Oito bilhões de copas

Carlos Massari
Jun 13, 2018 · 5 min read

De quantas copas do mundo você se lembra? O que você fez durante cada uma delas? Matou aula, foi ao bar, ficou chorando em casa, começou um namoro, terminou um namoro, passou a gostar futebol, se apaixonou por um país? Ou viveu momentos difíceis, sem ter nada de positivo para se recordar? Pode ser só um mês, mas é um mês que certamente é marcado pelo que acontece dentro dos campos.

Em 1990, eu ainda não havia sido apresentado ao futebol. Concentrava a maior parte do meu tempo provavelmente em dormir e aprender a andar e minhas lembranças são dos resquícios de copa que ficam quando ela se vai — as clássicas tabelas de papel, hoje quase em extinção, os times de botão que ganhei de presente, incluindo os alternativos Egito e Emirados Árabes, e o primitivo jogo de vídeo-game para Master System, que me ocupou muitas tardes quando ainda era um mistério a localização da maior parte daqueles países.

Aos seis anos, em 1994, eu tinha no atlas um dos meus brinquedos favoritos e, nesse período entre copas, aprendi o que era o futebol. Ganhei minha primeira camisa do Palmeiras, comecei a desbravar esse fantástico universo da bola. Mas, como a criança que era, ainda me relacionava com esse universo de maneira lúdica, como ao ter na Arábia Saudita meu time preferido (afinal, como meu clube de coração, trajava verde) — chorei porque meu pai não a colocava como campeã no bolão do trabalho. Também trocava eventos sociais por ficar em casa sozinho assistindo aos jogos — um, mais explicável, o enterro do melhor amigo do meu avô por Suécia x Arábia Saudita, nas oitavas de final, outro, nem tanto, a festa junina da rua por Colômbia x Romênia, ainda na primeira fase.

1998 foi o início do relacionamento real com as copas, de assistir a todos os jogos, colecionar almanaques, saber os nomes dos jogadores. Fiquei chocado quando a professora de português incentivou a classe a ver “pelo menos uma partida da Copa” — como assim não eram todos tão apaixonados como eu? Os dias eram feitos de ficar em frente à televisão e, nos intervalos, jogar bola na garagem com meu pai. Se já era claro que eu não levava jeito para o contato direto com a redonda, ficava evidente qual era a minha vocação — meus cadernos eram cheios de anotações sobre cada um dos duelos.

A copa das madrugadas em 2002 foi especial para mim, notívago por natureza. Às três da manhã já estava em frente à televisão, jogava vídeo-game entre um jogo e outro e, muito contrariado, deixava a maratona para ir à escola. Os jogos da manhã eram gravados em VHS pela minha mãe e devorados à tarde. Era um período bem complicado da minha vida, sem muitos amigos na escola e com uma grande paixão pelo cinema despertando, mas o futebol continuava sendo um refúgio.

Dezoito anos de idade, cursinho, um namoro adolescente que talvez até possa ser chamado de abusivo e uma visão de mundo da qual hoje eu me envergonho marcaram 2006. É um ano — e uma copa — que não me traz quase nada de bom. E por isso esse pode ser o parágrafo mais curto desse texto, porque essa época foi repleta de questões bastante obscuras na minha existência.

Tudo isso se reverte em 2010 — faculdade, amigos, jogos no bar, cerveja. A fase da vida que a gente passa por um alcoolismo nada saudável e acha que dificilmente voltará a ter tanta felicidade. Lembro de apresentar trabalhos de forma apressada para ir logo assistir às partidas, da abertura da copa em uma manhã na minha quitinete, da festa que acabara em polícia no dia anterior e que foi regada a discussões e apostas sobre o mundial que viria. Das idas e vindas entre minha cidade natal e a da faculdade, dias de tranquilidade vendo os duelos com meu pai, outros nesse universo de loucura que marcaria a minha graduação. Tantas nuances dentro de um mês.

2014 já era a vida adulta de verdade, com reunião de trabalho no Skype enquanto a TV muda passa jogo de fundo, com prato típico da Bósnia sendo cozinhado para torcer melhor pelo simpático país europeu. Mas também teve bares, teve fanfest, teve abertura no dia dos namorados, jantando com a pessoa que até hoje continua me fazendo feliz e imaginando os 63 jogos que viriam pela frente. Os 7 a 1 me geraram mais risadas que qualquer outra coisa, desiludido com a seleção brasileira que sempre fui. Foi uma copa histórica, e só me arrependo de não ter ido ao estádio nenhuma vez — mesmo podendo viver de perto esse clima doido da reunião do mundo inteiro acontecendo do meu lado.

Mais uma copa do mundo chegou. Mais quatro anos se passaram e, neles, eu entendi o que todos os sinais mostravam desde cedo: brincar com o atlas na primeira infância, trocar tudo por jogos do mundial aos seis anos, repetir esse padrão durante toda uma vida. Só assistir não bastava, é preciso participar, produzir conteúdo, compartilhar tudo isso. Uma série de textos aqui no Medium ajudou, o podcast Copa Além da Copa também — e espero que seja só o começo. Mas também vai ter bares, cerveja, amor, a camisa da Islândia que eu ganhei da namorada (dessa vez, o dia dos namorados veio antes da abertura!) e a enorme satisfação que tudo isso traz.

Tudo isso sou só eu. O que as copas que eu vivi me dizem. Mas cada pessoa pelo mundo tem outras lembranças, outras percepções, outros sentidos. Positivos ou negativos, cheios de alegria ou de tristeza. É um mês no qual vale a pena ser patriota, vale a pena ser nacionalista, carregar bandeiras e cantar hinos — mesmo que não os de seu país! É um mês no qual jogos servem para marcar o tempo de namoros, bebedeiras, enterros, festas juninas, choros, sonhos e desilusões. A Rússia agora é o templo do maior espetáculo da Terra, só que esse espetáculo irradia para bilhões de pessoas.

Se eu vejo copas com o olhar maravilhado de alguém que enxerga no futebol uma metáfora para a vida e para o planeta, há quem veja só emoção. Quem chore com os gols de seu país e quem sinta um orgulho imenso ao vê-lo em campo, como é o caso de muitos panamenhos. Há quem tenha conflitos internos por não saber se sua nação realmente o representa, mas ainda assim, pode deixar isso um pouco de lado e torcer, como alguns franceses. Há quem viverá de incredulidade por ver tudo isso do lado de fora, como todos os italianos. Há quem tenha na esperança suas principais armas para resgatar a nostalgia de um passado, como os marroquinos.

Não existe uma copa do mundo a cada quatro anos, existem quase oito bilhões de copas do mundo a cada quatro anos. Fico feliz em compartilhar as minhas com vocês. Que essas de 2018 sejam maravilhosa para todos.

Jornalista, roteirista, escritor. Falo aqui sobre cinema e os esportes que não falo em outros lugares.

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