Jogadores da seleção francesa representam um país que não os representa

Carlos Massari
May 9, 2018 · 8 min read

Dos 23 atletas convocados pela seleção francesa para os amistosos contra Colômbia e Rússia, no final de Março, três são nascidos fora do país e outros doze são filhos de estrangeiros. Esses jogadores têm origem em diversos países, a maioria na África: Mali, Guiné, Togo, Tunísia, Argélia, Mauritânia, Congo, entre outros. A pequena presença de “franceses puros” nessa lista é fruto de um processo histórico que tem colocado o país em estado de tensão nos últimos anos.

Como uma potência europeia no final do século XIX e no início do XX, a França teve posição privilegiada na Partilha da África. Recebeu o direito de colonizar quase todo o norte africano — Marrocos, Tunísia, Argélia e Mauritânia — além de vários outros espaços espalhados pelo resto do continente — Senegal, Camarões, Sudão Francês, Guiné, Costa do Marfim, Niger, Gabão, Congo, Chade, Madagascar, Comores, e os atuais Burkina-Faso, Benin, Djibouti e República Centro-Africana. Para título de comparação, Itália e Alemanha, países que começavam a se organizar nessa época, conseguiram no máximo quatro territórios.

O efeito dessa colonização foi terrível para o continente africano, extirpando recursos naturais, gerando pobreza e, principalmente, guerras civis. Como não foi respeitada qualquer divisão original de reinos locais, várias etnias rivais ficaram nos mesmos territórios, levando ao caos que ainda hoje impera em muitos desses países, mesmo décadas após as independências. Como o francês se tornou a língua oficial de muitos deles, a solução encontrada por muitas pessoas foi emigrar para o país europeu.

Essa maciça presença de imigrantes leva a um movimento de xenofobia na sociedade francesa e ao crescimento de partidos de extrema direita, como é o caso da Frente Nacional, liderada por Marine Le Pen. Isso se reflete também na seleção de futebol: o centro-avante Karim Benzema, que não é convocado há bastante tempo, chegou a declarar que “quando eu jogo bem, sou francês, quando eu jogo mal, sou um árabe filho da puta”.

Para entender melhor como se configura a sociedade francesa atual e como isso reflete nos Les Bleus, conversei com Denise Cogo, professora titular e pesquisadora do programa de pós-graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM e co-autora do Guia para migrações transnacionais e diversidade cultural para comunicadores — Migrantes no Brasil. Especialista no assunto, ela pôde ajudar na visualização de como esse país se divide hoje.

“A França é o terceiro país da União Europeia em número de imigrantes internacionais, atrás da Alemanha e da Grã-Bretanha. E, a exemplo da maioria das nações europeias, a França é um país e uma sociedade plural e híbrida, constituída a partir da presença, herança e convergência de diferentes culturas e nacionalidades. Assim, quem passa ou visita
os bairros da periferia de grandes cidades como Paris, onde domina a presença de imigrantes, consegue identificar a difícil realidade que, há muitas décadas, é enfrentada por muitos imigrantes para sua inserção na sociedade francesa.”, explica Denise Cogo.

Seja no Brasil, no Panamá, na França ou em qualquer lugar do mundo, o esporte é uma opção de ascensão social para crianças pobres que vivem na periferia. Também segundo Cogo, “após a Segunda Guerra Mundial, os trabalhadores imigrantes, com destaque para os argelinos, foram fundamentais na reconstrução da França e também de outros países da Europa, como a Alemanha, através especialmente da presença dos turcos. Esses imigrantes executaram os trabalhos mais pesados, pior remunerados e não desejados pelos franceses, como hoje ainda é comum encontrar na França e em outros países europeus, onde o trabalho mais precário tem sido reservado aos imigrantes.” Percebe-se, assim, o porquê do domínio dos “estrangeiros” na seleção francesa, já que os “franceses puros” não tem muitos motivos para se dedicarem à árdua carreira esportiva.

O goleiro Hugo Lloris, nascido numa família rica de Nice e filho de um banqueiro de Monte Carlo, é uma das exceções ao domínio dos imigrantes nesse elenco. Das demais estrelas, quase todas vêm de fora: Paul Pogba é filho de guineenses e muçulmano, os pais de N’Golo Kanté chegaram de Mali em 1980, Blaise Matuidi tem mãe angolona e pai congolês, a grande promessa Kylian Mbappé tem pai camaronês e mãe argelina. Todos eles poderiam defender outras seleções, e é comum o caso de grandes atletas que optam por esse caminho — Riyad Mahrez, grande craque do título inglês heróico do Leicester City e Pierre-Emerick Aubameyang, um dos principais centro-avantes do futebol nos últimos tempos, são exemplos de jogadores nascidos na França, mas que optaram por defender as bandeiras das terras de seus pais (Argélia e Gabão, no caso).

Essa opção ou não por defender a França vem, muitas vezes, da identidade nacional, de sentir-se ou não um francês. “O sentido de pertencimento a uma nação não é territorial, mas essencialmente, simbólico, e não depende apenas do lugar geográfico onde nascemos, mas de como nos sentimos como cidadãos de deveres, mas também de direitos na nação em que nascemos, vivemos ou escolhemos para viver”, diz Denise. Marginalizados por essa composição de sociedade, como demonstrado no exemplo de Benzema, esses atletas podem ou de fato escolher os países de seus pais, ou defender a França sem tanto afinco como poderiam.

