Anticomunismo revolucionário

(Ou: “conservadorismo americano” é uma contradição em termos)

Na mitologia grega, Cassandra era uma profetisa em quem ninguém acreditava, apesar de serem verdadeiras as suas predições. De vez em quando é assim que eu me sinto ao tratar de tendências geopolíticas e sociais: vejo coisas que eu (pre)disse dez ou vinte anos atrás acontecendo, e todos em torno caindo na armadilha de achar que aquilo é o que este ou aquele discurso da moda diz que seja, sem conseguir perceber onde os acontecimentos se encaixam num quadro mais amplo, confundindo os cavaleiros do Apocalipse com a cavalaria chegando para nos salvar, e por aí vai.

Quando o discurso esquerdista ainda era praticamente hegemônico na mídia e sistema educacional do Brasil, as únicas vozes contrárias eram as dos vários herdeiros — assumidos ou não — do Dr. Plínio Correia de Oliveira. Aos poucos, todavia, entre outros fatores devido ao sucesso em outros países das organizações baseadas em suas idéias, começaram a se tornar comuns alianças entre o anticomunismo brasileiro e organizações e pensamentos anticomunistas de origem puramente revolucionária, mais especificamente norte-americana. Eu me lembro de alertar amigos, por escrito, dos perigos deste fenômeno, recebendo como resposta que se tratava de alianças pontuais e de ocasião. Os brasileiros, estava subentendido, estaríamos educando os americanos, não o contrário. Continuei achando perigoso, porque ainda que nós tenhamos a civilização eles têm o dinheiro e as armas, o que faz com que seja realmente difícil estabelecer uma relação justa. Mas o aviso fora dado.
Agora, pouco mais de vinte anos depois do falecimento do Dr. Plínio, o que eu temia aconteceu de maneira praticamente plena: o discurso anticomunista no Brasil está tomado pelo pensamento revolucionário norte-americano, desde as formas mais imbecis e rasteiras (como quem repete o bestialógico racista, belicista e liberal do Partido Republicano) às mais utópicas e delirantes (libertarianismo, etc.). A coisa chega a tal ponto, que abundam brasileiros aderindo ao sistema de valores da religião cívica americana, ou mesmo usando-o para tentar excomungar o Papa (o que seria engraçado, se não fosse trágico), sem se dar conta de que se trata de um sistema de valores em que eles mesmos não seriam jamais aceitos como membros da casta cujo discurso repetem como papagaios. Não é porque o sujeito é “branco” aqui no Brasil que ele o seria nos EUA; aliás, a própria noção de “branco” nestas sociedades é tão absurdamente distante que mais valeria nem tentar traduzir o termo, para evitar mal-entendidos ainda piores, como veremos mais abaixo.
É até compreensível que isto tenha ocorrido; afinal, basta uma capacidade mínima de compreensão do inglês, a língua franca de nossos dias, ou mesmo a capacidade de entender o que as “traduções” eletrônicas do Google dizem, e facilmente se torna possível a um brasileiro aceder diretamente à fartíssima cópia de material ideológico revolucionário americano disponível online. Na tentativa de combater um inimigo real — o comunismo, a hegemonia da esquerda brasileira, etc. — as pessoas acabam aderindo a outro inimigo, ainda mais fortemente contrário à nossa cultura e Fé quanto aquele e com o agravante de combatê-las de maneira mais ou menos dissimulada, o que dificulta sua identificação e a justa reação. O fato de ter sido na prática desmanchada a antiga T.F.P., com seu nome, suas propriedades e sua rede de milhões de colaboradores tendo caído em mãos que não se interessam pelo embate político, evidentemente também facilitou que isto ocorresse.
Este texto é uma tentativa de explicar o que é este perigo, para fazer pensar quem ainda não abraçou plenamente o pensamento revolucionário americano ou que o julga compatível com nossa condição de brasileiros e católicos. Comecemos com uma breve lição de História, para que possamos entender onde estamos e como chegamos aqui.

