O projeto da direita neotecnocrata

Os moroboys e a implosão do sistema político brasileiro

O Odebrecht pai expôs o que supostamente seria o modelo de relação do Estado com iniciativa privada no Brasil. Seria o cerne da lógica do sistema político partidário há décadas. Ele destaca que essa estrutura vigora a mais de 30 anos, o que faz sentido. É um sistema contemporâneo do pluripartidarismo da Nova República. No vídeo de seu depoimento, no entanto, ele se diz incomodado com o fato de que hoje isso parece ser uma grande surpresa para a imprensa quando, na verdade, tudo isso era conhecido, era a normalidade.

Se as coisas são assim, as perguntas que restam é:

1) o sistema funcionava dessa forma, com toda essa impunidade, com todo esse benefício para certas empresas sem a participação do judiciário?

2) por que esse problema implodiu justamente após 2013, com a participação de setores da elite da direita brasileira (no qual incluo o MP, promotores e o juiz da Lava-Jato)?

Em primeiro lugar, se a afirmação do Odebrecht pai é verídica não há chance de que o judiciário não esteja envolvido e que a imprensa não seja conivente. Como eram resolvidos os conflitos quando os prejudicados contestavam os beneficiados no judiciário?

Em segundo lugar, é preciso ter em mente que nos últimos 15 anos a sociedade brasileira se diversificou bastante, muito mais que nos 15 anos anteriores à chegada do PT ao poder. O próprio PT teve um papel grande na produção dessa diversificação quando promoveu crescimento econômico, investiu em educação e inclusão social. Evidentemente, por conta das próprias contradições da política, o sucesso do primeiro governo do PT produziu aliados, mas também muita oposição ao seu projeto. Oposição na esquerda e especialmente na direita.

Ao longo desse período, a própria esquerda se diversificou, com o surgimento de diversos grupos com diferentes perspectivas sobre o que significa ser esquerda. E, como vimos, muitos desses novos grupos de esquerda se voltaram contra o próprio projeto do PT, colaborando no longo processo de corrosão da base social e eleitoral do partido que vemos hoje.

Mas a movimentação social e política desse período também diversificou a direita. Essa diversificação deu nascimento a novas direitas, não necessariamente atreladas aos partidos e lideranças tradicionais,. O destaque são os grupos que se aglutinam em torno de um liberal-conservadorismo com vários elementos do típico elitismo latino-americano, um moralismo/punitivismo populista e um discurso meritocrático neoliberal.

Uma parte dessa direita foi promovida a cargos importantes pela via do concurso público, não por cargos de confiança ou eletivos, o que lhes garantia estabilidade, certo poder e autonomia em relação às lideranças políticas tradicionais. Eles revestem seu projeto político com uma espécie de lógica neotecnocrata. É o que fazem os moroboys (Deltan Dallagnol e cia) quando afirmam estar apenas cumprindo a lei, tecnicamente aplicada, sem qualquer partidarização.

Essa direita neotecnocrata, com um pé no Estado e com suas articulações com a mídia, por sua vez, perceberam que o PT dificilmente sairia do poder num futuro próximo se o esquema tradicional de relação entre a iniciativa privada e os partidos continuassem funcionando da mesma forma de sempre. O PT, na verdade, com seu projeto de desenvolvimento estabeleceu uma relação muito mais vantajosa para a indústria nacional que seus adversários eleitorais, incluindo o PSDB.

A neotecnocracia turbinada pela promoção midiática em sua caçada ao PT. Os moroboys posam como os intocáveis.

Dessa forma, aproveitando-se da autonomia promovida pelos últimos governos em relação a PGR, MP, PF e outros órgãos de controle, a direita neotecnocrata encrustada no Estado resolveu implodir o sistema político da Nova República. Ainda que isso resulte em certo prejuízo e exposição das atuais lideranças do PSDB. Pois, na percepção dos neotecnocratas, eles não teriam a mínima chance contra o PT no curto ou médio prazo, como as eleição da Dilma mostrou. Ainda que fazendo um governo bastante problemático, em meio a uma grande crise econômica, o PSDB não conseguiu superar o PT.

O principal moroboy do país, virtual candidato a Presidência da República.

Portanto, ao implodir o sistema político brasileiro que remonta a 1985, pelo menos, os neotecnocratas esperam abater de morte o PT, e forçar uma renovação na direita. A direita renovada formada por uma legião de moroboys despontará, a partir de agora, como a única força moralmente e tecnicamente capaz de reconstruir o sistema político e o país. Não é por nada que o atual prefeito de São Paulo foi sempre um moroboy avant la lettre.