Um motivo claro para descontentamento dos atletas imigrantes e filhos de imigrantes é o hino nacional, a famosíssima La Marseillase. A letra incita os “franceses puros” a marcharem contra os “infiéis”, e diz “nossa terra do sangue impuro se saciará”. Mesmo defendendo os Les Bleus, alguns dos atletas se recusam a cantar essas palavras, e pode-se perceber em seus semblantes que não se sentem representados. Denise explica que “As críticas à letra do hino da França, escrito em 1792, como uma forma de incentivar as tropas francesas na luta contra exércitos estrangeiros, pode significar para esses jogadores estar cantando um hino que exalta a busca da “pureza” ou da “homogeneidade”, e não da “pluralidade” da nação onde vivem.” O próprio Zinedine Zidane, um dos maiores atletas da história do futebol francês e autor de dois gols contra o Brasil na final da Copa de 1998, é filho de argelinos e muitas vezes não cantava o hino francês.

Quando a França entrar em campo para disputar a Copa do Mundo no mês de junho, muitos atletas estarão representando um país pelo qual não se sentem representados. Que oprime e marginaliza suas raízes, suas religiões, seus costumes, suas lutas, que massacrou seus ancestrais. E muitos franceses torcerão por um conceito de seleção nacional e pela bandeira de seu país, mas votarão nas eleições em candidatos que defendem que eles não devem fazer parte do mesmo. A situação é contraditória e nos faz pensar muito em como será o desempenho de uma equipe que, no papel, é talentosíssima.

Perguntei a Denise Cogo se o futuro reserva melhores dias para os imigrantes. Eis a resposta:

“O grande dilema da sociedade francesa é enfrentar o debate sobre o princípio republicano que pauta sua existência como nação. Por esse princípio, para que um imigrante se integrar, é exigida sua adesão ou “assimilação” incondicional a valores universais que regem a sociedade francesa, como a laicidade. O que implica em ter que manter particularismos culturais, como o exercício de práticas religiosas, restrito ao âmbito exclusivo da vida privada. Os casos recorrentes de proibição, parte do Estado, do uso de véus por mulheres muçulmanas em espaços e instituições públicas da França são um exemplo. Nessa perspectiva é que tem sido também questionada a ideia de “integração” quando, baseada nessa ideia, as sociedade e as políticas migratórias defendem que os imigrantes para se integrar teriam que “aprender” e “adotar” os valores das sociedade e culturas para onde migram, que são frequentemente aqueles valores fundamentados no modelo ocidental dominante — masculino, branco e cristão. O filme Samba, do cineasta Eric Toledano, sobre a trajetória de um imigrante do Senegal que vive há 10 anos na França aborda vários aspectos dessa questão da integração dos imigrantes à sociedade francesa.

O sociólogo francês Michel Wierviork chama atenção para o fato de que, na França, os imigrantes terem que conviver com o que ele denomina de racismo diferencialista, cuja tônica não é a inferiorização, mas a manutenção da distância, da exclusão e da marcação da diferença de modo irredutível. A partir desse modo de expressar o racismo, a sociedade francesa assinala e lembra constantemente aos imigrantes que, pela sua diferença, não são queridos e, que, portanto, não tem seu lugar na sociedade francesa. Lembremos que, até 2016, a França manteve o polêmico campo de refugiados de Calais, conhecido como “A Selva” e denunciado internacionalmente por seu caráter anti-humanitário e anti-cidadão. Em Calais, viveram cerca de 10 mil imigrantes e refugiados que tentaram cruzar o Canal da Mancha e que, em 2016, foram transferidos para outros abrigos.

Mas a relação da sociedade francesa com os imigrantes também comporta outros posicionamentos. Há setores que têm defendido e lutado em favor dos direitos dos imigrantes, se engajando em projetos e ações de denúncia, solidariedade e combate a exclusões, e a políticas e leis anti-imigração. O “delito de solidariedade”, lei aprovada pelo governo Sarkozy, que estabelecia pena de cinco anos de prisão e multa de 30 mil euros para cidadãos que ajudassem, transportassem ou abrigassem qualquer imigrante classificado como “ilegal” pelo Estado francês foi alvo de protestos e mobilizações por
parte de vários setores da população francesa. Em 2009, em manifestações massivas em cerca de 80 cidades, cidadãos franceses protestaram contra o delito ao se apresentarem como culpados diante das cortes de justiça e solicitarem que fossem presos por já terem ajudado um estrangeiro em situação irregular no país. A lei do delito de solidariedade foi revogada pelo Partido Socialista francês a partir de um projeto de lei denominado Welcome (Bem Vindo), título do filme do cineasta Philippe Lloret que tratou do tema.”

Quando países como Panamá, Islândia, Marrocos, Peru e tantos outros estiverem em campo na Copa do Mundo, os atletas certamente serão orgulho de seus povos, ganhando ou perdendo. Para favoritos como Brasil, Alemanha e Argentina, a instituição da seleção nacional de futebol é maior até mesmo que o patriotismo fora de campo. Para a França, o buraco é bem mais embaixo: é um conflito identitário que existe dentro de cada jogador, uma miríade de origens que se misturam como ingredientes de um prato de alta gastronomia. Se eles derem liga, o sucesso pode vir, mas sempre haverá a raiva ao ouvir “o nosso chão do sangue impuro se saciará”.

Esse é o segundo texto da minha série sobre a Copa do Mundo. Para ler o primeiro, sobre a emoção do Panamá com a classificação inédita para o mundial, clique aqui.