Ubercapitalismo
O debate atual sobre o destino do Uber no Brasil revela de modo bastante esclarecedor o modo como as estruturas da dependência econômica se perpetuam na Era da Informação. Ele mostra, também, como mentalidade do conformismo das classes médias do capitalismo periférico se atualiza no discurso das novas gerações.


A própria estética Uber, e a fantasmagoria que ela promove, com o seu carro preto de ‘luxo’ e o condutor 'bem vestido', apela para a fantasia das classes médias de muitas partes do mundo — e especialmente na periferia do capitalismo — de finalmente poderem ter um motorista particular como os ricos dos filmes ou das novelas, a um preço aparentemente módico.
Na época do ‘capitalismo artista’, como afirma o filósofo Gilles Lipovetsky, o consumo torna-se não apenas personalizado, mas o próprio ato de consumir é experienciado como um gesto estetizante, é um ato de suposta criação de beleza. O consumidor é como o curador de uma galeria de arte, escolhendo aqui e ali entre as milhares de opções do mercado, os produtos e serviços com o design mais sofisticado, e as modalidades mais elegantes e belas de fruição do próprio ato de consumo .
Todos esses elementos são importantes para entender como o Uber angariou não só consumidores, mas admiradores e fan-boys/girls, como a Apple — uma empresa que investiu pioneiramente no consumo estetizado. Apesar disso, de uma forma geral, poucos querem entender as estruturas mais profundas do tipo de capitalismo monopolista que lhes permite experimentar essas miragens, cujos desdobramentos a longo prazo podem custar muito caro.


A missão de construir um país economicamente autônomo, soberano e democrático, que alimentou boa parte dos projetos nacionais progressistas a partir da segunda metade do século 20, e que foi responsável por nos colocar no rol das dez maiores economias do mundo, pouco a pouco se esvaiu, até tornar-se um animal estranho na fauna política do presente.
Uma variedade d0 (neo)liberalismo utópico, disseminado nas redes sociais por grupos juvenis, tornou-se linguagem dominante em diversos círculos de discussão. Muito desse vocabulário idealista sobre as liberdades econômicas pode ser encontrado até mesmo no programa da candidata Marina Silva, com um verniz de esquerda libertária e moderna.
Na essência, o projeto (neo)liberal utópico que circula por aqui consiste em aceitar definitivamente uma posição subalterna na ordem econômica internacional, abrindo mão de um projeto de desenvolvimento próprio. Tudo isso para que a classe média, em grande parte dependente do Estado direta ou indiretamente, possa comprar gadgets e outras quinquilharias importadas sem qualquer obstáculo. O grande apelo do discurso (neo)liberal utópico para a juventude das classes com poder de compra é alimentar o sonho de que seja possível sustentar indefinidamente o consumo conspícuo de produtos importados. No limite, esse (neo)liberalismo juvenil propõe abrir mão de empregos e da renda nacional para que uma pequena fração da sociedade, que detém uma quantidade desproporcional da riqueza do país, possa comprar iphones e PS4 sem barreiras alfandegárias.
A lógica da subalternidade econômica
O gap geracional que existe entre a antiga elite pensante brasileira dos anos de 1930 a 1960, que buscava soluções para reinserir o país na modernidade e os (neo)liberais do presente é bastante grande. O vocabulário e o modo de pensar daqueles que buscavam construir alternativas para superar a condição subalterna e colonizada do Brasil, apesar de ter deixado um legado intelectual rico e respeitável, tem extrema dificuldade de encontrar pontos de comunicação com uma geração que nasceu sob o desmonte do Estado nos anos de 1980 e 1990. Para essa geração, replicar o modo de vida, os valores e, sobretudo, os padrões de consumo norte-americanos parece ser um projeto de vida inarredável, e o único horizonte aceitável.
Uma das figuras mais brilhantes da velha geração, o economista Celso Furtado, deixou reflexões importantes que poderiam ajudar essa juventude a tomar ciência de sua posição no mundo hoje, e entender os motivos de nossa vulnerabilidade econômica e social. Embora tenha sido um economista, as investigações de Furtado sobre os impasses que nos prendiam (e continuam a prender) a uma posição dependente apontava para alguns problemas muito precisos. Nem todos eles eram de caráter estritamente econômico. É por isso que, no fim de sua obra, ele desenvolveu o que poderíamos chamar de uma verdadeira ‘teoria cultural’ da periferia do capitalismo.
Uma das uma das causas da nossa situação periférica no mundo (ou seja, o fato de sermos eternos exportadores de produtos primários e importadores de manufaturados — ou tecnologia e serviços — há mais de 400 anos) é derivada de uma particularidade cultural, aparentemente trivial, mas que é repleta de consequências para a definição da nossa estrutura social extremamente desigual: as classes médias — e os ricos, evidentemente — que detêm uma quantidade desproporcional da riqueza nacional têm como característica fundamental o desejo ou o hábito de consumir produtos que absolutamente não correspondem ao nível de desenvolvimento das forças produtivas que elas próprias criaram em seu país.
A partir dos privilégios que detêm devido a sua posição na estrutura de classes, e dos rendimentos que obtêm justamente por conta da estrutura econômica dependente e desigual que criaram, esses grupos buscam emular os hábitos de consumo das classes médias e altas do centro do capitalismo, daquelas sociedades que dominam as economias periféricas. Em diversos níveis, as classes médias e altas da periferia desejam se identificar — quando não se identificam de fato — mais com os seus senhores do centro do capitalismo que com seus próprios concidadãos.
Esses hábitos, no entanto, cobram um alto preço a longo prazo. Ao perseguir seus desejos de consumo conspícuo, determinados pelos gostos, modas e tendências dos países desenvolvidos, as classes médias e altas da periferia do capitalismo aprofundam a sua própria dependência. Isso acontece porque as classes detentoras da maior parte da riqueza nacional mandam para fora do país recursos criados aqui e que poderiam e deveriam ser reinvestidos no próprio país para gerar desenvolvimento econômico, investimento em tecnologia, empregos e outros insumos necessários a criação de riqueza e a superação da dependência.
Mas ao entregar parte considerável da riqueza do país na forma de pagamentos de bens de consumo que não produzem absolutamente nenhuma riqueza aqui, as classes médias da periferia do capitalismo ajudam a aumentar o capital disponível nos países desenvolvidos para reinvestimento na indústria, no comércio, nos serviços e no avanço tecnológico. E por conta da natureza do desenvolvimento tecnológico, com o passar o tempo, as distâncias entre a periferia e o países centrais aumenta exponencialmente.
A classe média com seus hábitos de consumo conspícuo, em grande parte derivado da aceitação dos valores e gostos determinados pelos países centrais, aprofunda sua condição subalterna, sua dependência, sua condição periférica. Ao fim, as classes médias dos países periféricos acabam por reforçar os mecanismos que mantêm sua sociedade subdesenvolvida e desigual.
A pedagogia da dependência
A reações em relação a proibição do uso do Uber em algumas cidades no Brasil ilustra como as posições das classes médias reafirmam seu desejo de permanecer na subalternidade. A medida que a empresa se popularizava e que os sindicatos de taxistas se manifestavam contra ela, não só a massa dos potenciais clientes, mas até mesmos os setores mais esclarecidos logo assumiram um lado. E pior, esses mesmos setores supostamente esclarecidos aderiram ao lado do debate que havia sido planejado pelas estratégias de Relações Públicas (PR) da própria empresa.
A discussão que o Uber quer impor é baseada no argumento do direito do consumidor de fazer uso do serviço. O debate assumido, quase que de forma unânime foi: temos o direito ou não de fazer uso dessa tecnologia para ter acesso a um serviço que é mais eficiente que seu competidor — as cooperativas de taxis?
O primeiro engano desse argumento, usado usado em todos os lugares do mundo, foi a de tentar confundir a empresa com a tecnologia. O Uber não é uma tecnologia, e sim o operador de uma tecnologia que é usada por diversas empresas em diversos setores.
Mas o que é mais decepcionante é o fato de que não houve nenhuma discussão entre a juventude esclarecida — supostamente moderna e liberal, aquela que deveria estar interessada no assim chamado 'empreendedorismo' — sobre como usar essa tecnologia para gerar aqui fortes competidores nacionais a uma empresa que cresce rapidamente em um mercado com potencial de exploração ainda indefinido.
