A Esquerda brasileira e os Estados Unidos
Macaquear a esquerda americana é pior do que parece

Eu sempre achei que o fato de nossa língua doce e gentilmente chamar de “inocente útil” à mesmíssima figura que em outras línguas é dita “idiota útil” é uma dessas provas de que estamos no caminho certo. Afinal, o inocente útil é ao mesmo tempo efetivamente uma besta — um idiota rematado — e um inocente. Ele faz o que faz, que normalmente já é a coisa errada, por razões ainda mais erradas. Acha que está trabalhando para que a sociedade vá numa determinada direção, quando na verdade está sendo usado como bucha de canhão por poderosos que estão vergando a peso de dólares e euros a deriva social na direção oposta àquele que ele acha estar buscando ou, pior ainda, construindo.
Em tempo: aproveitando que este texto já não vai ser coisinha pequena e tuitável, mesmo, aproveito e digressiono sobre o que vem a ser a famosa bucha de canhão. É coisa simples. Antigamente, quando canhões e espingardas eram armas de carregar pela boca, meros baldes gorduchinhos com um furico na parte de trás onde se inseria um pavio, os atiradores primeiro botavam a pólvora, depois um monte de panos socados para comprimi-la, e depois a bala (uma bolota de pedra ou metal). Os panos são a bucha. Eles servem para garantir que a explosão da pólvora solte sua energia toda de uma vez só, jogando a bala para longe, de preferência para a cabeça do inimigo. Ou seja: a pólvora explode e a bala sai voando. E a bucha? Dane-se a bucha. Ela é descartável. Parte dela se queima, parte voa e cai em qualquer canto sem fazer mal a ninguém, e absolutamente nada dela tem qualquer valor que seja depois que o canhão disparou. Ninguém sequer se interessa por onde venham a cair seus restos incombustos, porque afinal panos são coisa macia, que não incomoda nem machuca.
E é isso, bucha de canhão, a melhor das metáforas para o papel que vem sendo desempenhado pelos inocentes úteis (ó, admirável delicadeza da nossa língua) na nossa política. A agenda que fortalecem não é a deles, e não os ajuda em rigorosamente nada; tudo o bem que buscam fazer é na verdade combatido pelas suas ações; os inimigos que eles creem combater são na verdade os seus próprios mestres; os que eles julgam ajudar são vitimados por seus atos, e por aí vai, num contínuo de idiotices perpetradas de maneira perfeitamente inocente, mas tremendamente útil a quem busca o oposto do que eles pensam querer e tem poder bastante para impeli-los à ação.
Antigamente, muito antigamente, nos tempos da famigerada Guerra Fria, ainda havia aqui no Brasil, efetivamente, uma “guerrinha por procuração”; comparada às demais, foi pouca coisa, quase nada. As “proxy wars”, “guerras por procuração”, eram as guerras armadas (“quentes”) e econômico-sociais (“frias”) que os EUA e a URSS incentivavam, como maneira de aumentar a própria esfera de influência e reduzir a do rival. Aqui no Brasil, tivemos tanto a guerra quente quanto a fria, sempre por procuração, com grupos de extrema-esquerda pegando em armas bancados e treinados por países do dito Segundo Mundo (comunista), como Cuba, China, Albânia e a própria União Soviética, enfrentando tanto as forças policiais e militares quanto grupos armados de ajuda à repressão, como o Comando de Caça aos Comunistas. Foi, contudo, uma guerrinha absolutamente ridícula, tanto em número de vítimas de ambos os lados quanto em número de envolvidos diretos e indiretos (quem chega atrasado no trabalho porque um ataque terrorista causou um engarrafamento, por exemplo, é um envolvido indireto), quando a comparamos com as ocorridas nos países do resto da América Latina, e, muito mais, com os países em que a guerra foi total e aberta, ou mesmo com participação direta dos países financiadores, como foi o caso de Coréia e Vietnã.
A nossa guerra fria foi continuação, ou mesmo reflexo, da que ocorria na Europa: ambos os lados agiam por meios de difusão “cultural”, aberta ou ocultamente, procurando converter o que os americanos chamam de “corações e mentes” da população. O que conseguiram foi, em grande medida, influenciar a classe média urbana e o próprio governo. A luta por procuração entre EUA e URSS é uma luta moderna, travada entre modernos, e só pôde ser perfeitamente percebida na classe mais moderna. A população do dito Brasil profundo só tomou conhecimento dela de forma indireta, ainda que nem por isso menos daninha.
