Pelos olhos de um imigrante, o orgulho marroquino de seu futebol

Carlos Massari
May 31, 2018 · 5 min read

Quando desembarcou no Brasil doze anos atrás, Mamoun Amri não fazia ideia do futuro que tinha pela frente. Uma produtora tentava por meses trazê-lo para estas terras, mas havia grande relutância. Ao fazer um contrato para passar um mês por estas terras, o músico marroquino tinha uma série de dúvidas — não falava português, pouco sabia sobre a cultura e o dia-a-dia de um país tão distante.

Hoje, Mamoun é Mamu Marroquino, cantor de música árabe que se apresenta em bares e restaurantes de São Paulo. Nunca mais voltou para o Marrocos. A comunidade do país do norte da África não é das maiores na principal cidade do Brasil — são menos de mil pessoas — mas é bastante unida. Como alguém que já está aqui há um tempo considerável, ele é um dos principais ajudantes daqueles que chegam em busca de qualquer tipo de futuro nas mesmas condições que um dia ele estava, só com interrogações e choque cultural na cabeça.

Encontro um grupo de marroquinos no Brás, em um típico boteco paulistano — mesinhas na rua e frutas penduradas sobre o balcão. Eles bebem cerveja sem álcool, como manda a religião, e fumam narguilé. Mamoun é o único que fala português e me conta sobre sua trajetória até aqui: a paixão pelo futebol, a viagem, a vida no Brasil, a saudade de casa.

O Marrocos, assim como o Brasil, a França, a Itália e até o Panamá, respira futebol. As crianças jogam na rua com bolas improvisadas e ainda com os uniformes escolares. Mamoun não só não era diferente, como chegou a se destacar e a atuar profissionalmente pelo time de sua cidade, o Nahdat Berkane (que hoje não só disputa a primeira divisão, como tem um atleta na Copa do Mundo — o atacante Ayoub El Kaabi, que tem incríveis dez gols em oito jogos vestindo o uniforme nacional). A carreira na música só veio no início do novo século, após pendurar ainda jovem as chuteiras no esporte mais popular do planeta.

Mamoun se apaixonou pelo futebol com a excepcional campanha marroquina na Copa do Mundo de 1986. Naquela ocasião, o país conseguiu a primeira presença africana na segunda fase de um mundial na história, ficando em primeiro lugar em um complicado grupo que contava com Inglaterra, Polônia e Portugal. Só parou nas oitavas de final diante da futura vice-campeã Alemanha, por 1 a 0, graças a um golaço de falta aos 42 minutos do segundo tempo do lendário Lothar Matthaus. Eu e Aurélio Araújo falamos mais sobre essa história no segundo episódio do Podcast Copa Além da Copa.

1986 foi o momento de ouro do futebol marroquino, que já havia participado de um mundial em 1970 e voltaria a disputá-lo em 1994 e 1998, mas sem jamais chegar perto de repetir aquele brilho. As festas tomaram as ruas das principais cidades do país, a bandeira era empunhada com orgulho e até mesmo músicas surgiram para homenagear a equipe. O sentimento de que países africanos poderiam surpreender e dar trabalho para os representantes dos dois grandes centros, Europa e América do Sul, passou a existir desde então.

Só que um hiato de vinte anos sem presenças em mundiais abalou a confiança do povo, que demorou para acreditar em uma classificação para 2018. Os vizinhos do norte, como Tunísia e Argélia, foram a repetidas Copas nesse espaço, e países como Nigéria e Camarões dominaram o futebol africano. Foi contra outra grande potência do continente, a Costa do Marfim, que a alma se lavou em uma partida no final de 2017.

O próprio Mamoun diz que tinha sérias dúvidas sobre a classificação, já que ela dependia de um bom resultado em solo marfinense. Gols de Nabil Dirar e Medhi Benatia deram a vitória por 2 a 0 e fizeram, pela primeira vez em muito tempo, que a festa explodisse pelo futebol do Marrocos. E o cantor estava trabalhando quando isso aconteceu — fazendo mais um de seus shows em São Paulo. Recebeu pelo whatsapp as boas notícias e, emocionado, tocou uma daquelas músicas em homenagem à equipe de 1986.

A comunidade marroquina no Brasil tenta manter contato com o futebol e, mesmo à distância, representar seu país. A grande oportunidade para isso é a Copa dos Gringos, tradicional torneio que acontece em São Paulo e reúne seleções montadas por imigrantes. Mamoun tem um misto de alegria e tristeza ao falar sobre ter alcançado a decisão da competição, mas ficado com o vice-campeonato após sofrer uma virada do Japão nos minutos finais.

Um país tão apaixonado pelo esporte e cujos filhos o mantêm no coração mesmo longe de casa sonha com uma repetição de 1986. Tudo irá parar em junho, primeiro na estreia contra o Irã, quando até pode-se colocar a equipe africana como favorita, depois em dois duelos extremamente difíceis contra potências europeias — as vizinhas Portugal e Espanha. E quando esses confrontos acontecerem, será muito mais que futebol, mas também história e lembrança do tempo que o reino de Al-Andalus unia as três regiões em um centro cultural e artístico quase mil anos atrás.

Se as bolinhas sorteadas em dezembro não permitiram muitas esperanças aos marroquinos — como Mamoun confirma — e causaram um dos grupos mais cheios de história que podemos recordar em Copas do Mundo, o talento de cada atleta do país será responsável por tentar uma improvável surpresa. Seja contra Cristiano Ronaldo e companhia, seja contra a estrelada e redonda Fúria Espanhola, o brilho pode acontecer e uma nação inteira pode viver o mesmo fervor que aconteceu há trinta e dois anos.

Por aqui, Mamoun continuará fazendo seus shows, ensinando árabe em uma escola da comunidade e ajudando os marroquinos que desembarcam em São Paulo. Cheio de esperança de que seu país volte a brilhar em um mundial. Por lá, as ruas estarão pintadas de vermelho e de verde, as bandeiras e as vozes vão ter pelo menos três dias de sonho. A começar no dia 15 de junho, uma sexta-feira, quando o Marrocos faz sua estreia diante do Irã. Seja na Berkane do nosso personagem, quase na fronteira com a Argélia, seja nas tradicionalíssimas Marrakech e Fes, seja na moderna Casablanca, seja no deserto, tudo será futebol. Tudo será Copa do Mundo.

Carlos Massari

Written by

Jornalista, roteirista, escritor. Falo aqui sobre cinema e os esportes que não falo em outros lugares.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade