Ser Tão

Sentia de novo o cheiro úmido da casa onde vivera toda sua infância. Abriu a porteira e cruzou o pasto orvalhado com a lentidão de uma noite não dormida, de viagem longa. Beirada da varanda. “Ó de casa!” E então, como sempre, vinha primeiro o cão a lhe lamber as mãos, em seguida corriam pai e mãe a lhe abraçar como se estivesse a ponto de ter morrido no dia anterior e, por último, a gata parava à porta a rir um sorriso sem dentes. Chegou. Sentia-se manso e inteiro. Na cidade para onde se mudara a trabalho há dez anos, raramente sentia a plenitude que havia no sitiozinho da família. Entrou na cozinha e inspirou com vontade o odor do café, moído pouco antes de ser coado, o que acordou seu lado de dentro. Nem precisou tomar e já despertou quem ele realmente era. O dia-a-dia na metrópole colocava-o em sonambulismo acelerado. Fazia uma tarefa atrás da outra, engatadas numa engrenagem confusa, como se não houvesse qualquer intenção a executá-las ou algum ser humano a desejá-las. Lá, agia como se não fosse. Assim mesmo, verbo ser sem complemento. Ele somente não era. Existia no vazio. Jamais respirava a voz que vinha de dentro, tamanho era o torpor que o zumbido de milhões de ações sem sentido regravava continuamente sobre seu peito interiorano. Ali, seu coração batia programado, como um computador com defeito a refazer uma tarefa inútil sem saber o porquê. No sítio, ele era sabido. Pai e mãe eram sabidos. O cão e a gata eram sabidos. O pasto, a vaca, o burro, o mato, o rio e o lago da baixada. A enxada, a pá, a foice, a carroça e o moinho defronte à estrada de terra. As coisas todas eram sabidas. Enfim, tudo era sabido. Naquela sapiência que não precisa de palavras para ser bem entendida e compreendida. Hoje, ele decidiu por ser. “Volto mais não”.

13.05.2012