Sabedorias e adivinhações

Eu jamais vivera em terra seca. Não sabia o que era esperar por chuva a cada aurora e a cada por-do-sol. Após mudar-me para o planalto central, viver o tempo seco dia a dia, passar três longos meses sem ver uma promessa de gota sequer, aí então eu pude saber o que era pensar constantemente em quando acabaria o demônio da secura. É como uma obsessão. Um pensamento birrento e teimoso. Uma ideia intrusa que sempre aparece sem licença na sala dos argumentos lógicos ou nos aposentos das vontades impetuosas. Assim, sem pergunta nem convite mesmo. Uma ideia que apenas surge ali, de repente e folgadamente espaçosa. Em pleno horário de trabalho, no meio de uma tarefa importante, me via a pensar em piscinas, cachoeiras, praias, lagos, umidificadores, rios, torneiras, bebedouros… Como um cão danado atrás de uma cadela no cio, eu não podia enxergar qualquer outra coisa. Em casa, a descansar ou a divertir-me, lá iam meus pensamentos até caixas d’água, cisternas, aquários, saunas, duchas, bicas, fontes, regadores, calhas, pias, tanques, açudes, represas, borrifadores… Toda e qualquer coisa do mundo material ou imaginário parecia conectar-se de alguma forma à água, com uma atração sutil e inelutável. Algo como a força da gravidade a nos pregar a existência sobre esta terra que pisamos enquanto pretendemos ser humanos. Quando veio a primeira chuva depois da estiagem, experimentei uma sensação única. Uma alegria. Uma felicidade mesmo. Como se a chuva me trouxesse de volta uma parte minha e desgarrada, que passeara o mundo todo por aí a esquecer de mim durante uma temporada além da conta. O som da água a estatelar no asfalto, na calçada, na praça e na varanda descoberta. O frescor da brisa a afagar meu rosto como só a minha melhor amante arriscara deleitar-me até então. A visão translúcida, a atravessar sem certeza alguma a cortina de gotas justas, em direção a um horizonte indefinido e pleno, como a ideia de deus. O cheiro – ah o cheiro! esse lancinante instigador – o cheiro de terra úmida, de verde novo a brotar do chão, de espuma branca amarronzada a cobrir a parte baixa e terrosa da praça. Quando eu estava assim absorto e completamente satisfeito com a presença tão desejada, eu me percebi pequeno. Senti-me um imbecil. Desses, completamente idiotas. Senti tanto a falta da chuva, mas em momento nenhum experimentei o que fosse a Fome ou a Sede. Todo aquele furor de desejo, somente para sentir o ar em minha volta mais úmido. Nenhuma necessidade real e premente a atormentar a alma. Isso fazia ver-me muito ínfimo. Mesquinho. Aquela situação toda deixou bem claro para mim: eu não tinha qualquer noção do que era realmente estar em uma seca real, viver no deserto, sobreviver na caatinga. A escassez de não ter o que comer ou beber, jamais. Percebi, mesmo da minha arrogância de sudestino brasileiro, que eu não poderia saber o que era uma seca. Pois eu não tivera o estômago fustigado pela necessidade e vontade nem mesmo durante poucas horas. Pois eu não chorei a falta do gado que, vivo, mataria essa minha fome. Pois eu não vi meus filhos secando os corpos, tostando seus futuros sem nem saber que a vida pode ser mais que isso. Nada disso, nem qualquer outro aspecto da seca, havia sido eu. Como eu poderia saber o que era secar a alma na praça da existência humana, assim como a um bocado de couro a queimar no curtume da vida? Respondo: não poderia. Nem eu, nem qualquer um que não tenha passado por isso, podemos saber as razões e os sonhos da gente que sempre vive no limite de existir. Pelo menos, eu não poderia saber por um certo tipo de sabedoria, aquela plena e viva. Mas apenas adivinhar. E por uma forma bem humilde e alienada de adivinhação.

24.11.2012

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.