A Igreja e a Escritura

Carlos Ramalhete
Jan 28, 2016 · 7 min read

A teimosia humana sempre me surpreende. Uma de suas formas que me parecem mais delirantes é a persistência absurda do protestantismo: trata-se de uma mentira evidente, auto-contraditória e baseada numa petição de princípio, mas mesmo assim há uma quantidade enorme de gente bem-intencionada que cai nessa. Volta e meia escrevo algo óbvio a respeito e lá me vêm os defensores do indefensável, que costumam se dividir entre dois discursos: uns dizem que os protestantes “verdadeiros” são eles e os outros são falsos (o que, evidentemente, só faz tornar clara a petição de princípio em que se baseia o protestantismo, na medida em que uns e outros têm a mesma parte da Bíblia e afirmam igualmente ter entendido com suposta ajuda divina o “verdadeiro sentido” do que leram). Os outros são da turma do “deixa-disso”, que acham que por alguma razão eu estaria xingando alguém, e que isso é feio. Nesses nossos tempos de casca hiperfina, estes vêm se tornando cada vez mais numerosos; minha coluna de amanhã seria sobre isso, mas ficou pra semana que vem.
Voltando ao erro protestante: a imensa maior parte dos que são iludidos por ele, especialmente hoje em dia, cai na armadilha por acreditar irrefletidamente na falsa tradição humana de que — sabe-se lá por que cargas d’água — a íntegra da Revelação de Deus estaria nas partes da Bíblia que Lutero resolveu aceitar. Bastaria lê-las, no entanto, para ver que esta superstição é absurda, mas a força da adesão inicial a esta falsa tradição humana é tão forte que as pessoas parecem simplesmente não ver o que está escrito diante de seus olhos.
Pombas, a própria Escritura narra (para uso litúrgico e pedagógico) que Nosso Senhor Jesus Cristo estabeleceu a Igreja e na Igreja homens escreveram uma Bíblia, muitas vezes sem sequer perceber que tinham inspiração divina para fazê-lo. São Lucas começa seu Evangelho dizendo que ele resolveu escrever aquilo por conta própria, por exemplo.
Já o bestialógico protestante parece indicar que Nosso Senhor teria feito o exato oposto: escrito (ou mandado escrever, sei lá) um livro, que qualquer Zé das Couves deveria pegar para ler por conta própria, do fundo de sua ignorância, e sair criando “igrejas”. Ora, isso não faz o menor sentido, nem mesmo para alguém tão ignorante da Revelação que só conheça o texto bíblico.
Toda a História da Salvação é uma História de aliança entre Deus e pessoas e grupamentos de pessoas sobrenaturalmente escolhidas por Deus. São sempre grupamentos hierárquicos (Noé e seus familiares, Abraão e os seus, Moisés e Aarão e os hebreus, etc.), a quem Deus dá verdades teológicas (uma Doutrina) e obrigações práticas (uma disciplina). Deus cobra deles uma fidelidade que Ele mesmo tem em relação a eles. Esta fidelidade consiste em preservar a Sã Doutrina e manter-se dentro dos laços hierárquicos, cumprindo as obrigações por Ele dadas.
Dentro da disciplina dada por Deus, das obrigações que ele dá aos Seus escolhidos, está o Seu serviço litúrgico e catequético. Para isso Ele inspirou os profetas e hagiógrafos, que escreveram dentro de um quadro doutrinário e hierárquico prévio. Os escritos inspirados sempre foram auxílios litúrgicos e pedagógicos, e em momento algum se propõe na Escritura o absurdo protestante de achar que a Revelação estaria de alguma forma toda contida na Escritura. Ao contrário, até: a Revelação é sempre oral, e frequentemente — como no Êxodo — “cinematográfica”, com sarça ardente, colunas de fogo, etc. A Escritura é sempre “boa para ensinar, para repreender, para corrigir, para formar na justiça”: ela é um auxílio catequético. Auxílio luxuosíssimo, posto que dado por Deus, mas o foco não é ela. Colocar a Escritura acima da Igreja é como colocar o manual do proprietário de um automóvel acima do automóvel. Ou, pior ainda, pegar o manual e sair por aí tentando construir um automóvel a partir dele, como fazem os loucos que fundam “igrejas” próprias, de Lutero e Calvino pra cá.
Quando o Verbo de Deus Se faz homem — Nosso Senhor Jesus Cristo -, continua exatamente o mesmo processo anterior, ainda mais fortemente: afinal, Ele não veio para destruir a Lei, mas para cumpri-la. Vejam que coisa fantástica: o Verbo de Deus (em outras línguas se diz “a Palavra de Deus”; em hebraico o termo usado significa ao mesmo tempo “palavra”, “coisa” e “processo criador” divino, que é o que liga a Palavra à Criatura) Se fez homem. Não é o contrário.