Daninha, sim, porque o que os atores desta guerra por procuração buscavam fazer era transformar o Brasil em algo que nós não somos e jamais seremos: um país moderno dominado por um pensamento ideológico, seja ele capitalista ou comunista. Na verdade, a diferença essencial é minúscula: ambas as ideologias são formas tremendamente materialistas e reducionistas de ver o mundo, negando o que há de mais importante (o amor — 1Jo IV,8 –, a família, as relações de amizade, o cuidado da Criação, etc.) em prol de coisas perfeitamente passageiras, que o próprio Senhor disse serem secundárias (Lc XII, 29–31: “Vós, pois, não procureis o que haveis de comer ou beber, e não andeis com o espírito preocupado. Porque são os homens do mundo que buscam todas estas coisas, mas o vosso Pai sabe que tendes necessidade delas. Buscai, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus, e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo.”). A diferença é simples: o capitalismo é extremamente eficaz em botar na mesa a comida (e celulares, e roupas da moda, e milhares de outros “bens de consumo”, substitutos materialistas para o aprimoramento pessoal), enquanto o socialismo simplesmente não funciona para o que se propõe a fazer, e leva invariavelmente à mais generalizada miséria material. Mas ambos querem ao mesmo tempo encher a barriga e matar a alma, o que faz com que acabem sendo equivalentes, ou mesmo que o mais eficiente em fazer o mal a que se propõe seja ainda pior.
Dos anos 50 aos 80 do século passado, tanto os governos quanto a mídia e os movimentos ditos culturais, em sua imensa maioria, trabalhavam culturalmente em prol de um ou outro dos guerreiros frios competidores. As exceções, como o Movimento Armorial de Ariano Suassuna, são pouquíssimas.
O fenômeno mais interessante, contudo, a que pouca gente prestou atenção, é o resultado das guerras culturais por procuração na “guerra cultural” intestina dos EUA. A mesma ação soviética que bancava enorme parcela da produção cultural dos países de Terceiro Mundo, como o Brasil, procurava — frequentemente com sucesso — influenciar culturalmente os próprios EUA, através principalmente da mídia, música e cinema. Algumas ações eram meramente destrutivas, como o incentivo dado por agentes provocadores a grupos terroristas (Weathermen, Black Panthers, etc.), ao abusos de drogas (movimento hippie), à promiscuidade sexual e ao aborto, etc. Outras eram mais direcionadas, como as campanhas pacifistas que visavam apenas as guerras americanas contra rivais bancados pelos soviéticos.
O resultado desta guerra cultural foi etnograficamente bastante interessante: apoiando-se na pulsão coletivista e totalitária sempre presente (e oposta a outra pulsão individualista) numa cultura cujas origens estão em tentativas de construir utopias calvinistas, a ação soviética conseguiu construir, a partir de material legítima e perfeitamente americano, uma subcultura que, em termos práticos, se coloca em muitos aspectos contrária àqueles valores e mecanismos sociais sobre os quais o país foi edificado. Curiosamente, dado o dualismo da mentalidade culturalmente calvinista, os aspectos desta subcultura que são condizentes com eles acabaram criando uma reação contrária que os nega. Ou seja: na guerra cultural, foi possível modelar — provavelmente bem mais que o que imaginavam os profissionais russos de agitação e propaganda — ambos os lados, ambas as “opiniões” do discurso público norte-americano (mais exatamente, americano e canadense; os mexicanos, pobrezinhos, não entram muito nesta equação, ainda que sofram as consequências dela), fazendo com que ambos os lados se desenvolvessem, mais por oposição ao outro lado que por qualquer outra razão, em direções que horrorizariam qualquer pensador americano de até o início do século passado.
Alguns elementos tipicamente americanos ganharam roupagens e abordagens novas, e as mudanças foram de tão grande monta que causaram reviravoltas imprevisíveis no cenário político dos EUA. O exemplo mais claro disso talvez seja a abrupta transformação dos partidos políticos, que viraram, juntos, 180o em relação a suas posições e eleitorados tradicionais ao longo da década de Sessenta do século passado. O Partido Democrata, o partido confederado e individualista por excelência, que lutou contra a abolição da escravatura e impediu literalmente a erro e fogo a integração dos libertos na sociedade do sul, o partido da Ku Klux Klan, tornou-se da noite para o dia o partido negro e coletivista; o Partido Republicano, abolicionista e firmemente convencido de ter o dever de conformar o mundo às suas idéias coletivistas, o partido de Abraão Lincoln, tornou-se o partido branco e individualista.
