Design e ideologia: duas edições de "Mein Kampf"

Nos dois últimos meses os jornais têm publicado diversas matérias sobre a reedição do livro de Adolf Hitler, Mein Kampf. Os direitos de publicação pertenciam ao Estado da Bavaria, na Alemanha, que costumava colocar obstáculos a editoras interessadas em sua publicação. Mas o livro entrou em domínio público a partir do dia 1º de Janeiro de 2016, o que gerou diversos debates sobre se ele deveria ser republicada ou não.

Na Alemanha, o Institut für Zeitgeschichte (Instituto de História Contemporânea) havia anunciado já no ano passado, a publicação de uma edição crítica da obra. Ela conteria notas explicativas e ensaios que a contextualizaria. O livro foi lançado no dia 16 de janeiro, e a primeira edição com 14 mil exemplares esgotou-se em poucas horas.

Alguns dos editores mais importantes do mercado editorial brasileiro se colocaram contra a publicação da obra no país. Um dos editores da Companhia das Letras, por exemplo, chegou a dizer que não queria ter o livro de Hitler no seu currículo. No entanto, duas editoras anunciaram a publicação: a Geração Editorial e a Centauro.

O projeto da Geração Editorial prevê uma edição com notas da versão norte-americana de 1939, e dois ensaios escritos por historiadores. Segundo a editora, o livro será lançado em março de 2016. Já a Editora Centauro, que havia lançado o livro anos atrás mas tinha sido obrigada a recolhê-lo por violação de direitos autorais, já começou a comercializá-lo. No entanto, as principais livrarias do Brasil resolveram não comercializar o livro por não conter nenhum elemento de contextualização, o que é lamentável e suspeito.

Embora diferentes editoras possam ter posições diferentes sobre se o livro deveria ser publicado ou não, o fato é que o livro já estava disponível e circulava de forma mais ou menos aberta na internet e fora dela. Ou seja, o livro já circulava e circulará ainda mais após sua entrada em domínio público. A estratégia da censura ou da ignorância do livro não nos poupará do fato de que o livro existe e será lido. Talvez o único papel que nos caiba seja o de proporcionar subsídios para que seus leitores possam fazer interpretações mais bem informadas.

Um fator muito importante nesse momento é a escolha que as editoras fazem ao colocar o livro nas mãos do público. Isto é, como, e partir de que preocupações, o livro é remodelado para entrar em circulação? Nesse sentido, as opções feitas pela IfZ, a editora alemã, e as editoras brasileiras mostram radicais diferenças nas formas de se relacionar com a obra, produzir o objeto e promover o livro.

A IfZ destituiu o livro de todos os elementos simbólicos que fossem capazes de gerar qualquer atração ambígua. Não há absolutamente nenhum elemento pictórico que remeta ao nazismo. O livro tem uma tipologia neutra e uma capa em cores neutras, seguindo a tradição de livros acadêmicos de referência do país. E o título é algo como Hitler, Mein Kampf. Uma edição crítica. Ou seja, além de destituir a capa do livro de elementos gráficos que pudessem remeter ao nazismo, a editora também destituiu Hitler do lugar de autor. A obra em questão não é Mein Kampf, de Adolf Hitler, simplesmente. Trata-se agora de uma edição crítica da obra escrita por Hitler. E nessa obra o autor passa a ser objeto de análise, e não é mais um sujeito que fala sozinho.

Além disso, o livro tem 28x21 cm e dois tomos com 1000 páginas em cada um. Ele tem dimensões relativamente grandes. Como objeto, não tem leveza alguma. É volumoso e pesado. Não é um livro que se carrega na bolsa, e a leitura requererá provavelmente algum apoio. Ou seja, não é um livro para diversão, que se leia no metrô ou no parque. Para lê-lo é preciso sentar, mobilizar tempo, atenção e enfrentar o texto original repleto de intervenções, afinal ele tem mais de 15 mil notas explicativas, segundo o editor.

Com esse tratamento, a editora intervém de forma estratégica nas formas de relação com o livro e de sua circulação. Por conta de suas características gráficas (o formato) e editoriais (as notas de rodapé e os ensaios de críticos) dificilmente a edição alemã de Mein Kampf se tornará objeto de culto dos simpatizantes do nazismo.

O tratamento da Geração Editorial é bastante diferente e, em alguns aspectos, é oposto. As capas dos livros dessa editora lembram as capas de revistas semanais e tablóides. Elas são excessivamente carregadas, muitas vezes com um apelo sensacionalista. Parte de sua linha editorial explora justamente escândalos políticos. E, não raro, suas capas têm a fotografia de um político contraposta a um título elaborado ao modo de uma manchete jornalística bombástica.

A edição de Mein Kampf da editora brasileira começará a ser comercializada em março, mas a capa já circula nas redes sociais. E a estratégia de capa é simetricamente oposta a da editora alemã. Nela vemos uma suástica ao fundo, o selo do Partido Nazista centralizado entre o título e o logo da editora, e uma fotografia bastante digna do próprio Hitler em primeiro plano. A capa ainda tem uma tonalidade ostensivamente apelativa em azul/verde e alaranjado, a paleta de cores que lembra os filmes apocalípticos do diretor Michael Bay, como Armageddon ou Transformers. Além disso, mantém Hitler como autor.

A Geração Editorial escolheu promover o livro apelando para a força das imagens do nazismo. Essa era uma estratégia de propaganda do próprio nazismo. Muito de seu apelo popular veio justamente do modo de exibição ostensiva de seus símbolos e imagens. Essa estética do nazismo, por sua vez, permite um vínculo muito ambivalente capaz de mover tanto o crítico do nazismo como o simpatizante. Com isso não quero dizer nem remotamente que a editora seja simpática ao nazismo. Não há dúvida alguma de que ela não é. Mas ela aposta numa ambiguidade em relação às imagens e símbolos que moldam o objeto, que a edição alemã fez questão de eliminar por boas e conhecidas razões, inclusive — ou sobretudo — razões de ordem ideológica.

Embora a editora tenha anunciado dois textos críticos acompanhando a obra, e notas de rodapé, é possível imaginar simpatizantes tirando selfies com o livro e o promovendo nas redes sociais não porque o livro foi publicado ou porque ele simplesmente existe. Mas porque as escolhas gráficas e editoriais permitem que os simpatizantes estabeleçam uma relação de empatia com o objeto. Obviamente não é papel do editor ensinar aos leitores como o livro deve ser lido, interpretado ou usado. Mas, as lições da edição alemã mostram que o editor pode diminuir a possibilidade de usos indesejados dos objetos que coloca em circulação.

A coragem da editora Geração Editorial em publicar o livro deve ser destacada. Eu sou favor da sua publicação, mas gostaria de ter visto um trabalho mais rigoroso e correto do ponto de vista gráfico, assim como um maior investimento do ponto de vista editorial. Os textos que acompanharão o livro certamente serão importantes. Mas não vejo razão, por exemplo, para que ela tenha notas que datam de 1939 por me parecerem muito defasadas. Elas foram elaboradas muito tempo antes do mundo tomar conhecimento da extensão do mal promovido pelo seu autor. E muito tempo antes dos principais estudos que existem hoje sobre Hitler e o nazismo. Essa publicação poderia ser a oportunidade de reunir uma comunidade de especialistas que pudesse proporcionar uma abordagem mais rica e mais complexa sobre a obra, e com isso termos no Brasil uma edição crítica de referência.