Um grande escritor, de uma certa forma, é uma pessoa que se faz escritos, alguém que dá tudo de si, que bota a alma naquilo que escreveu. Já na Encarnação do Verbo, nós temos o contrário: a Palavra se torna ainda mais distante do escrito, ao passar do que nosso antropomorfismo aponta como oral (“Deus disse”, “Deus chamou”, etc., no início do Gênesis) à assunção da natureza humana como um bebezinho indefeso (com todo o seu código genético herdado daquela mocinha de quinze anos de idade que Deus preparou dentre o Seu povo para ser a Sua própria Mãe), num dado momento histórico (daí é que entra Pilates no Credo, e é por isso que a proclamação litúrgica dos Evangelhos começa com “naquele tempo”: para evitar a tentação da atemporalidade, que acaba por levar à negação no mínimo prática da Encarnação), naquela mesma terra que Ele mesmo prometeu aos hebreus (o que não fez com que eles não tivessem que trabalhar muito por ela, aliás: esta é outra constante da relação de fidelidade entre Deus e Seu povo).
Ao longo de toda a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo na terra, Ele Se dedica, em perfeito cumprimento da Antiga Aliança, a reunir discípulos (formando a nova Israel que é a Igreja), a ensinar (a Sã Doutrina) e dizer como agir (os Sacramentos — depois que o Verbo Se fez carne, não se trata mais apenas de um simbolismo pedagógico, como eram as cerimônias da Antiga Aliança; ao assumir a matéria criada, Deus elevou-a). Em momento algum ele manda escrever o que quer que seja. Aliás, muito pelo contrário: “escriba”, na boca de Nosso Senhor, é uma palavra que que raramente vem desacompanhada de uma forte condenação.
Após ascender aos Céus, Ele manda o Espírito Santo sobre a Igreja, em Pentecostes. Naquele momento todos passam a entender perfeitamente aquilo que haviam aprendido, sem que ninguém tivesse que ler nem escrever nada. Muito pelo contrário, aliás: a pregação pentecostal é fundamentalmente oral, com glossolalia e outros fenômenos de auxílio divino à pregação que mostram a universalidade da Nova Israel que é a Igreja. A vinda do Espírito Santo é o momento em que a Igreja que Ele fundou se torna coesa, Una e Santa.
Seu líder inconteste é aquele a quem Nosso Senhor deu a missão de apascentar o Seu rebanho: São Pedro. São Paulo encontra Nosso Senhor no caminho de Damasco, aprendendo d’Ele diretamente a Sã Doutrina, e exatamente por isso vai ter com São Pedro antes de sair pra pregar. Afinal, a pregação só pode vir de dentro da única e verdadeira Igreja, porque é a ela, não a seus frutos (a Escritura, as formas litúrgicas, etc.) que Nosso Senhor deu o mandado de transmitir o que Ele ensinou e fazer o que Ele ordenou que se fizesse.
E assim a Igreja foi se espalhando pelo mundo, aproveitando o terreno preparado por Deus (a língua-franca do grego koiné, graças a Alexandre Magno, e as estradas e “paz” romanas). Aos poucos, nas décadas posteriores à Ascensão de Cristo, a Igreja foi produzindo como material litúrgico e catequético o que hoje conhecemos como o Novo Testamento, sem de início nem perceber nem se importar muito com o que era inspirado por Deus e o que não era.
Apenas às portas do Século V a Igreja veio a definir o que efetivamente foi inspirado por Deus, fazendo parte assim da Bíblia, e o que — apesar de todos os méritos que tivesse — não foi. Na prática, isso significa que nos primeiros quase 400 anos de Cristianismo era perfeitamente possível achar que o livro “O Pastor de Hermas” era parte da Sagrada Escritura e o Apocalipse de São João não, contar outros Evangelhos, não reconhecer as Epístolas, achar que Atos era um bom livro de História, mas não inspirado, etc. O que importava, o que importa sempre, era receber os Sacramentos ministrados pelos Sucessores dos Apóstolos, aderir à Sã Doutrina ensinada por Nosso Senhor e transmitida dentro da Igreja e pertencer à sua unidade hierárquica.
Só mesmo alguém que não tenha nem conhecimento de História nem capacidade de examinar o texto da Sagrada Escritura sem adesão prévia à falsa tradição humana protestante poderia permanecer neste erro. É absurdo demais, é demasiadamente deslocado da realidade, das possibilidades, da própria natureza humana para que se possa levá-lo a sério honestamente. A sua base (Sola Scriptura, a superstição segundo a qual a totalidade da Revelação estaria contida nos pedaços da Bíblia que Lutero aprovou, em sua magnanimidade) já é um erro absurdo, que faz com que — confesso — eu não tenha nunca tido paciência para estudar as inevitáveis dissensões internas entre os diversos ramos que o protestantismo tomou desde que o demônio o fez surgir. De um erro de base só podem surgir mais erros ainda. Se houver algo de bom é por acaso ou por herança inconsciente da única e verdadeira Igreja, una, santa, católica e apostólica, estabelecida por Deus para a nossa salvação.
É uma armadilha mortal, uma máquina de levar gente batizada para o Inferno — o troféu preferido de Satanás -, ao negar aos sectários o acesso ao Sacramento da Confissão, incentivá-los ao orgulho e combater a contrição que ainda poderia extraordinariamente salvá-los. Rezo para que Deus tenha piedade dessa gente como teve de mim, pobre pecador indigno de Sua graça, e os ajude a vencer as amarras do erro e voltar para a única e verdadeira Igreja, na qual ingressaram, mesmo sem o saber, pelo Batismo.

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