Esta questão das “raças”, aliás, merece um olhar mais cuidadoso neste texto, já que é uma das áreas mais propícias ao desenvolvimento e exploração de inocentes úteis.
Contrariamente ao que os discursos americanos, em sua quase totalidade, procuram transmitir, o conceito de “raça” é extremamente recente. Na verdade, é fruto da mesma pseudociência do Século XIX que nos deu o espiritismo kardecista, o magnetismo animal de Mesmer, o “éter”, os “fluidos” e outras fantasias. Trata-se de um conceito que pôde existir enquanto durou uma precária situação de crença em determinismo biológico conjuminada com ignorância da biologia, e teria sumido completamente na lata de lixo da História após a derrota nazista (que matava os judeus por eles serem uma “raça” inimiga, o que é muito curioso no contexto americano hodierno, em que os judeus não são, em absoluto, uma raça à parte dos demais “brancos”) se não fosse a sua triste “utilidade” na política americana.
A imigração forçada de pessoas africanas escravizadas foi um fenômeno fortíssimo no Sul dos Estados Unidos, em que a escravidão surgiu como maneira de manter, numa espécie de caricatura paroxística, a separação tradicional inglesa entre nobreza e povo. Os imigrantes ingleses, em sua maioria, eram de origem social alta, mas sem posses, sendo muitos deles segundos e terceiros filhos (o primogênito herdava tudo); saíram da Inglaterra, em suma, por não terem em quem mandar. Na América, por razões óbvias, não tiveram sucesso em importar plebeus ingleses que quisessem obedecer a eles (os imigrantes plebeus que não estivessem envolvidos nas tentativas de construção de utopias religiosos tinham o hábito de dirigir-se assim que possível ao interior e invadir terras indígenas, em vez de procurar um lugar na sociedade litorânea), e solucionaram o problema importando africanos.
Assim, os africanos que chegavam ocupavam diretamente um lugar perfeitamente definido na ordem social: o lugar dos plebeus a serviço de uma sociedade que se percebia como “nobre” (em inglês, “cavalheiro” ou “cavalier” — até hoje o termo tem, ironicamente, a conotação de “mandão”, “grosseiro”, “arrogante”). Não havia mobilidade social possível para eles, porque eles foram trazidos justamente para impedir que houvesse mobilidade social. O filho do escravo era escravo, mesmo que fosse um mulato nascido do estupro de uma escrava pelo seu “dono”.
Nada poderia ser mais perigoso para aquela sociedade que a flexibilização da diferença entre escravos e livres, não por razões “raciais” — ainda não existia o conceito –, mas por ser esta diferença a base da ordem social. Os livres eram livres e os escravos eram escravos, e não havia nenhuma margem de rebolado nisso. Ao contrário do que acontecia no Brasil, por exemplo, um escravo jamais poderia comprar a própria liberdade e tornar-se, ele também, senhor de escravos. Aliás, há histórias interessantíssimas sobre os sulistas americanos que fugiram para cá depois da derrota na Guerra Civil e assustaram-se tremendamente ao perceber que aqui havia pretos livres, pretos fazendeiros e nobres, etc. A eles — que fundaram a cidade de Americana e outras na região — devemos o “R” retroflexo caipira e a Rita Lee, descendente de imigrantes sulistas e provavelmente parente distante do famoso General Lee. Bem que eu achava que ela não se parecia com o Bruce Lee!
Os escravos afro-americanos (ou seja, tanto os africanos como seus descendentes) foram forçados a deixar de lado suas línguas, músicas, religiões e culturas nativas, mas ao mesmo tempo — e isto é importantíssimo — não lhes foi facultado em momento algum assumir perfeitamente a cultura de seus “donos”, na medida em que para estes eles eram simplesmente gado. O resultado foi o surgimento de uma cultura afro-americana que é completamente americana, mas restrita a descendentes de africanos.
