Essa sociedade é tão secreta que você nunca ouviu falar

Ou como encontrei a SSC


Não me lembro exatamente quando foi que aconteceu, mas foi em 2013, talvez no primeiro semestre. Ou no segundo. Mas o fato é que certo dia abri a página do facebook, como quem abre a geladeira pra pensar na vida, e fui rolando as notícias. Depois de muitas listas, gatos e bundas, algo me chamou a atenção. Era alguma coisa do Palmeiras, que na época tava mal das pernas. Como bom corneteiro que sou, resolvi soltar um belo gracejo na parte dos comentários, algo do tipo “Esse Ananias é o Beckham sem grife”. Mal sabia que aquilo mudaria minha vida.

Aquele comentário gerou repercussão. Em poucos minutos consegui mais de 450 likes, uns 30 comentários dizendo “kkkkk” ou variações e algumas dezenas de frases elogiosas. Claro, houve quem criticasse minha, modéstia parte, sagacidade em tal comparação mas esses eu preferi ignorar. Recebi também algumas solicitações de amizade, de pessoas aparentemente duvidosas. Recusei a maioria, mas cheguei a adicionar dois ou três e então fiquei, de certo modo, orgulhoso daquela pequena frase.

Poucas horas depois do comentário de destaque, recebi um e-mail, sem remetente e um tanto intrigante, o qual transcrevo aqui.

“Senhor,

Encontre-nos na padaria da esquina de sua casa, amanhã as 11 horas em ponto. Assunto de extrema urgência e de seu interesse.

Venha sozinho

Att.,

SSC.

P.S: sabemos onde você mora ! “

Confesso que aquilo me deixou um tanto intimidado. O tom ameaçador e a falta de remetente eu conseguia entender. Podia ser alguém cobrando uma divida antiga, e se tem uma coisa que eu faço bem é enganar cobrador. Esses dias mesmo me veio um sujeito cobrar uma divida do carro. Ele me ameaçou bastante até, mas duas horas depois a gente foi tomar uma cerveja. Claro que ele pagou. E olha que não foi a primeira vez.

Também é normal saber onde as pessoas moram. O mundo inteiro sabe onde mora Barack Obama, e isso não traz qualquer ameaça a segurança dele. Ok, na verdade até traz, mas ele tá vivo há quase 8 anos no mesmo notório endereço.

O que intimidou mesmo foi o local escolhido. A padaria da esquina é sacanagem. Ninguém vai na padaria da esquina. O pão é duro, o café é amargo e até a coca-cola é ruim naquela espelunca. Dizem que ela foi construída em cima de um cemitério indígena. Pode ser, mas acho que é maledicência do povo. Aquele lugar não serve nem pra enterrar urubu, quanto mais índio. Fato é que, esses dias mesmo, encontrei o dono da padaria da esquina na padaria da rua de cima tomando um pingado.

Como não tinha remetente, não pude sugerir a mudança de local. Então, depois de uma bela noite de sono, voltei ao facebook pra conferir os louros de meu post de sucesso. Centenas de novos likes e comentários e algumas dezenas de novas solicitações de amizade. Embriagado de sucesso, parti para meu misterioso encontro.

Cheguei na padaria antes do combinado e ela obviamente estava vazia. Suspeito que aquela pocilga sirva pra lavar dinheiro. Sou meio caipira, e pra caipira qualquer comércio que, aparentemente, não dá certo e permanece aberto é lavagem de dinheiro.

O chapeiro surgiu do banheiro, meio que esfregando as mãos na calça, e me perguntou se eu estava perdido. Respondi que não e pedi uma água, para espanto do homem. Depois de 30 segundos em estado de choque sem razão aparente, ele me serviu a água num copo americano surpreendentemente limpo e eu me acomodei na unica mesa do local.

Dez minutos depois chegou um tipo esquisito, de 50 e poucos anos, vestindo terno cinza e chapéu. Parecia judeu. Ou maçom. No minimo era membro do Rotary ou do Lions. Existem pessoas que logo que você bate o olho sabe que fazem parte de alguma casta dessas, e aquele tiozão de chapéu e terno era um desses.

Ele olhou pra mim, eu olhei pra ele e foi estranho. Quando menos percebi, ele estava sentado na minha mesa, me encarando de cima a baixo, o que me incomodou muito. Depois de algum tempo, ele se apresentou como o autor do e-mail misterioso e disse que poderia chama-lo Reverendo. Ok, cada um se dá o título que quiser, mas achei esquisito um cara se intitular reverendo. Eu dele ficaria com a alcunha de “o Apóstolo”,“vice-Deus” ou “ O Pica”, mas gosto é gosto.

Mas, mesmo sendo um respeitador do gosto alheio, perguntei o porque de reverendo, questionando também o plural usado no e-mail. Reverendo me explicou que ele não era “o Reverendo”, mas sim parte de uma entidade. Não entendi, mas fiz cara de inteligente. Acho que ele comprou a ideia, porque prosseguiu.

Reverendo então falou-me amenidades. Contou que a edição da Folha daquele dia já tinha esgotado na banca da rua paralela, o que é uma coisa atípica, concluí. Ele também me disse que cria dois Whippets, e os tinha deixado no petshop para um banho. Eu gosto de Whippets, mas não contei isso a ele. Depois ele falou da carga tributária, da má qualidade da padaria da esquina, do campeonato brasileiro de frescobol, técnicas de churrasco, política externa, história, matemática, poesia, e muita coisa que eu não lembro.

