar escutar certos tipos músicas e alguns jogos sequer poderiam ter suas capas mal escondidas pela casa porque renderiam longos discursos de repreensão. Foram incontáveis as vezes onde meus livros e jogos foram demonizados. Com a música era um caso diferente, era uma habitual interpolação entre demonização e classificação como música inferior por ser “do mundo”. Nada contra aqueles que se contentam com louvores e adorações o tempo inteiro. Eu só me achava no direito de explorar músicas que falavam dos mais diversos tipos de histórias e sentimentos. Sensações que eram novidades para mim tanto em definição como intensidade.
 Vale ressaltar que esses eram só os pontos mais amenos dessas situações. Nos mais extremos, houveram acusações de heresia e até críticas das minhas roupas estarem estimulando o desejo pelo pecado. Agora tente imaginar o quão jocoso isso soa para um rapaz que simplesmente usava regata e bermuda onde o padrão imposto era calça comprida e camiseta. A autoconsciência do meu sobrepeso e a autoestima abissal só me fazia rir dessas situações.
 Eram incontáveis os discursos sobre como tudo o que eu gostava me afastava da divindade dos meus familiares e como tudo o que eu consumia era assombrado por demônios. Pedaço por pedaço, os monólogos até então enfadonhos iam desmoronando de acordo que eu mergulhava cada vez mais no amor pela ciência e todos os demônios que eu via eram aqueles que se encontravam na mira da minha escopeta nas noites jogando Doom.
 Demorou, mas fatalmente aprendi como a lidar com a situação. Tomei conhecimento de que a importância e efetividade das minhas palavras não dependia apenas delas por si só, como também do momento e para quem elas eram proferidas. Hoje, me reservo do direito de não discutir com essas pessoas certos aspectos políticos, sociais e principalmente científicos. Não acho que elas sejam más. Só acredito que a bondade e empatia delas tem espectros limitados a respeito do que podem se manifestar.
 De certa forma, essa pressão moldou muito do meu jeito de pensar e me expressar. Eles foram mais ou menos como uma forja. O lado negativo gerado certamente foi a reflexão excessivamente introspectiva (juro que esse texto é um ponto fora da curva nesse sentido). Por outro lado, essa “pressão” fomentou continuamente a minha vontade de buscar a formação de uma persona independente. Um construto da análise dos fenômenos que me cercam, balanceados com decisões ponderadas — sejam elas corretas ou não.
 Mais do que tudo isso, eu desenvolvi uma vontade de que todas as pessoas a minha volta tenham o direito de ser assim. Eu desejo de verdade que você e qualquer um(a) tenha a possibilidade de se desenvolver em cima do testemunho empírico das suas vivências e experiências.
 Se essa não tão breve história tem uma mensagem principal, eu diria que : É direito seu questionar e construir quem você é. E se o mundo é assombrado por demônios, eles não passam de ignorância e intolerância — bem ou mal intencionada — encoberta pela escuridão.