Tristeza e incredulidade marcam ausência da Itália da Copa

Carlos Massari
May 18, 2018 · 5 min read

Fabio Grosso converteu o último pênalti, Fabio Cannavaro ergueu a taça do mundo e a Itália se encheu de alegria. Dezenas de milhares de pessoas foram comemorar no Circo Massimo, lugar tradicionalíssimo de Roma desde os tempos mais antigos, e em todo o resto do país. Os Azzurri estavam no topo do mundo e nele passariam pelo menos quatro anos. No Brasil, Fernando Vanucci protagonizava um dos momentos mais clássicos da nossa televisão pouco após o apito final e a sensação de desesperança com a amarelinha começava a se formar.

Se você pudesse voltar no tempo, de 2018 para 2006, encontrar um italiano que festeja no Circo Massimo e contar a ele o que esses doze anos reservam à seleção tetra-campeã mundial, ele certamente riria muito de você. Afinal, mesmo sem que aquela campanha mágica tivesse acontecido, décadas tão ruins não costumam atingir os países mais tradicionais do mundo no futebol. Muita coisa errada se sucedeu e arrastou a Azzurra do topo do mundo para o fundo do poço.

Em 2010, a insistência errada em alguns campeões mundiais que já davam sinais de esgotamento, principalmente o capitão Cannavaro e o técnico Marcello Lippi, levou a uma chocante eliminação na primeira fase do Mundial em um fraco grupo com Paraguai, Eslováquia e Nova Zelândia — nem mesmo contra a equipe da Oceania veio uma vitória. Quatro anos depois, apenas Buffon, Pirlo, De Rossi e Barzagli permaneciam do elenco de 2006. Sem uma renovação adequada e novos nomes de alto nível e com o azar de cair no “grupo da morte”, ao lado de outros dois campeões mundiais (Inglaterra e Uruguai) e de uma surpreendente Costa Rica, a história foi tão cruel com a Azzurra como os dentes de Luis Suarez, selando mais uma vez o destino trágico da volta imediata para casa.

Se não houve renovação para 2014, para 2018 foi pior ainda. A Federação Italiana continuou se atrapalhando, escolheu o fraco técnico Giampiero Ventura para comandar nas eliminatórias uma seleção que, mais uma vez, tinha em Buffon sua única esperança de bom futebol. O pouco talento existente, como um Lorenzo Insigne em ótima fase no Napoli, foi deixado de lado e um jogo de péssimo nível técnico contra a Suécia na respescagem das eliminatórias, 0 a 0 de doer os olhos, fez com que o impensável acontecesse: a única presença da velha bota no mundial será com o McItália na promoção dos sanduíches campeões.

A Copa do Mundo de 2018 será a primeira desde 1958 a não contar com os italianos. Sessenta anos de diferença, dois títulos mundiais no meio do caminho. Gerações de craques, mística, peso da camisa. A Azzurra se acostumou a ganhar quando chegava desacreditada, quando parecia carta fora do baralho. Tanto em 1982 como em 2006, vinha de escândalos recentes de corrupção que colocavam em cheque toda a credibilidade de seu futebol. Mas era como se os antigos deuses romanos conspirassem a favor da Azzurra nos mundiais e permitisse a ela conseguir feitos incríveis como derrubar o Brasil de Telê Santana com um hat-trick do até então caído em desgraça Paolo Rossi. Talvez não tenham sido bem agradecidos por 2006 e agora estão em greve.

Para entender melhor como a Itália lida com o luto dessa eliminação e com o fato esquisito e fúnebre de acompanhar uma Copa do Mundo sem a sua presença, busquei dois italianos que vivem no Brasil e são apaixonados por futebol. Vittorio Mario Scappini, presidente da Sociedade dos Italianos no Brasil, instituição que ajuda tanto seus compatriotas que estão vivendo aqui como brasileiros que querem ir para a bota, e Andrea Capelli, arquiteto e empresário do ramo de construção civil, deram suas opiniões e impressões sobre a tragédia e sobre o futuro após ela.

Scappini tem muitos planos com o futebol no Brasil: tirar crianças da rua através de escolhinhas de futebol em parceria com a Inter de Milão, montagem de um time profissional apenas de ítalo-brasileiros, jogos de veteranos entre os dois países. Ele acredita que a Itália mereceu ficar fora da Copa, mas que seleções que já levantaram a taça do mundo não deveriam disputar eliminatórias. Capelli, por sua vez, tem ótimas memórias de 1982, quando era uma criança passando o verão na praia e viveu o sonho do eterno hat-trick de Paolo Rossi. Em comum, a tristeza e a incredulidade. Veja abaixo reportagem em vídeo:

A única seleção multi-campeã mundial que já passou por tamanho deserto de talento é o Uruguai, que por duas vezes (1978 e 1982, 1994 e 1998) ficou de fora de duas Copas consecutivas. Só que isso é até esperado de um país tão pequeno, no qual é obviamente mais difícil produzir jogadores de qualidades. Ainda assim, com o quatro lugar de 2010, a fase atual é boa novamente para os charrúas, ao contrário do que acontece com os Azzurri.

Enquanto parte da população mundial pintará seus rostos e empunhará bandeiras em junho e julho, os italianos viverão um estranho vazio, uma sensação de não poder cantar um dos hinos mais bonitos do mundo antes dos jogos e de não sofrer com a amada seleção. O que restará, além desse tão impensável distanciamento, será o pensamento sobre o futuro. Como reconstruir esses escombros? Como fazer com que, de 2022 em diante, a Itália volte a ser Itália nesse esporte que lá é chamado de Calcio?

Se um dos grandes erros das últimas eliminatórias esteve no banco de reservas, é de lá que vem as maiores esperanças. A geração de técnicos italianos é brilhante, com ótimos trabalhos sendo feitos pela Europa. Antonio Conte (que dirigiu a Azzurra numa boa campanha na Euro 2016), Maurizio Sarri, Massimiliano Allegri e Eusebio di Francesco são nomes que tem totais condições para fazer bons trabalhos à frente da seleção. Por outro lado, o talento dentro de campo continua sendo escasso. Há alguns bons jovens e outros atletas de certo talento, mas nenhum do nível que outras grandes campeãs como Alemanha, Argentina e Brasil têm aos montes. Será um trabalho operário, recuperando aos poucos uma confiança que parece esmagada.

Como toda tragédia traz uma ponta de alívio, a dos ítalo-brasileiros é não ter o coração dividido quando a Copa chegar. Podem torcer pela amarelinha sem culpa, sabendo que não haverá um Brasil x Itália pelo caminho. Para eles, heróis como Paolo Rossi e vilões como Roberto Baggio estão gravados na memória. Não será até 2022 que um novo atleta poderá inscrever seu nome — para bem ou para mal — nessa riquíssima história.

Esse é o terceiro texto da minha série sobre a Copa do Mundo. Para ler sobre a inédita classificação do Panamá, clique aqui, e sobre a questão da xenofobia na seleção francesa, aqui!

Written by

Jornalista, roteirista, escritor. Falo aqui sobre cinema e os esportes que não falo em outros lugares.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade