As vidas de Jorge

Para um viajante desatento, a pequena cidade de Rurópolis- PA pode passar desapercebida. Situada numa grande clareira em meio a floresta tropical, está pequena notável de 40 mil habitantes marca o entroncamento de duas das maiores obras rodoviárias da história do Brasil: as BR’s 163 e 250 - Cuiabá-Santarém e Transamazônica, respectivamente.

Esta municipalidade , conhecida principalmente por abrigar o Posto do Trevo, esconde dezenas de lendas e causos peculiares. E este é só um pequeno exemplo da riqueza do folclore local. Uma história real, não tão conhecida quanto devia, mas absolutamente verdadeira e fascinante. A história do Jorge.

O Jorge era assistente do diretor do fundo previdenciário da prefeitura local. Cargo concursado que ele, Jorge, orgulhosamente ocupava há uns bons 30 anos . Três décadas de bons serviços prestados.

Pois foi numa bela segunda-feira que o Jorge, um sujeito atarracado com uma cabeça grande que ostentava uma lustrosa careca, recebeu um misterioso pacote do correio, na primeira entrega, antes das 8 da manhã.

Nesse dia o Jorge tomou um banho caprichado e fez a barba como de costume : duas vezes no sentido que nascem os pelos, duas vezes no contra. Vestiu-se com um prumo fora do habitual e abriu a caixa, revelando uma bela peruca negra.

O Jorge nunca tinha usado uma peruca. Fora atingido com uma calvice deveras precoce, ao 22, e se acostumou com ela. Era um sujeito que se acostumava com tudo, esse Jorge. Talvez sua maior frustração da vida foi quando, na presidência do fã clube paraense do ator Tom Selleck, ele não teve a coragem necessária de deixar crescer o bigode.

Mas nesse dia, talvez os astros estivessem todos alinhados e, o Jorge vestiu a peruca. Vestiu e viu os risos contidos da patroa e dos dois bacuris durante o café da manhã, que tinha tapioca e suco de cupuaçu. Sentiu o deboche também, no olhar do Ricardo, dono da única banca de jornal do município. Na repartição, situada no oitavo andar do único prédio da cidade, o Jorge quase arrancou a peruca diante dos olhares de julgo dos colegas.

Por isso, neste dia, o Jorge fez hora extra. Na verdade, perdeu a hora, escondido no almoxarifado. Quando se preparou pra ir embora, chovia torrencialmente na cidade e o escritório já se encontrava vazio.

Pois o Jorge entrou no elevador e, quando as portas fecharam, um raio atingiu o prédio, fazendo com que o elevador caísse feito uma pedra no abismo. Até a peruca, com a força da queda, saiu da cabeça do Jorge, logo depois de ele ter desmaiado.

Um tempo depois, o Jorge acordou com o elevador parado no andar -8. Ele desemperrou a porta, e viu-se num quarto absolutamente escuro, aonde só era possível ver duas portas corta fogo, uma em cada extremidade.

Ao entrar ressabiado, Jorge percebeu outra presença naquele ambiente. Deu alguns passos tímidos e, de repente, deu de cara com um tipo curioso. Era sua imagem e semelhança, porém tinha um cabelo branco feito a neve, cumprido e de mullets, além de ser magro e muito bem bronzeado. O sujeito também se assustou, e eles cutucaram um ao outro, aumentando o espanto de ambos.

Ainda estupefatos, demoraram alguns instantes até perceberem que uma das portas corta-fogo fora iluminada. Por uma razão inexplicável caminharam juntos, sincronizados, até a porta e atravessaram-na.

A porta revelou uma pequena cidade, muito parecida com a aprazível Rurópolis, mas com um detalhe. Todos, absolutamente todos, os seres vivos locais andavam em dupla e seus pares, apesar de aparentarem ser gêmeos, se apresentavam totalmente antagônicos.

Eram policiais ao lado de bandidos, padres com políticos, sem terra e latifundiários, girassóis e samambaias, cachorros e gatos. Todos iguais mas diferentes.

E Jorge e o sujeito eram mais do mesmo naquele universo. Caminharam calados até um pequeno estabelecimento onde haviam umas cabines equipadas cada uma com dois óculos de realidade virtual e duas cadeiras, onde sentaram.

Ao vestir os óculos, Jorge realizou que aquele sujeito era ele mesmo. E um vídeo surgiu comparando suas vidas. Enquanto Jorge, o burocrata, nunca deixou um bigode, o outro Jorge cultivou uma bela e vistosa taturana acima do lábio, o que o levou a uma vida de aventuras.

Enquanto o Jorge da repartição estudava, o outro Jorge viajava de carona pela América do Sul, acompanhando um circo colombiano. Quando Jorge se casou, o outro participava de um ritual sagrado com alguns Apaches, no meio do Wyoming, onde se tomava a mescalina. No dia em que Jorge passou no concurso público, o outro estava em Londres, protestando contra o governo Tatcher.

E o vídeo seguiu, revelando as diferenças entre os dois, até se aproximar daquele dia. Enquanto Jorge buscava na família, no emprego, na prestação do carro e no cuido com seu jardim um preenchimento para seu vazio, o outro viva de galho em galho, procurando algo em que pudesse se agarrar, buscando exatamente o mesmo.

Quando o vídeo acabou, eles se dirigiram a saída daquele mundo paralelo. Em frente a porta, se olharam. O Jorge paralelo sugeriu que eles trocassem de vida, para sentir a experiência de maneira mais real, mas o Jorge burocrata recusou.

Ele percebeu que, de bigode ou sem, careta ou doidão, careca ou cabeludo, seus problemas sempre seriam os mesmos.