No momento em que a escravidão se tornava uma questão premente ao ponto de gerar dentro dos EUA, opondo americanos a americanos, a primeira guerra total moderna, ou, mais precisamente, no momento em que se tornava uma questão premente o destino a dar àquelas pessoas daquela nação, daquela cultura imiscível que fora formada pela importação de escravos, todavia, surgiu a noção pseudocientífica de “raça”. Arthur de Gobineau, diplomata francês e amigo pessoal de Dom Pedro II, lançou durante a Guerra Civil americana seu famoso “Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças”, em que tentava dar uma fundamentação biológica para uma pressuposta superioridade dos nobres sobre os plebeus (que dirá dos europeus sobre os africanos!).
Para os problemas culturais americanos, o conceito pseudocientífico de “raça” foi um presente dos deuses (ou dos demônios…) naquele momento histórico. Afinal, o que eles tinham em mãos era uma vastíssima população com uma cultura diferente da deles, em pleno território americano, no lugar em que eles planejavam criar uma sociedade utópica. O mesmo problema existia em relação aos índios, mas ao contrário destes, os escravos estavam em meio aos imigrantes de origem européia. Os índios foram dizimados e tiveram sua humanidade negada liminarmente, mas os escravos eram um estorvo muito maior. Eles falavam inglês. Eles eram necessários — ainda que como homens livres — para a economia de enorme parcela do país. Cabe lembrar que os estados sulistas, antes da Guerra Civil, haviam querido invadir a América Central inteira para escravizar todos os seus habitantes; acabaram tendo que contentar-se apenas com 60% do território do México, invadido e anexado aos EUA desde então (os atuais estados da Califórnia, Arizona, Novo México, Texas, Utah, Nevada e Colorado são território mexicano roubado). Se o projeto de invasão houvesse continuado, haveria dois grandes conjuntos de escravos, um de protestantes descendentes de africanos e outro de católicos descendentes de ameríndios, e a situação teria sido totalmente outra. Voltas que a História dá!
Mas o estranho conceito pseudocientífico de “raça”, como eu dizia, entrou como uma luva naquele momento histórico. Era a maneira perfeita de evitar a “mistura” do que inicialmente seriam classes, mas que na prática se haviam tornado culturas, nações mesmo, à parte. Tratar os escravos libertos como uma nação implicava em dar-lhes uma identidade extremamente perigosa, mais ainda após eles terem sido submetidos a uma dieta de bíblia bastante rigorosa nos séculos anteriores para “curá-los” do animismo de origem. Nações têm Moisés e Terra Prometida, e isso não é exatamente como se quer que os trabalhadores braçais da colheita de algodão se percebam. A fundação da Libéria, país africano colonizado por libertos americanos, cuja bandeira é igual à americana mas com uma só estrela, aliás, veio dessa percepção de que os escravos eram, sim, uma nação; esta percepção e este discurso eram predominantes nas regiões que não dependiam da mão de obra escrava (ou de libertos, o que acaba dando na mesma).
Já a “raça” era um conceito que impedia completamente qualquer mobilidade. Um conceito ontológico, tão ontológico quanto o masculino ou o feminino (ou até mais, como a comparação entre o caso de Rachel Dolezal e o de Bruce Jenner mostram em nossos dias). Mais ainda, a “raça” trazia consigo conceitos de superioridade e inferioridade que pareciam evidentes, mais ainda a uma sociedade de matiz calvinista, portanto já habituada ao conceito de dupla predestinação; se os membros de uma “raça” são pessoas estudadas e ricas e os membros de outra são trabalhadores braçais pobres e analfabetos, é mais que evidente que aquela é superior a esta. Esta noção, atribuindo à biologia o que na verdade era uma diferença cultural e de acesso a meios, persiste até nossos dias, como se pode perceber nas polêmicas leituras do recente livro The Bell Curve.
A partir daí, o conceito de raça, que no resto do mundo teve uma sobrevida de algumas décadas, perdurou nos discursos americanos como sucedâneo de um indesejável reconhecimento da especificidade cultural da população descendente de escravos, especificidade esta que não só se perpetuou, mas aumentou como passar do tempo. O sistema de apartheid vigente no Sul do País após a retirada das tropas do Norte (leis Jim Crow) garantiu que a separação entre as nações, logo o discurso de “raça”, só fizesse aumentar até o momento em que ele pôde ser cooptado para as guerras culturais dos anos sessenta em diante, de forma, aliás, relativamente simultânea à virada partidária que mencionei mais cedo.
