A Imaginação totalitária

Resenha do livro do Francisco Razzo

Vale a pena ler

Tive o prazer de ler o livro novo do Francisco Razzo, “A Imaginação totalitária”. Só não o li de uma enfiada porque comecei tarde, mas o li em duas sessões, com grande prazer.

Eu não concordo com o autor em muita coisa, o que é ótimo: eu já sei o que eu mesmo penso, e portanto o que me interessa aprender é o que pensam diferente de mim. É na discordância que eu posso crescer, e a leitura foi uma dessas discordâncias alegres, em que toda hora a gente se pega querendo que o autor se alongue mais numa ou noutra visão de um ou outro assunto, que aborda por um ponto de vista tão diferente do nosso que não pode deixar de ser fascinante. É sempre um prazer ler o que diz alguém culto e inteligente, especialmente quando parte de lugar tão diferente do nosso.

O Razzo está em casa na filosofia moderna, é com os tantos paus que ele oferece que ele constrói a sua canoa; e que bela canoa: o livro é uma espécie de relato de conversão intelectual, uma passagem do coletivismo adolescente que despreza o outro em nome de um sonho a uma percepção muito rica não só do valor do próximo — inclusive e especialmente do mais fraco, como o bebê na barriga da mãe — quanto do lugar onde mora o perigo. Segundo o autor, é na imaginação que ele faz ninho.

Daí o nome do livro; como bom kantiano, ele opera fundamentalmente no fenômeno, dos sentidos para dentro, e procura identificar ali onde está o ninho do horror, do mal totalitário que saiu a devastar o mundo numênico no século passado. E tem sucesso ao identificar os componentes intelectuais de pouca profundidade e cacoetes mentais que acabam por compor uma maneira de perceber e pensar o mundo e a política — uma “imaginação” que é totalitária, que se vê no direito e dever de plasmar a realidade à sua própria imagem e semelhança. É até curioso que, ainda que tudo o que ele aponta esteja ainda mais claramente presente na visão de mundo dos jovens muçulmanos “radicalizados” pelo Estado Islâmico e demais grupelhos salafistas, ele prefira ater-se às ideologias totalitárias que se enfrentaram no Século XX. Ao mesmo tempo, fica o leitor querendo mais — “e como isso aí se encaixa no totalitarismo islâmico?”, seria uma das perguntas evidentes em muitas partes do livro — e deixa o autor um espaço vago para que sua tese cresça e possa ser de mais valor ao ser usada por outros. Por outras imaginações.

O cuidado do acadêmico em apontar claramente cada finca-pé de seu raciocínio também é evidente na obra, que não duvido tenha bem mais de dez por cento do texto em forma de citação direta. Dele são as fieiras e o cimento, mas os tijolos com que constrói estão sempre todos ali, à vista de quem quiser mergulhar mais neles, nem que seja para chegar a outra conclusão. No início do texto e das notas, temos quase um trabalho de divulgação, preocupando-se sempre em definir termos bastante básicos, mas quando ele engata a quinta marcha o raciocínio decola e quem quiser ir mais atrás tem que deixar o livro de lado e pesquisar por conta própria, o que é sempre facilitado pela farta bibliografia e citações. Tanto melhor; é muito difícil separar o didático do paternalista, e é sempre um alívio quando alguém que tem algo a dizer se deixa entusiasmar e seu pensamento decola. Nada mais chato que professorinhas que pronunciam “mas” como “mãs”, e rapidamente ele deixa de lado, no livro, qualquer tentação de fazê-lo. Dá para imaginar o balanço de sua tremenda barba ao digitar com fúria e precisão cada nova linha, cada nova palavra, cada novo prego no esquife da imaginação totalitária que denuncia.

Resumindo tudo o que escrevi acima, posso dizer que recomendo o livro a quem quiser entender a cabeça do fascista, do comunista, do salafista, de todo “ista” que queira “construir um mundo melhor”. E fico esperando a hora em que o Razzo mergulhe mais a fundo em alguns dos muitos pontos interessantíssimos que abordou, alinhavou, e passou adiante rapidamente por tê-los apenas por degraus num raciocínio que o levava alhures. Esta é a marca do bom pensador: oferecer pontos de partida, não pontos de chegada.