Uma Medalha de Ouro Agridoce


O futebol foi um dos primeiros esportes coletivos a fazer parte dos Jogos Olímpicos dos dias modernos, lá na cidade de Londres, em 1908. Pode ser visto como o primeiro título mundial, antes mesmo da Copa do Mundo, inciada em 1930.

Dentre os vencedores da Medalha de Ouro nesta modalidade, tivemos desde tradicionais equipes européias como Grã-Bretanha, Itália, Alemanha e França. Zebras como Nigéria, Camarões (do perigoso Kanu) e México. Até nossos hermanos, Uruguai e Argentina, tiveram suas conquistas olímpicas.

Para o Brasil, o Ouro Olímpico foi se tornando uma verdadeira obsessão. E isto acontece mesmo sendo disputada com equipes alternativas, formadas por jogadores menores de 23 anos e três convidados acima desta idade. Para o Pentacampeão Mundial, autoproclamado País do Futebol, era a única conquista ainda não realizada.

Brasil Pentacampeão Mundial de Futebol (2002)

Em três edições antes chegamos às finais (e é sim um pouco esquisito escrever no plural). Foram em Los Angeles (1984), Seul (1988) e Londres (2010), resultando em três Medalhas de Prata. Também conquistamos duas Medalhas de Bronze, em Atlanta (1996) e Pequim (2008). Decepções de todos os tipos para uma equipe sempre favorita, com até mesmo eliminação na já extinta morte súbita na prorrogação.

Por outro lado, o roteiro se encaminhava para uma vitória épica e inesquecível em próprio solo, em pleno Maracanã. Em 2016, os Jogos Olímpicos seriam sediados no Rio de Janeiro. Seria a oportunidade perfeita para tentar apagar o Maracanaço da derrota na final da Copa do Mundo de 1950. Parecia, então, que o nosso roteirista havia guardado uma data especial para esta conquista.

O anúncio do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos

Os Jogos tem seu início em um cenário ainda mais desfavorável. Na Copa do Mundo de 2014, dois anos antes, a Seleção sofrera uma das maiores derrotas de sua história. Também em casa, fora atropelada pela Alemanha no lendário 7 a 1. Duas desclassificações precoces nos torneios continentais e uma pífia campanha nas eliminatórias para a Copa de 2018.

Não precisa de legenda.

Como consequência da nova reformulação, a demissão do técnico Dunga às vésperas dos Jogos, como mais uma tentativa de retomar o bom futebol e, principalmente, o apreço do torcedor pela Seleção. No comando ficou Rogério Micale, um treinador desconhecido e inexperiente comandando um grupo de jovens com muito ainda o que provar.

Neymar, o craque. Pressionado pela falta de atitude com a braçadeira de capitão, por ausências em momentos importantes e por declarações atacando imprensa e torcedores. Terminara a temporada anterior em baixa, com marcação dura dos críticos de futebol. Tinha uma nova oportunidade de escrever seu nome na história na Seleção Canarinho.

Muitos cartões causam ausência do esperado líder em campo

O veterano Fernando Prass, goleiro de 38 anos, também é convocado, para ser uma verdadeira e experiente liderança dentro da equipe. Por obra de nosso roteirista, acaba sendo cortado por lesão no cotovelo recém-operado durante os treinamentos. Weverton é surpreendentemente convocado para seu lugar, por sua habilidade em sair jogando com os pés.

Não satisfeito com essas dificudades, nosso roteirista prepararia um antagonista dos mais interessantes. A Seleção Feminina de Futebol, também em busca do Ouro inédito, disputado em casa. Também carregando o peso de duas Medalhas de Prata, em Atenas (2004) e Pequim (2008). Marta, a maior jogadora de todos os tempos, comanda a equipe. Carisma e identificação com o público que foram perdido pelos jogadores e seus salários luxosos.

Marta é do tamanho de Pelé

Com todo este panorama apresentado, iniciamos os Jogos do Rio com a fase de grupos. Nas duas primeiras partidas, empates sem gols contra as inexpressivas África do Sul e Iraque. O craque pouco aparecia, dentro e fora de campo, por liderança ou por técnica. O técnico o protegia e blindava incondicionalmente. A classificação, já até questionada pela imprensa, é garantida após uma vitória sobre a Dinamarca, por 4 a 0. Enquanto isso, as meninas de Marta goleavam com sobra suas adversárias, caindo nas graças da torcida. A parte amarga deste roteiro planejado.

Até os defensores mais cegos do produto Seleção Brasileira começaram a se revoltar

A grande virada, guardada por nosso roteirista hipotético, acontece nas semi-finais.

