Uma breve reflexão sobre pronúncia e cultura

A cultura de um povo se estende sobre vários alicerces. Um deles é a língua. A língua é composta por uma série de aspectos, funcionalidades e relações. Assim, tanto a manifestação escrita quanto a falada se mostram como elementos culturais preponderantes.

A cultura é regrada. Pelo menos, muita gente acredita que é. Ou que deveria ser. Ou mesmo que a cultura está se deteriorando pela falta de regras.

O que acontece é que a língua é composta por uma rede tão absolutamente complexa de processos e fenômenos que não dá para colocar rédeas nela e afirmar que tudo tem que ser x ou y e JAMAIS vai mudar.

Muda-se o tempo todo.

Bom, onde eu quero chegar?

Vamos comparar duas coisas: em português do Brasil, quando alguém fala um verbo no infinitivo, é bem comum que se apague o “r”. Ao fazer isso, teremos pronúncias como: vou falá, vou fazê, vou comê, vou i.

Se você tem uma veia normativa, deve estar pensando em gente assim falando com os exemplos que dei

De um ponto de vista normativo e gramatical, isso é considerado um desvio, um erro, até mesmo uma corrupção ou destruição da essência do português. Ao assumir esses valores, provavelmente poderíamos avaliar que em outras línguas, caso o mesmo processo ocorra, a destruição iminente é a mesma, certo?

Imagine então uma língua com alcance bem mais alto, com muito mais falantes. Se isso acontecesse, seria o fim dos tempos, né?

Escolhamos o inglês como exemplo.

Muita gente reconhece que pelo menos existam diferenças bem marcadas entre um sotaque mais americano e outro mais britânico. Logo, se pensarmos que o sotaque britânico seria o “original”, seus processos devem ser vistos como régua daquilo que é correto, certo?

Pense então em palavras terminadas em -r:

water, cluster, worker…

Como você pronuncia essas palavras imitando um sotaque britânico?

Provavelmente, a primeira coisa a ser feita é apagar o -r. e teremos pronúncias como:

[ˈwɔːtə]

[ˈklʌstə]

[ˈwɜːkə]

Notou que ao invés de termos uma sílaba formada por -er temos apenas um schwa [ə]?

Você se sente nesse lugar falando igual um britânico?

Esse processo é comum em inglês, francês e alemão (pelo menos pensando nas línguas que conheço). Em francês e alemão nem é considerado variação, mas norma definitiva. Em inglês é chique, porque remete ao sotaque britânico. Então se em duas línguas é norma e em outra tem um valor elevado, ainda que se aceite como variação, por que em português é errado e desvio?

A questão não se responde com fonologia. A fonologia simplesmente explica que por ser um final de sílaba que não reforça a necessidade de distinção é mais provável que se apague o som. Economiza-se assim a produção de fala.

O problema vem da cultura. Ou da forma como interpretamos e defendemos cultura.

Coloca-se que se aquela letra existe, logo, a fala, fato inferior da língua — por essa lógica, deveria colaborar e reproduzir com fidelidade como se escreve. O problema é que essa visão é meramente uma ideologia de convenção de valores e não uma análise fria da realidade linguística.

O que ocorre é que, com a mudança da língua, vamos reduzindo sons com o passar do tempo com a finalidade de tornar a fala mais rápida, dinâmica e fluida. Com menos sons, pode-se falar mais e comunicar-se com menos esforço.

A escrita é um processo artificial. Ela busca materializar de forma visual aquilo que ocorre num mundo acústico. Logo, a escrita é duas coisas:

  1. um recorte no tempo e espaço, que seleciona a partir daquele momento o que é considerado língua;
  2. uma convenção daquilo que deve ser usado por todos, uma vez que manter as diferenças da fala provocaria um código escrito extremamente complexo e desorganizado.

Não há problema algum em se ter uma convenção, o problema é quando ela é usada como argumento que extrapola sua função de organização e vira arma conservadora, negando que qualquer formato de escrita partiu de algum momento histórico da fala e está fadado a sofrer mudanças.

Meu questionamento então é o seguinte: podemos afirmar que formas como “falá” são erros em português brasileiro?

Se sim, por quê?

Considerando as informações que temos sobre línguas.

Se não, por quê?

Afinal, se acreditamos que não seja por aí, o que explica esse processo? Seria uma variação? A frequência é suficientemente grande e dispersa entre a população para afirmar que já virou uma norma?

Eu defendo essa última posição, mas adoraria receber uma enxurrada de posturas opostas recheadas com ótimos argumentos.

Que o debate vá longe