O ubercapitalismo no mundo subdesenvolvido
Há poucos dias, o Uber se tornou a maior start-up da história depois de conseguir mais investidores, o que motivou a revisão do seu valor, agora estimado em 51 bilhões de dólares (mais de 150 bilhões de reais). Ano passado, calculava-se que a empresa movimentava nada menos que 10 bilhões de dólares (mais de 30 bilhões de reais) por ano.
Com vistas a não deixarem seu mercado interno completamente entregues, China e India rapidamente estabeleceram empresas competidoras fortes, alavancando investimentos na casa de bilhões de dólares. A Didi Kuaidi, a empresa chinesa, já domina mais de 80% do mercado na China. A Ola, a empresa indiana, que valia 400 milhões de dólares em 2014, hoje está avaliada em 2.5 bilhões de dólares (mais de 6 bilhões de reais), valor que a colocaria no rol das 50 empresas mais valiosas do Brasil.
Usar ou não usar o Uber é realmente o debate que deveríamos ter? Esse é o debate que nos interessa?
O mindset da classe média da periferia do capitalismo está programado para o consumo, não tanto para a produção ou inovação. Ela ignora ou desconhece os mecanismos básicos que determinam o fluxo de riquezas no mundo, e tem pouca preocupação com as consequências de longo prazo da abertura do mercado interno sem regulação. Ao longo da história, essa classe foi educada na pedagogia da dependência para achar que a subalternidade nacional é a nossa natureza.
É por isso que a limitação do uso do Uber parece a muitos como a violação de um direito fundamental, o direito fundamental de consumir.
Ubercapitalismo e exceção
A estratégia de penetração no mercado global utilizada pela empresa norte-americana é uma verdadeira guerra de guerrilha, extremamente agressiva e destruidora. Ela age no vácuo da legalidade, e força sua presença onde não existe regulação instituída. Ela não está dentro nem fora da lei, não é legal nem ilegal. E essa condição de exceção é justamente o que torna o Uber extremamente perigoso.
Mesmo nos EUA, a terra do suposto liberalismo celestial, os serviços da empresa foram banidos do Estado de Nevada, da cidade de Portland e de cinco outras ao redor do país. E em todas as outras cidades onde ela atua, foi obrigada a obedecer regulamentações na área da segurança e dos direitos trabalhistas.
As consequências do Uber na desestruturação do mercado de trabalho e suas práticas nefastas de concorrência são tão gritantes que, mesmo nos EUA, isso não passou desapercebido, mostrando claramente que não se trata apenas de um problema dos taxistas, é um problema econômico de proporções globais.
Na cidade de Nova York, por exemplo, a prefeitura vai limitar pela metade o número de motoristas cadastrados pelo Uber. Na França, a oferta de determinados serviços do Uber foram proibidas. Espanha, Alemanha e Holanda, por sua vez, haviam banido o serviço por completo até poucos meses atrás. O mesmo aconteceu no Japão há poucas semanas. Portanto, diferentemente do que muita gente pensa, em diversos países o Uber não atua sem ser obrigado a seguir regulamentações.
No Brasil não pode ser diferente. Não é preciso defender a corporação dos taxistas para entender os vários níveis de desvantagens para o país de abrir seu mercado para a exploração internacional sem regulação.
A essa altura, ninguém mais compra a ideia de que o Uber seja uma iniciativa de ‘economia compartilhada’ (sharing economy), que simplesmente coloca em contato alguém precisando de uma carona com uma pessoa disposta a dar uma corona. Trata-se claramente de um negócio que atua no mercado com os mesmos propósitos de maximização de lucros e proteção dos interesses dos investidores que qualquer corporação. Sem contar com o agravante de que a empresa mira o monopólio global, fazendo fluir bilhões de dólares recolhidos ao redor do mundo todos os anos diretamente para sua sede na Califórnia.
Todos esses bilhões são captados porque — é bom não esquecer — todos os dias um gigantesco exército trabalhadores sub-empregados em diversos continentes, sem direitos trabalhistas, muitos do quais criaram dívidas substantivas para cumprir as exigências do cadastro da empresa, entregam o serviço. Por todas essas razões, o Uber, não pode existir sem que sobre sua atividade incida as regulamentações necessárias para a proteção dos interesses públicos e da economia nacional.