Passados quarenta minutos de conversa, eu já estava estafado daquilo. Claro que, como sujeito educado que sou, participei ativamente de tudo, mas cheguei ao meu limite. Então, sem meias palavras, perguntei o motivo daquele convite. O homem se assustou com a objetividade da pergunta.

Reverendo então se ajeitou na cadeira e revelou-me suas intenções. Segundo disse, eu fui aceito em uma sociedade secreta secular, a qual menos de 1% das pessoas eram aceitas. Pensei que era a Mensa, mas ele tinha cara de burro e eu nunca fiz um teste de QI na vida. Depois pensei nos escoteiros, mas ninguém vira escoteiro depois dos 30. Sem contar que o líder dos escoteiros não se intitularia reverendo.

Desisti de imaginar qual sociedade seria e perguntei. Ele não respondeu. Disse que precisava que eu o acompanhasse até uma das sedes antes de maiores detalhes. Eu não tinha nada pra fazer e fui com o homem, em seu carro, um Lada vermelho caindo aos pedaços. No caminho mais amenidades. O clima, o cinema italiano, filosofia alemã, enxadristas inesquecíveis e outros assuntos interessantíssimos.

Chegamos a um velho galpão, alto e aparentemente abandonado. Reverendo foi entrando, e ali eu comecei a ficar com medo. Mas como a gente tava longe pra cacete da minha casa, e eu com preguiça de pegar um ônibus, fui entrando ressabiado.

Dentro do galpão tive uma das maiores surpresas que da minha vida. Milhares de livros em uma estante interminável, que forrava todas as paredes, com mais de 6 metros de altura. No vão livre, dezenas de mesas grandes, com algumas centenas computadores, todos ocupados por pessoas aparentemente muito concentradas. Outros pesquisavam em livros grossos. Também pude contar uns 25 pequenos grupos de 4 pessoas, cada um fazendo um tipo de brainstorming.

Fiquei estasiado olhando tudo aquilo. Era realmente impressionante. Reverendo me puxou pelo braço e nós cruzamos todo aquele ambiente, adentrando numa pequena sala, toda em vidro, do outro lado do galpão.

Ficamos de dentro da sala observando aquelas pessoas trabalhando. Era muito estranho, porque sempre que os caras fazendo brainstorming ficavam felizes, um ia correndo pro computador e digitava algo, enquanto outro acompanhava no celular. Vinte minutos depois, Reverendo pediu que eu me sentasse, e começou a discorrer sobre a história daquela sociedade.

Ele me contou que aquela sociedade nascera junto com a escrita, por volta de 4.000 AC, na Suméria. Foi evoluindo, passando pelo Egito antigo, o Império Romano, quase se extinguiu na Idade Média, mas voltou com força na Renascença e , depois de Gutemberg, vem em franca expansão, vivendo nos dias de hoje sua glória.

Ainda não tinha entendido o que se fazia ali e Reverendo fazia cara de mistério. Mesmo assim indaguei-o a respeito das atividades daquela sociedade, que mais parecia ser uma empresa moderninha. Ele me disse que era uma filosofia, um modo de vida, e prosseguiu.

Revelou-me que eles estudavam todas as áreas do conhecimento humano. Das mais importantes, como a astronomia, até as mais inúteis, como o futevôlei.

Era a Sociedade Secular dos Comentadores, a SSC, um grupo de estudos que passa 24 horas do dia vendo noticias e pensando em comentários que lhes renda audiência. Segundo Reverendo, 95% de todos os comentários com mais de uma centena de likes feitos na internet, e quase a totalidade das cartas enviadas às redações de periódicos mundo afora partem da SSC. Parte dessa estatística se deve ao fato da politica agressiva de recrutamento deles.

Entendi o motivo de eu estar lá. Foi o maldito comentário. Não queria atrapalhar a epifania professoral de Reverendo, então continuei ouvindo.

Falou-me então das possibilidades que teria ali. Poderia ser comentarista famoso, conseguir tudo que o sucesso proporciona. Mulheres, automoveis, grandes festas. Não consegui compreender tal relação, mas ele falava convicto usando neologismos como monetização e palavras gringas como target, o que me deixou deveras confuso, mas aumentava a plausibilidade do discurso.

Citou exemplos de membros proeminentes da associação. Chico Lang, Arnaldo Jabor, Diogo Mainardi, José Luis Datena e, mais recentemente, aquele japonês que dava playstations no SBT e agora virou colunista da Folha, o Kim Kataguiri, dizendo que eu, como havia escrito tão distinto comentário, poderia facilmente entrar nesse rol de expoência.

Meu espanto foi tremendo. Consegui ainda ouvi-lo falar que hoje os jornais já não procuram mais seus colunistas em redações, blogs, universidades e muito menos no mercado editorial. Esse tempo já acabou. Os veículos consultam primeiro a SSC. E essa seria minha grande oportunidade.

Só conseguia agora pensar na vergonha. Que pensariam meus pais ? Então, não tive dúvidas. Corri o mais rápido que pude para longe daquele local, daquele homem, daquela gente e da triste perspectiva que haviam me proposto.

Sim, é muito gratificante professar gracejos, impropérios e opiniões duvidosas em meu circulo social. Mas tornar disso uma suposta profissão, fazer-me notável por comentários esdrúxulos, seria insuportável.

Voltei pra casa e desde então nunca comentei coisa pública alguma. E dou este aviso ao leitor deste texto. Antes de destilar sua sapiência no espaço de comentários, deste texto ou de outros, pense. Você quer ser como os membros (notórios ou não) desta sociedade ?

Afinal, já dizia minha vó, “a palavra é de prata e o silêncio é de ouro”


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