As poucas tentativas de tratar das especificidades da população descendente de escravos de uma maneira mais objetiva, tratando-as como nacionais e não “raciais”, foram em geral extremamente paternalistas (como o infeliz caso do “Ebonics”, em que se propunha tratar o dialeto falado nos guetos “negros” como uma língua à parte), e acabaram sempre recaindo num determinismo biológico baseado no absurdo conceito de “raça”. Não importa que a genética tenha sobejamente demonstrado que raças não existem; o conceito, na sociedade americana, é extremamente útil como forma de manter a ilusão de que as divisões nacionais dentro do país são de outra natureza. É por isso que há pouco tempo surgiu, por exemplo, um conceito de “raça latina”, que já perde completamente de vista a suposta base biológica do conceito pseudocientífico original de “raça” ao fazer da cultura e da língua (o que tradicionalmente se denominou nacionalidade), não do fenótipo, as notas de uma “raça”.
As guerras culturais movidas no interior dos EUA por agentes de agitação e propaganda soviéticos empregaram com enorme maestria estes conceitos, tanto para lançar as populações uma contra as outra por razões “raciais” (por exemplo, nos Watts Riots), aumentando assim a tensão social no país, como para incentivar as ações coletivistas de cunho intrarracial (Black Power, etc.). O resultado foi o recrudescimento de algo que sem incentivos exógenos provavelmente teria sido eliminado naturalmente aos poucos, e a manutenção e acirramento de um discurso racialista que já tem muito pouco em comum com suas origens pseudocientíficas. Não importa; o fato é que a “raça” passou a ser nos EUA uma nota ontológica essencial, que define a pessoa mais que qualquer outra coisa. É-se “negro” ou “branco” antes mesmo de se ser homem ou mulher, americano ou estrangeiro.
Ainda herança do ímpeto destrutivo e antissocial das mesmas guerras culturais é o fascínio com entorpecentes, seja a favor ou contra. A “Guerra às Drogas” do governo americano e o moimento hippie, a experimentação psicodélica de Timothy Leary e o misticismo mescalínico de Castañeda são dois aspectos do mesmo fenômeno de fascínio, empregado como cunha de clivagem destruidora na sociedade, num tema que veio a tornar-se outro contencioso a servir de separação cultural entre os adeptos das pulsões coletivistas e individualistas na sociedade. Como de hábito, aliás, é nos anos Sessenta do século passado que cada lado toma suas posições, em que só fizeram entrincheirar-se mais.
Outro aspecto desta guerra foi a transformação radical do movimento feminino por direitos políticos, iniciado com as sufragistas e transformado (mais uma vez, na mesma época mágica) em instrumento de ao mesmo tempo dissolução social (ao atentar contra o matrimônio em geral, não apenas nas suas formas realmente doentias e opressoras) e transmissão de uma visão de mundo de extrema-esquerda.
Finalmente, ainda na mesma linha das ações de agitação e propaganda que visavam a dissolução da sociedade, e usando em muitos aspectos do mesmo mecanismo, temos o movimento em prol da equiparação do homossexualismo com o matrimônio, que surgiu para a História, como quase tudo o mais nesta nossa narrativa, no final dos anos Sessenta, nos Stonewall Riots.
O resultado destas guerras culturais, que persistem até hoje mesmo sem que haja ainda a presença de agentes estrangeiros a provocá-las, por terem atingido uma massa crítica e uma forma culturalmente perfeita que as permite prosperar por conta própria, é que a guerra fria de ontem se desenvolve hoje dentro da própria sociedade americana. Paradoxalmente, a Rússia de hoje, comandada por um oficial de carreira da KGB, coloca-se do lado individualista das guerras culturais.
Cada um dos lados vem se tornando progressivamente mais distante do outro, e cada vez mais se percebe impossibilitado, por razões culturais, de sequer perceber o discurso do outro como coerente, que dirá de dialogar com ele. Assim, a falecida União Soviética conseguiu explorar o elemento dualista da cultura americana — o mesmo elemento que os levou à Guerra Civil no Século XIX — de modo a dividir a sociedade “branca” e instrumentalizar a “negra” e a “latina” contra a primeira. Ironicamente, as mesmas técnicas funcionaram perfeitamente na mentalidade mais coletivista e não-dualista das populações da Europa Ocidental. Esta, hoje, enfraquecida pela adesão coletiva praticamente unânime à subcultura autodestrutiva implantada pelo agitprop russo, cai não mais nas mãos dos comunistas de Moscou, mas nas de seus inimigos tradicionais, os muçulmanos que sempre ameaçaram a fronteira Sul do império russo e que a URSS só dominava pela força.
