Sobre dádivas, aliens e a esperança na loucura

“O seu amor, a sua ternura, eram apenas sonho. Mas valeria a pena aceitar sonhar com um amor que queremos viver na realidade?”

Simone de Beuvoir

Essa estranha dádiva que atende pelo nome de vida e nos foi conferida, sabe-se lá porque, é repleta de angústias complexas e mistérios que desafiam a ínfima compreensão humana. Dentre esses anseios de quem curte trocar ideias em viagens despretensiosas e regadas à canabinoides, destaca-se o papel da empatia nos relacionamentos humanos. Um sentimento estranho que permite olhar o mundo através de paradigmas que fogem da própria individualidade e possibilita superar o farol ilhado da sabedoria para mergulhar no infinito oceano dos questionamentos. Um sentimento esquisito que permite fugir da mascara da egovisão para ser capaz de assumir o papel de outrem e evitar o ópio das verdades individuais.

Imagine como seria se homens, privilegiados pela própria condição, se dispusessem a ouvir os brados de mulheres que há milênios lutam para sobreviver ao machismo e superar a opressão imposta pelo patriarcado. Se o homem de bem, branco e elitizado, reconhecesse as algemas que encarceram os negros, longe de terem sido desescravizados para ocupar dignamente a sociedade civil. Se as pessoas percebessem a besteira que é defender a cis-heteronormatividade, e o quanto isso é criminoso para grupos excluídos por não se encaixarem nesse padrão insustentável de tão mentiroso que é.

Fosse o afeto cultivado e as diferenças reconhecidas como bem vindas ao jogo, talvez o mundo fosse um lugar melhor para se brincar de dádivas. Se houvesse empatia de verdade, seria óbvio que não há ganho real em atacar o outro porquanto é a partir da relação com ele que verdadeiramente se define a individualidade do sujeito. Seria uma forma de evitar o inferno. O inferno que não pode mais ser os outros.

Quem sabe o status quo, esse delírio de conservadores, fosse abandonado em nome do amor, haveria espaço real para convivência equânime entre pessoas diferentes porque as diferenças não seriam vistas como problemas. Exatamente como já não são.

Se o vocábulo empatia abandonasse as páginas frias do dicionário e se instalasse na alma das pessoas, talvez não mais haveria necessidade de suportar com dores esse cotidiano afetado cujas principais marcas são a violência, a indiferença e a apatia de quem decidiu viver como robôs normalóides tecnicistas, preconceituosos e alienados.

Se isso acontecesse, talvez não haveriam mais estupros corretores contra mulheres sob a justificativa de… serem mulheres. Talvez as balas da PM pensariam duas vezes antes de assassinar o sujeito que seja, somente pela cor de sua pele. Quem sabe as pessoas seriam finalmente livres para amar quem quiserem e como quiserem, sem perder noites de sono pelo medo de serem corrigidas pelo moralismo criminoso de quem discrimina o diferente.

Talvez um dia, em um futuro desconhecido, algum átomo perdido no infinito do universerumano exploda e faça as pessoas pensarem sobre algo que não seja elas mesmas. Que defender o outro é reconhecer a si mesmo como indivíduo legítimo.

Ou quem sabe um alien desencontrado de uma dimensão paralela acabe tendo que parar por essas bandas e, desavisado, aproveite para discorrer sobre o quanto o fortalecimento e a construção da empatia foi essencial para o devido convívio social em sua realidade.

Somente com a marca da empatia no peito poder-se-ia efetivamente falar em respeitos e liberdades. Somente com essa marca insticionalizada seria prática instituída o direito que o indivíduo tem de se expressar como si mesmo contanto que não ataque a complexa subjetividade de outros. Porque liberdade de expressão não pode ser pretexto pra discurso de ódio travestido de opinião. Por que a liberdade de um termina no começo da do outro.

Pode ser sonho de jovem sonhador fumador de marijuana e há quem ache utópico exigir tamanha maturidade dessas pobres almas que são os sapiens. Para alguns, não é possível exigir aceitação e respeito de quem não concorda com determinadas bandeira levantadas por determinados grupos contra determinadas opressões. Mas há quem diga que a voz do oprimido deve ser o determinante de sua luta e que isso é questão de sobrevivência.

Há quem defenda que as coisas são como são e não há muito o que se fazer, rendendo-se a um conformismo deletério de quem não entende que pra quem sofre não há outra opção se não revolucionar as coisas como elas são.

E, é claro, há também os loucos da porra que defendem com unhas e dentes a manutenção de privilégios e de sistemas opressores que, infelizmente, matam gente pra caralho nessa vida.

Quanto a mim, que somente posso contribuir com a ínfima capacidade que meu privilégio me confere, prefiro seguir o caminho da subversão e existir como uma de muitas pedras no sapato dessa realidade perversa. Pra que seus pés se machuquem toda vez que me pisarem.

Prefiro a luta diária por conquista de espaço e de voz para os excluídos, ajudando-os a se empoderarem para enfrentar essa quebra de braço contra quem é cachorro comprado da ordem vigente.

Talvez estejam todos muito loucos nessa porra, tão perdidos quanto o alien que botou fé na humanidade.

Talvez abandonar a sanidade e assumir-se como louco seja a única forma de sobreviver ao patológico cotidiano que trata como doente mental qualquer um que não se encaixe nos padrões esperados.

Talvez a loucura seja a única resposta que teremos nessa dádiva que atende pelo nome de vida.

Ou pelo menos, até que alguma empatia, por milagre desconhecido, decida nortear as frágeis e liquidas relações humanas.

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