Além da política de identidade

A juventude de esquerda precisa recuperar a competência para o debate sobre a geração de riqueza e sua distribuição.

Em uma recente conversa com um amigo, externei uma preocupação: a juventude de esquerda não pode se tornar apenas o partido da política da identidade e/ou política da presença, ou mesmo o partido da virtude moral. Isso é absolutamente insuficiente. E não foi só por conta da derrota da Hillary que isso passou a me preocupar. Mas também a votação do Dória na periferia de São Paulo.

Em 2018 estaremos em frangalhos do ponto de vista econômico. A crise só vai crescer, e junto com ela o desemprego, as ocupações precárias, a decadência dos serviços públicos, e até a fome. A esquerda PRECISA DE UM DISCURSO ECONÔMICO CLARO E CONVINCENTE TAMBÉM.

A juventude de esquerda precisa agregar a seu repertório político, hoje bastante concentrado nas questões de identidade, uma compreensão da dinâmica da economia e de suas repercussões sociais. Nos úlitmos 30 ou 40 anos, o debate econômico era o terreno por excelência da esquerda. Mas perdemos isso, talvez por boas razões: para nos livrarmos do determinismo econômico e do materialismo dialético vulgar.

No entanto, por conta desse redirecionamento no curso da agenda de discussões, a juventude de esquerda hoje parece não estar suficientemente dotada das ferramentas e conceitos necessários para conduzir um debate sobre a economia do país com fluência. E isso precisa mudar urgentemente.

Aqueles que estão na esquerda precisam entender a dinâmica da economia brasileira, sua história, suas características, como ela está inserida na economia global. Precisam entender a dinâmica orçamentária e as disputas em torno dos recursos de Estado. Precisam entender a lógica da dívida pública, suas repercussões sociais e políticas. Precisam entender a lógica dos juros e do crédito, e das forças políticas que eles colocam em movimento.

Em resumo, a juventude de esquerda precisa entender e disseminar um melhor entendimento em torno das formas de produção da riqueza na periferia do capitalismo, e os problemas que giram em torno de suas formas de distribuição. Fazer Isso é importante porque trata-se de uma preocupação central da maioria dos eleitores de qualquer democracia. É uma preocupação que faz parte do cotidiano daqueles que não são programaticamente nem de direita nem esquerda, e que estão preocupados em como sobreviver, em como pagar o próximo aluguel, em como manter o filho na escola, em ter dinheiro para comprar remédios, em pagar o supermercado.

Tenho notado na sala de aula e nas redes sociais que, aqueles interessados em discutir economia com alguma curiosidade são justamente os jovens conservadores de direita. Eles recentemente descobriram os teóricos do neoliberalismo, a Escola Austríaca, Milton Friedman e estão ávidos por aplicar fórmulas de manual à realidade. O preocupante para mim é que o debate sobre economia entre a juventude está se tornando um território dominado da direita.

Outra consequência dessa tendência é que todos aqueles jovens que têm algum desejo de empreender, de abrir algum tipo de negócio, seja no comércio ou prestando serviços, são vistos com desconfiança ou desinteresse pela esquerda. No entanto, justamente esse grupo de pessoas que pode contribuir para a geração de emprego, renda, inovação e produção de riqueza — fundamentais para os projetos que a esquerda têm — encontra algum tipo de receptividade apenas ou majoritariamente na direita. E não podemos Isso também precisa mudar.

A juventude de esquerda precisa de uma compreensão e um discurso que dê respostas ao novo cenário da economia local, da economia criativa, da inovação tecnológica e de seus agentes.

Um dos equívocos da campanha da Hillary foi que ela super-enfatizou a disputa moral com Donald Trump. Ela insistiu no debate sobre valores e não deu respostas suficientes às preocupações da classe trabalhadora, que perdeu seu status de classe média nas últimas duas décadas por conta da globalização.

Trump, sem o peso de uma carreira política, conseguiu se apresentar como alguém que não tem nenhum compromisso em manter as coisas funcionando da mesma forma. Ele encarnou a possibilidade de mudança que o Obama não conseguiu trazer.

A classe trabalhadora, em qualquer lugar do mundo, não é essencialmente de esquerda ou direita, como mostrou o resultado das eleições não apenas nos EUA, mas em São Paulo também. Ela tem determinados interesses, e pode eleger aqueles que apelarem para as suas expectativas, seja um partido ou candidato socialista, seja um partido ou candidato populista, conservador ou fascista.