A velar seu sono

O medo lhe roía a fé como uma ratazana esperta. Porque, apesar de grande e sombrio, sabia que não seria notado por aquele homem. Tirava um pedacinho da confiança por dia, durante a conivência culpável da noite. De forma que, apesar de claramente repugnante, não era percebido a não ser como suspeita.

Ah, a noite! A grande noite do espírito. Companheira discreta das canalhices e das desesperanças. O medo aproveitava a cumplicidade encobridora da noite, para roubar do homem a mansidão do sono e a confiança do sonho e, assim, suas manhãs renasciam sempre cansadas e decrépitas.

Como aquele homem poderia evitar seu carrasco, o medo, se essa existência não era sequer cogitada? Mais fácil era culpar por sua desgraça uma alteridade aparente qualquer: um deus ausente, uma comunidade marginalizada, uma doença degradante, um pai carrasco, uma família pobre, um imigrante impertinente, um retirante infeliz, um sindicalista falante, um sem terra brigador, um assaltante sem alma, um traficante interesseiro, um político devasso, um estrangeiro ganancioso… Todas essas alteridades estavam sempre muito mais às vistas, na clareza do sol a pino de um dia aberto de verão. Eram alvos muito mais fáceis e confortáveis para aquele homem, pois assim ele não precisaria encarar a terrível ratazana que ele mesmo alimentava dentro de seu espírito cotidianamente.

Sua desgraça jazia bem fundo em seu coração, essa ratazana cruel. Sobrevivia nas profundezas daquele homem frustrado, acusador de tudo e de todos. O roedor atacava-o toda vez que sua autoconsciência, tão naturalmente sonolenta e letárgica, ia descansar de si. Para se libertar da peste, bastava ao homem imaginar. Bastava ao homem sonhar. Bastava ao homem se por a enxergar o que de fato foi e o que ainda não é. Mas seu espírito estava demasiado carcomido pelo medo e sua esperança por demais fatigada pelos desejos de propriedade insatisfeitos diariamente. Para ele, comprar um novo carro ou outra noite no motel era mais importante do que desejar com todas as suas forças um mundo real no qual todos sejam delirantemente felizes.

Triste era o sono daquele homem. E triste o modo como acordava. Ainda esperamos que um dia ele desperte de seu sono e esteja completamente cheio de sonhos esperançosos, não somente para si, mas para toda a humanidade. Somos incansáveis. Ficaremos aqui a velar seu sono. Não abandonamos quem quer que seja. Nem ele.

03.06.2012