A exaltada equipe feminina enfrenta, mais uma vez, a forte Suécia, que havia eliminado as sempre favoritas garotas dos EUA. Um jogo dificílimo, contra um time completamente retrancado. No fim, a campanha avassaladora do início do torneio se transforma, chegando à terceira partida sem gols, a segunda consecutiva decidada nos pênaltis e, dessa vez, sem o brilho da goleira Bárbara para salvar a classificação. Não conseguiriam se reerguer nem na disputa pelo Bronze, contra o Canadá. Era um fim melancólico, recheado de despedidas e incertezas sobre o futuro da modalidade.

Elas eram o sonho enquanto eles tinham a obrigação

Do outro lado, na outra modalidade, a contestada equipe masculina atropela Honduras, marcando seis gols, sem misericórdia. Começavam a converter as críticas da imprensa em elogios e as dos torcedores em esperança.

E quando o talento individual sobra mas não existe coletivo?

E chegamos à grande final. Caprichosamente realizada em uma partida contra o grande algoz do último Mundial: a Alemanha. Ainda que não seja a mesma equipe ou o mesmo torneio, o sabor da revanche é evidente para o torcedor. Que roteiro, hein?

O craque Neymar brilha e abre o placar em uma cobrança de falta, digna das cobranças de Zico, naquele saudoso Maracanã de outros tempos. O talento individual dos brasileiros começa a falhar, enquanto a organização alemã começa a dominar o jogo. São as características que os fizeram Tetracampeões do Mundo, naquele mesmo novo Maracanã. Conseguem o empate ainda no segundo tempo, levando também a partida para a decisão por cobrança de penalidades.

Na última série de cobranças, depois de quatro penalidades convertidas para cada lado, o goleiro Weverton aparece e impede que a quinta cobrança seja convertida em gol. O acreano se torna um herói tão improvável quanto seria ofuscado.

“100% Acre”. Nada poderia ser mais “100% Brasil”.

Ofuscado pelo brilho de Neymar, que converteu a última cobrança trazendo o título inédito e tão cobiçado para o Brasil. E ele corre para os braços da torcida, em êxtase.

A festa explode nas cadeiras do estádio, nos telões espalhados pela cidade, nas casas de quem só pode acompanhar pela televisão. Era a felicidade tão desejada. Um capítulo terminado para alegrar um povo tão sofrido.

Final feliz?

Seria um incrível final feliz. Um jovem herói em redenção ao lado de um herói inesperado. Antagonistas apaixonantes ensinando duras lições sobre o jogo. Vilões, que são adversários de longa data, derrotados em batalha épica. Mas não foi esse o final reservado para nós pelo roteirista. Não é aqui que acaba. Não é na parte doce. A partida acabava ali mas a história não.

O craque se entregava na torcida, mas não no torcedor comum. Correra para abraçar seus próprios amigos, curiosamente bem posicionados nas primeiras filas do estádio. Em entrevista, logo depois, confessou também procurar por uma pessoa especial, revelada, mais tarte, como sua ex-namorada, famosa atriz de televisão. Em nada se importava com o povo ordinário que ali torcia por ele.

Jesus não o ensinou a dar o outro lado da face?

O mesmo craque, ao invés de deixar uma mensagem de inspiração para novos atletas, como muitos vencedores de outras modalidades se preocuparam em deixar, apenas copiou um patético desabafo de um antigo treinador da mesma Seleção, dizendo que teremos que lhe engolir.

Liderados por ele, os jovens jogadores se preocuparam mais em responder à imprensa nas redes sociais do que em comemorar com os que lhes apoiaram. Como se a crítica à eles fosse o pior dos crimes. E talvez seja quando se vive em um Mundo que gira unicamente ao seu redor.

Não havia nada a ser engolido. Durante os 120 minutos de jogo, faltou muito futebol para derrotar a jovem Alemanha olímpica. Uma vitória nos pênaltis não dá condições de devolver as críticas. Dá apenas o direito de comemorar, que muito pouco aproveitaram. Se tivessem devolvido o 7 a 1, vencido com autoridade, aí era outra história.

Nenhum destaque foi dado ao goleiro Weverton por sua defesa, ao contrário do que como costuma acontecer em praticamente todas as decisões por penalidades. Escondido pelo ego de um outro herói, mais preocupado em ter seus mimos recuperados.

Não era sobre a vitória histórica e um pouco de felicidade para os brasileiros que fazem parte desta torcida. Nunca foi. Era apenas sobre responder às críticas e mostrar quem manda.

Ele disse que estava aqui mas não quer ser cobrado quando não corresponde

A última e mais esperada das conquistas, o Ouro Olímpico no nosso esporte, não teve o sabor esperado. Não foi possível saborear como seria em caso de vitória das meninas. Não é só o resultado que importa. Não teve pandeiro entrando em campo.

Às vezes, quando finalmente se consegue a conquista tão desejada, não tem o gosto esperado. Mesmo quando o roteiro era quase óbvio, ainda que muito épico. O nosso roteirista guardava esse sabor desde o princípio. Agridoce.