Histórias de um futuro abstrato

Polifemo

Ninguém tinha saído aquele dia. O dia chuvoso prendia os homens mais ainda em suas celas. Alguns guardas assistiam televisão, outros dormiam, mas todos estavam abstraídos dos prisioneiros. Naquele momento no meio da madrugada, algo nasce na cela de número 404. Não uma criatura, mas uma ideia poderosa, tanto quanto perigosa. Nos corredores escuros da penitenciária não se ouvia quase nada, exceto por vozes baixas e graves nos fundos do segundo andar.

Eliseu dividia sua cela com três homens, e todos tinham sido presos por causas federais. Aro era o mais forte dos rapazes, e também o mais calado. Igor demonstrava interesse na ideia de Eliseu, e Luca se sentava no canto da cela juntamente à Aro. Fingiam que não estavam ouvindo nada daquela história, afinal, ambos já tinham passagem por cadeias antes. A ideia de fuga parecia muito boa, apesar de colocar em risco a pouca amizade já feita pelos brutos homens da cela. Se algo desse errado, todos ali iriam para a solitária, e todos sabiam que de lá não voltava ninguém. Eliseu e Igor discutiam se era possível sair em uma madrugada, durante um dos picos de luz da penitenciária, que tinha um problema grave de energia. O dia chuvoso agravava o problema, que não tinha sido reparado pelas autoridades por falta de verba.

O barulho das celas incomodavam a todos, já que fazia tempo que o sistema não tinha sido trocado. As celas eram pouco espaçosas e tinham, no lugar dos antigos ferros, camadas intrespassáveis do que parecia ser um laser, que formava uma espécie de rede ou malha, que acabava por se tornar uma parede. Prisioneiros que tentaram se aproximar da nova tecnologia para escapar por meio a ela tiveram graves queimaduras de terceiro grau instantaneamente, já que o laser era de uma temperatura altíssima. O mesmo era alimentado por um gerador central e pequenos cubos de energia, localizados do lado das celas, nos corredores. Para abrir uma cela, uma chave deveria ir de encontro à fechadura do cubo, e é claro, só os guardas de maior importância ao órgão portavam a mesma. Não era passado nenhum cereal aos prisioneiros, exceto no horário do almoço,12:00, no refeitório sujo e desorganizado. Para sair daquele inferno, sabiam que precisariam de uma chave mestra, que ficava nas salas da televisão com os guardas. A senha que já tinham visto um determinado dia era um conjunto numérico de 4 números e 2 letras que mudavam diariamente, mas se quebrassem a chave, ela iria conduzí-los à mesma saída sem o auxílio da senha da chave.

No dia D, como decidiram chamar, Eliseu só se lembrava de sua esposa e de sua filha, que estavam do lado de fora. Era isso que o motivava, todos os dias. Sabia que sua esposa não tinha conseguido comprar o cereal de sua filha, sabia que provavelmente ela estava sendo cuidada pelo seu irmão, um marginal igual ou pior que ele. Tinha ciência de que tudo aquilo não passava de um pesadelo, de que tinha sido preso por algo que não tinha feito, mesmo sabendo que o fez. Tinha certeza que o mundo lá fora já não era mais o mesmo, que o acinzentado ficava cada vez mais cinza, assim como o azul e o verde também tendiam para o grafite. Seu colega Igor era bem mais novo, mas também era contemplado, ou amaldiçoado, por pensamentos que vinham de fora. Ilusões de que eram mais livres lá, e que poderiam ser felizes, mesmo que ninguém mais fosse. A dúvida atormentava os homens e os desconectava, conforme a falta de energia parava de alimentar o presídio.

A madrugada do dia D era a hora. Os guardas estavam recolhidos e a chuva caía violentamente sob os setores e as partes descobertas da prisão cinza. A luz caiu, como previsto. Durante pouco tempo na queda se ouvia o gerador dos cubos vibrar com a falta de energia, mas isso não incomodava os guardas, afinal, aquela era tecnologia de primeira, como diziam. Vinda lá de cima. Igor era o grande escolhido, mas a peça chave era Eliseu. O jovem menino ergueu a mão esquerda corajosamente e a queimou drasticamente na malha de laser que os trancava. Para sua surpresa, sua mão foi queimada muito mais do que esperava, e seu urro de dor despertou a atenção de muitos presos e alguns guardas do setor. Os presos e Eliseu começaram a gritar, pedindo auxílio médico, enquanto Luca e Aro permaneciam deitados em suas camas como se nada tivesse acontecido.

Os guardas vieram, e Eliseu sabia que se abrissem a malha conseguiria render um dos guardas enquanto Igor rendia o outro. Parecia fácil. Três guardas vieram e abriram rapidamente a malha. Eliseu se atirou em um deles e distribuiu largos murros em seu rosto, mas o outro guarda o eletrocutava com as velhas armas despreparadas para o combate. No momento do conflito, Igor conseguiu correr e puxar Eliseu, que corriam pelo longo corredor afim de pegar a chave mestra em uma das salas onde ficavam as televisões. Não olharam para trás, mas ouviam passos rápidos e homens determinados a matá-los, e não só a pegá-los. Igor, ainda com fortíssimas dores na mão, pegou a chave mestra, e a destruiu no chão duro. Corriam para sair por onde ficava o pátio e precisavam apenas descer uma escada para o primeiro andar, onde foram surpreendidos por mais um guarda de outro setor, que rondava a área.

O guarda rendeu Igor, que estava na frente, e o apunhalou com uma faca do mesmo laser da malha. Sabia que ninguém nunca ia procurar o menino, e que não seria inspecionado nem cobrado por isso. Eliseu se adiantou até o portão principal da saída. O guarda tinha batido com o cacetete no primeiro confronto em sua canela, e o homem sentia fortes dores que não o faziam desistir de chegar ao seu destino. Quando estava a aproximadamente cinco metros da porta principal, onde planejava escalar o muro e encarar os cortes de arame ao sair, não percebeu que havia outro corredor, e outra caixa de energia. O laser se fechou próximo demais de seu rosto e Eliseu foi atirado longe e no chão, olhando para o muro onde estava prestes a escalar, e para o portão principal se abrindo, inexplicavelmente. Talvez fosse reforço, muitos corredores levavam ao mesmo lugar, por isso parecia tão fácil. Eliseu foi perdendo a visão aos poucos, vendo por último uma forma bruta e forte, já olhando para ele de longe, ao portão.

“Quem me cegou?”- gritou Eliseu, desesperado.

“Ninguém.”- Respondeu Aro, saindo pelo portão por outro caminho e deixando o pobre homem sem esperanças.

Aro tinha comprado os guardas a exatamente duas semanas. Saíra pelo portão de serviço, numa madrugada chuvosa. Era um vereador poderoso onde morava, fazendo o que fazia de melhor. Sumiu na neblina.

“Ninguém me cegou”-disse Eliseu a si mesmo, sem forças, e sendo esmagado por dois guardas. Novamente, a liberdade o aprisionaria ainda mais.

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