Aqui no Brasil, os nossos inocentes úteis, no mais das vezes instrumentalizados por grandes corporações americanas (Fundação Ford, Soros, Rockfeller, Carnegie e demais financiadores contumazes do coletivismo político), repetem como papagaios os discursos dos coletivistas americanos, o que é francamente absurdo por eles serem parte de um debate que se desenvolve (ou não, já que muitas vezes é uma discussão de surdos) dentro de uma cultura diferente, com referenciais tão radicalmente diferentes que é simplesmente impossível traduzir para o nosso mundo o que está realmente em questão.
Paradoxalmente, o maior temor da imensa maior parte dos nossos inocentes úteis, que se julgam “progressistas” ao macaquear os “progressistas” gringos, é justamente o de o Brasil cair na mão… dos americanos para quem eles trabalham. Um exemplo claro surgiu nas leituras esquerdistas dos protestos contra o PT que tomaram o Brasil sem nenhuma liderança organizacional significativa, surgindo e espalhando-se espontaneamente pelas redes sociais: algumas poucas pessoas absolutamente desconhecidas, que por uma razão ou outra colaboraram ou se expressaram publicamente, foram alçadas pela esquerda a “mentores” ou “organizadores” de tudo, e suas supostas ligações com os raríssimos miliardários americanos que não financiam os ideais “progressistas”, como os irmãos Koch foram denunciadas por todos os órgãos esquerdistas.
Ora, os irmãos Koch, na medida em que uma família de miliardários pode ser de oposição, o são. E são minoritários. O grosso da ação americana, e aliás o cerne de sua influência cultural e comercial (e mesmo, em alguma medida, militar) é exercida em prol dos ideais “globalistas” do coletivismo “progressista” cujas causas os EUA tentam forçar o mundo a aceitar. Foi o que aconteceu quando o coletivismo americano forçou o mundo a proibir as drogas, e acontece agora na mão inversa, quando o mesmo coletivismo, na sua forma pós-guerra fria, tenta forçar o mundo a legalizá-las, ou a equiparar as uniões homossexuais com o matrimônio.
As mesmíssimas fundações americanas que a esquerda brasileira justamente acusava de intromissão indevida quando do pacto MEC-USAid, no tempo dos militares, são as financiadoras das causas e programas que os inocentes úteis da nossa esquerda idiota e bovinamente seguem e por que militam.
Vimos acima de maneira mais aprofundada o significado cultural específico de algumas questões que são importadas dos EUA por estes organismos multinacionais e propugnadas pelos inocentes úteis brasileiros; vejamos agora as razões por que é impossível traduzi-las para o nosso contexto.
A questão dita racial, que no seu lugar de origem é na verdade um grosseiro eufemismo binário para um conflito entre duas nações — uma descendente de escravos, outra de imigrantes voluntários — no mesmo território, simplesmente não faz sentido algum no Brasil. Ainda que certamente haja situações em que a cor da pele conta, elas não são mais intimamente ontológicas, por assim dizer, que situações em que contam outros aspectos igualmente secundários, como a beleza plástica, a estatura, a força física, a roupa que se usa, a idade, etc. Enquanto nos EUA ser “negro” ou “branco” significa pertencer a uma determinada cultura, com dialeto próprio, música própria, bairros próprios, universidades próprias, etc., sendo a cor da pele apenas um indicador de pertença, no Brasil todos vivem em conjunto, ouvem a mesma música, têm a mesma cultura, casam-se uns com os outros e têm filhos que serão “moreno-jambo”, “mulatinho”, “pardo”, “escurinho”, “bronzeado” ou qualquer outra não-definição racial, em função de miríades de aspectos psicossociais, dentre os quais as condições financeiras (quanto mais rico, mais melanina será necessária para que alguém seja considerado realmente “preto”), o nível de educação formal, etc.
