Flerte

Estou sentado em um daqueles bancos do metrô que ficam paralelos às portas. No final do vagão, são oito desses, quatro de cada lado, um ao lado do outro e de frente para os outros quatro. Gosto de sentar-me ali, criei esse hábito desde que comecei a tomar o metrô diariamente. São uma coisa a qual me apego com facilidade, os hábitos. Ali sentado, quando não estou lendo um livro ou mexendo no celular, simplesmente não sei para onde olho. Então, volto meu rosto para o chão, e assim evito contatos visuais constrangedores.

Entrei na estação São Francisco Xavier e fui até o final do vagão. Sentei-me de frente pra um rapaz magro, alto, cabelo castanho. Ele deve estar indo trabalhar. Veste uma camisa social azul-clara, cuidadosamente colocada por dentro da calça de sarja cáqui. O sapato marrom, já gasto na sola, tem a ponta, fina e arranhada, apontada para mim. O rapaz, deve ter uns vinte, vinte e poucos anos, está olhando para o chão.

Fico nessa de olhar para o chão, olhar para o celular para ver as horas, olhar de novo para o chão. Em uma dessas idas e vindas com os olhos, percebo na minha frente um tênis do tipo all-star branco apontado para mim. O calçado já deve ter alguns anos de uso, conforme denuncia o contraste entre o branco do bico de borracha e a cor da lona, cujo tom encardido já não some com as lavagens. A lona encardida também contrasta com o tornozelo branco e nu sobre o pé que a veste. O tornozelo é magro e alvo e sobe para umas panturrilhas roliças que me provocam a levantar o olhar.

Ele olha, acho que sem querer, diretamente para os meus olhos, mas rapidamente desvia a vista. Que vergonha!, deve ter notado que eu o estava encarando! Reparei que ele é bonito. Mas está tão arrumado e sério, indo trabalhar. Tem feições de garoto, mas já é adulto. E eu com esse vestido de verão, um all-star velho, o cabelo desarrumado. Sei que numa eventual relação, as pessoas diriam que eu sou bonita demais para ele. Mas achei engraçada a forma com que os olhos dele escaparam dos meus. Tiro um livro da bolsa e começo a ler. Talvez, assim, ele se sinta mais à vontade para me espiar.

Ela é linda. Sobre seus ombros caem duas tiras muito finas que sustentam o leve vestido branco florido de cores variadas. Ela se veste para aproveitar a vida. Se tiver me notado, quem dera!, me achou um engomadinho. Agora ela tirou um livro da bolsa. Enquanto ela lê Borges, eu admiro seus traços finos, seu sorriso encolhido, a franja quase tampando sua visão. Eu deveria comentar que também aprecio a literatura latino-americana. Será que ela prefere Garcia Márquez ou Vargas Llosa? Tento disfarçar, mas continuo encarando. Ela sobe brevemente a visão sobre as páginas do livro e novamente nos encontramos. Mais uma vez, fraquejo e volto a vista para o chão, como se nosso encontro tivesse sido por coincidência.

Ele deve ter reparado que estou há cinco minutos lendo a mesma página. Eu sou uma idiota. Não consigo me concentrar no que leio, mas viro a folha para emular uma leitura fluida. Será que ele me acha esnobe por ter pegado Borges para ler no metrô? Será que ele conhece Borges? Se conhece, acha que eu sou esnobe. Por que eu abri esse livro? Agora, ele pensa que eu estou ocupada, não vai querer me incomodar, interromper minha leitura. Mas também não posso guardá-lo agora, acabei de começar a ler. Vai achar que sou doida. O trem para na Central, entra uma senhora e fica de pé, bem na minha frente. Que droga, ela ficou justamente entre nós! Ele se levanta, põe a mão no ombro dela e oferece seu assento. Caramba, deve estar pensando que sou uma mal educada. Ela estava virada de frente para mim, era para eu ter lhe dado meu lugar. A senhora agradece, diz que já vai descer, e continua em pé, interrompendo-nos.

Ela deve ter achado que eu sou esnobe. Que só cedi o lugar à velhinha para chamar sua atenção. Mas que alternativa eu tinha? Se não oferecesse, ela me teria por sem educação. Nunca sei como agradar às mulheres. Na Central, junto à velhinha, entrou uma moça linda. Mas não me atrevo a encará-la. Se faço isso, a moça do vestido de flores coloridas pensa que sou um galinha. Não. Foi ela quem achei bonita primeiro, será ela a única mulher bonita do vagão para mim. O trem sai da estação Carioca. Eu me levanto. A moça bonita fecha o Borges, guarda-o na bolsa e se levanta. Andamos lado a lado até a porta e assim permanecemos, um ao lado do outro, ambos encarando o vidro da porta fechada.

Ele anda até a porta e, logo em seguida, me levanto. Será que ele acha que me levantei só porque ele se levantou? Quando o trem parar na estação, vou sair andando rápido na frente dele, para que saiba que não o estou seguindo.

O trem para, as portas abrem. Ela sai andando apressada na minha frente. Caminhamos juntos, ela uns dez passos à minha frente, em direção à dianteira do veículo. Deve ter percebido que eu a estava fitando no metrô. E agora saiu na minha frente, deve estar tentando fugir de mim. Mas que culpa tenho se minha saída é para o mesmo lado que a dela? Se eu ultrapassá-la, ela vai saber que não a estou seguindo. Ela olha para trás rapidamente e me vê. Deve pensar que sou um psicopata. Não a culpo, o metrô está cheio de tarados.

Será que ele está atrás de mim ou foi para o outro lado? Viro a cabeça para trás e nossos olhos outra vez se encontram. Quando vou atravessar a catraca, percebo que ele me alcançou. Eu dobro à esquerda e subo as escadas em direção à rua. Viro, mais uma vez, minha cabeça para trás, mas ele não está mais ali. Virou à direita.

E essa é a história de quando nos encontramos no metrô e nunca mais nos vimos.