O resultado é que a importação do racialismo americano pelos inocentes úteis brasileiros, que fizeram o serviço completo e trouxeram não apenas um falso problema (ou, antes, um problema que não é o nosso) mas também suas falsas soluções, simplesmente não tem como fazer qualquer sentido aqui. Exigir que se trace uma divisão binária formal entre “pretos” e “brancos” (o evidente ponto de partida da questão nos EUA), no Brasil, é ainda mais absurdo que exigir que se trace uma divisão binária formal entre moças “bonitas” e “feias”, ou qualquer outro critério igualmente subjetivo e dotado de milhares de gradações possíveis. Assim como a beleza está nos olhos do observador, a cor da pele, no Brasil, também está. Não temos uma “cultura negra” de que “brancos” não participam; aliás, Mãe Giselle de Iemanjá, uma das mais famosas mães-de-santo brasileiras, era francesa e mais branca que o traseiro de um escandinavo. Temos, sim, uma cultura brasileira em que aspectos importantíssimos são de origem africana, mas é uma só cultura, de que todos participam.
A cor da pele, nesta cultura, indica principalmente a classe social, pois sempre houve muito pouca mobilidade social e muita miscigenação étnica. Assim, como com a abolição da escravidão a classe pobre viu-se dotada de um enorme contingente de pessoas com a pele escura, os (relativamente poucos) descendentes pobres de europeus casaram-se com os muitos descendentes pobres de africanos, e a cor dos pobres ficou mais escura, como um todo. Do mesmo modo, os (relativamente poucos) descendentes ricos de africanos casaram-se com os muitos descendentes ricos de europeus, e a classe mais alta permaneceu embranquecida, como um todo. A mobilidade social brasileira é pequena o suficiente para que em poucas gerações os descendentes dos poucos que cruzam a barreira de classe (esta sim existente), para cima ou para baixo, sejam da mesma cor dos amigos e colegas, não dos ancestrais empobrecidos ou enriquecidos. Eu tenho, aliás, um belo exemplo disso na família: uma tia minha por afinidade, neta direta e legítima de um barão e senhor de escravos negro retinto, é loura e tem olhos azuis claríssimos. Nos EUA ela seria considerada “racialmente” negra; aliás, lá ela dificilmente teria esta aparência pois, mesmo milionário, seu avô teria se casado com uma pessoa da mesma “raça”, não da mesma classe, como se faz aqui no Brasil.
Nos EUA, criou-se um sistema de cotas nas universidades para tentar levar mais membros da nação (dita e tida por “raça”) afro-americana à classe média. O raciocínio era de que um “negro” formado se casaria com uma moça “negra”, e seus filhos seriam igualmente membros da mesma “raça”, só que de classe média. Faz algum sentido no contexto americano, ainda que problemas inesperados tenham surgido no caminho das boas intenções, como o surgimento de uma forte resistência à escolarização na cultura “negra”, em que buscar uma educação formal superior passou a ser tido como uma forma de renegar as origens e “act white”, “agir como se fosse branco”.
Já no Brasil, qualquer mecanismo pelo qual se venha a aumentar a mobilidade social pode ajudar indivíduos, mas não “raças”. Um rapaz de família favelada, pelas razões expostas acima, provavelmente terá um fenótipo mais tendente ao africano que um rapaz de família rica, mas ele não é pobre por ser preto; ao contrário, ele é preto por ser pobre, e se for elevado à classe média irá casar-se com outra moça de classe média, provavelmente de fenótipo mais europeu que o dele, e em duas ou três gerações a situação vai ser exatamente a mesma.
Imbecilidades rematadas que já são ridículas no ambiente de origem, como a acusação de “apropriação cultural” feita contra “brancos” que usem isto ou aquilo que seja tido como parte de uma suposta “cultura negra” (turbantes, sei lá), então, já ultrapassam qualquer limite de absurdidade e verossimilhança quando importadas, e nem merecem mais que esta breve menção.
Outra causa importada tal e qual pelos nossos inocentes úteis, como sempre com farto patrocínio americano e tocada por gente que bate três vezes na madeira ao falar “Estados Unidos” (aliás, é gente que muitas vezes chega ao ponto de — horresco referens! — usar o antiestético termo “estadunidense”!), é a elevação das drogas a objeto de quase culto religioso. Na cultura de matiz calvinista dos EUA, objetos são bons ou maus; a ideia de que eles são moralmente neutros e bom ou mau é o uso que se faz deles, é de difícil digestão naquele contexto cultural. Assim, as drogas — que o lado coletivista daquela cultura percebia até há pouco como abominação — passaram a ser, para os “progressistas”, uma coisa maravilhosa. Não se trata mais de contenção de estragos; a maconha primeiro passou a ser remédio, depois direito, depois forma de alcançar o nirvana. O que era mau passou a ser bom, e pronto, acabou-se. O movimento pela legalização das drogas, aliás, segue pari passu o movimento oposto de demonização delas no século passado, pelo qual os EUA conseguiram proibir a própria existência de maconha e cocaína em praticamente todo o mundo algumas décadas atrás. Em breve, o que se vem fazendo com a maconha será feito com a heroína, nos EUA; os primeiros passos já foram dados.
Aqui no Brasil, tanto a demonização quanto a sacralização de substâncias sempre foi algo difícil de fazer a sociedade aceitar, ainda que a campanha proibicionista americana tenha atingido um elevado grau de sucesso no caso das drogas (que tornou) ilícitas, o que é em grande parte devido ao fato de elas jamais terem sido populares antes de serem proibidas. Mesmo assim, o caminho oposto, se fosse o caso, para funcionar na nossa cultura deveria passar não por uma elevação brusca da erva a remédio ou solução para todos os problemas; fazê-lo só cria animosidade ainda maior, pelo absurdo da proposição. Não lidamos com sistemas binários, em nossa cultura: para ir do preto ao branco, aqui, é necessário percorrer todos os tons de cinza. A insistência vai dar problema.
Exatamente o mesmo problema, aliás, ocorre com a relação americana e brasileira de lidar com armas, e com a campanha (bancada pelos EUA) de desarmamento da população civil. A campanha, importada pronta dos “progressistas” coletivistas americanos, tentou convencer a população de que armas são demônios de bolso, que matam as pessoas por conta própria e tornam ritualmente impuro quem nelas toca. Isto, somado à absurda situação de um país com 60 mil homicídios por ano sem estar em guerra declarada, fez com que a campanha deles desse com os burros n’água de maneira formidável; os desarmamentistas perderam o referendo, e se fosse feito outro agora perderiam ainda mais feio. O discurso que importaram faz sentido culturalmente nos EUA, em que a arma de fogo é o instrumento patriótico por definição; foi com ela que todo o território americano foi conquistado, todos os seus habitantes anteriores chacinados, etc. Os EUA existem por causa da arma de fogo. Aqui no Brasil, armas de fogo e patriotismo (ou patriotadas) não têm nenhuma conexão lógica ou conotativa, e não faz o menor sentido importar para uma sociedade em que tudo depende de gradações sutis uma campanha planejada para transformar um objeto de reverência em objeto de asco numa sociedade em que só se concebe algo como pertencendo a uma ou outra categoria (preto ou branco, ritualmente impuro ou sagrado, totalmente bom ou totalmente mau). A campanha desarmamentista falhou por ter sido trazida pronta de uma cultura em que ela faz um certo sentido para uma em que ela é francamente absurda, por razões totalmente diferentes.
O mesmo fenômeno de tentativa de reversão súbita de algo, passando do péssimo ao ótimo, do preto ao branco, do ritualmente impuro ao sagrado, operou perfeitamente nas guerras culturais dos EUA e está fracassando estrondosamente no Brasil nos casos do feminismo e do movimento homossexual. A população brasileira é enormemente tolerante, e sempre aceitou sem grandes problemas tanto o protagonismo feminino (até mesmo militar, como prova Maria Quitéria) quanto o homossexualismo (já escrevi uma comparação entre Cauby Peixoto e Little Richard, bastante pertinente neste tema), o que faz com que o ponto de partida já seja outro. A tentativa de reversão súbita de uma situação inexistente, por si já absurda, é percebida na cultura brasileira como “exagero” e descortesia, e ainda que seja tolerada inicialmente acaba levando a uma reação desproporcionalmente forte contra o que a sociedade percebe como fonte de cizânia.
O que temos, assim, são inocentes úteis idiotamente importando (ou, quiçá, idiotas úteis inocentemente importando) discursos e causas políticas prontos de uma sociedade diferente da nossa e tentando aplicá-los aqui tal e qual. Não só não funciona, como acaba fazendo com que o feitiço vire contra o feiticeiro. Este discurso do “progressismo” americano acaba sendo o único discurso tolerado nos meios “bem-pensantes” brasileiros, o que inclui a totalidade da mídia, mas o efeito disto é o afastamento cada vez maior entre estes e a quase totalidade da população brasileira. Eles agora estão desesperados com o deputado Bolsonaro; só posso dizer que ainda não viram nada.