A sociedade medieval era unida pela religião cristã. Cada autoridade temporal sabia-se subordinada a Deus e obrigada a obedecer tanto a Suas leis quanto aos costumes locais. O Papa, Vigário de Cristo, podia sempre, caso não houvesse acordo entre contendores, ser a duras penas consultado sobre o que seria certo ou errado. Convém lembrar que, ao contrário do que prega a lenda negra, o Papa não “oprimia” ninguém. Ao contrário, até: fisicamente distante, num tempo em que comunicar-se implicava literalmente mandar um mensageiro a pé, ser-lhe-ia simplesmente impossível tentar imiscuir-se diretamente no que faziam ou deixavam de fazer os governos temporais locais. Sua função temporal era de trabalhosa corte de último recurso.
Com a revolta protestante, no século XVI, contudo, isso mudou. Ao apostatar da Fé católica e tornar-se protestante, um governante passava a ter, na prática, direitos absolutos de mando sobre seus pobres súditos. Afinal, se depende de cada interpretação particular o que é e o que não é lei de Deus, bastava a um governante declarar que o que lhe agradava fazer agradava também a Deus, e ninguém o poderia contradizer. Daí vieram evidentemente guerras horrorosas, que devastaram a Europa por mais de cem anos e acabaram levando ao surgimento em meados do século XVII, na dita “paz de Vestfália”, de um sistema revolucionário e iníquo, oficializando o esfacelamento da antiga Cristandade em Estados dominados por soberanos criadores de leis puramente arbitrárias. Desnecessário dizer que a Santa Sé condenou fortemente este sistema, pelo qual o que é certo e legítimo em um lugar torna-se errado e ilegítimo quando se cruza uma fronteira, como se os soberanos fossem os deusezinhos de pequenos universos fechados.
Uma das primeiras vítimas da dissolução da Cristandade foi a Inglaterra, cujo rei Henrique VIII tentou colocar-se acima da Igreja poucos anos após o início do protestantismo, movido pelo desejo de divorciar-se da esposa que não lhe dera um filho homem para sucedê-lo. Sua primeira medida foi declarar-se chefe da Igreja na Inglaterra; em seguida, passou ele a roubar tudo o que pertencia à Igreja, dissolvendo os mosteiros e abadias para distribuir suas propriedades entre seus apoiadores, ou mesmo vendê-las. Após sua morte o anglicanismo, religião de Estado que ele criou, sofreu os efeitos de todas as novas heresias protestantes que varreram a Europa, adotando a uma e depois a outra, alternando-as no poder e na perseguição a quem não aderisse àquela heresia particular. O controle da “Igreja Anglicana” (que nesse ínterim perdeu a validade das ordens e não poderia mais ser considerada uma Igreja particular cismática), a religião oficial de Estado, ligada à coroa, passou a ser o prêmio pelo qual todas as seitas competiam; cada uma queria fazer da Inglaterra o domínio exclusivo de suas invenções teológicas, numa caricatura loucamente distorcida da Cristandade destruída.

A revolta protestante foi uma Caixa de Pandora, espalhando a cizânia e a desordem pela Cristandade

A colonização anglo-saxã dos EUA — e, portanto, sua cultura — é filha direta de ambos os fenômenos descritos acima. As sucessivas vagas de colonizadores da Costa Leste americana, de onde surgiu tanto o país quanto a ideologia que o informa, eram compostas primordialmente dos refugos das lutas intestinas que acometiam o anglicanismo. As seitas que conquistavam o poder na “Igreja” estabelecida perseguiam atrozmente as seitas concorrentes, ao ponto de levar seus seguidores a buscar antes o exílio na América. A perseguição dos puritanos e assemelhados levou à colonização da Nova Inglaterra; quando seus correligionários chegaram ao poder, por sua vez, foram os episcopalianos que fugiram para o Sul americano. Ambos os grupos perseguiam os Quakers, que acabaram conseguindo politicamente o território intermédio da Pensilvânia e entorno, e fizeram da sua doutrina de subjetivismo absoluto o modelo para o tratamento americano do fenômeno religioso.
A visão vestfaliana de Estado Soberano dava a cada um destes grupos a possibilidade de criar para si uma área “soberana”, no iníquo sentido moderno, em que eles mesmos poderiam, como prometeu a serpente a Eva, decidir o que seria certo e o que seria errado. Numa versão ainda mais exagerada da fragmentação que acometera a Cristandade que, na Europa, unira em torno da mesma Fé inúmeras nações, a colonização anglo-saxã da América já surgiu com o estabelecimento de “Estados”, percebidos no sentido vestfaliano de territórios autônomos com uma noção própria do que é certo e do que é errado. O que era obrigatório em Massachusetts podia perfeitamente valer a pena de morte na Virgínia, e vice-versa, mesmo antes da independência dos EUA. 
Os colonos eram praticamente todos ingleses, ainda que mais tarde tenha havido imigração de outros lugares, inicialmente na própria Grã-Bretanha e mais tarde de outros países da Europa, sempre sob protestos dos já estabelecidos. Mesmo assim, este posto avançado da única nação inglesa já surgia dividido em Estados, numa fragmentação e subjetivação ainda maior do que a tristemente alcançada na Europa.
Isto é uma conseqüência direta do subjetivismo protestante. A mesma suposta capacidade individual de “descobrir” uma crença “verdadeira” baseada na leitura subjetiva de Escritura fora de contexto implica na negação mais absoluta da hierarquia. Comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, como vemos no capítulo 3 do livro do Gênesis, é colocar-se no lugar de Deus. E se cada um é o próprio Papa, a tendência inexorável é a atomização da religião, com as seitas se subdividindo como amebas ensandecidas e, evidentemente, levando a religião (ou antes, nesta etapa, o fenômeno religioso) a perder mais e mais terreno na sociedade. O que era na Cristandade a argamassa a unir as nações se torna, no protestantismo, razão de divisão e separação entre irmãos, algo em última instância socialmente irrelevante, a ser relegado a assunto de foro íntimo, como os gostos estéticos ou alimentares.

O surgimento da Modernidade filosófica e política, dando à ideologia preponderância sobre a realidade e fazendo com que o Estado tome as rédeas da sociedade com a “nobre” missão de transformar “o que é” em “o que deveria ser”, ou seja, de aplicar na prática uma determinada linha de pensamento utópico, é uma decorrência lógica do esvaziamento do lugar central antes ocupado pela religião na sociedade ocidental. Aliás, vale mencionar que este lugar continua sendo dela em todas as demais sociedades vivas; a modernidade é um fenômeno puramente ocidental, oriundo dos processos históricos mencionados acima.
Em cada Estado ocidental a assumir plenamente a Modernidade, contudo, após alguns séculos de fermentação do princípio centrífugo e individualista protestante ou de campanha centrípeta e unitiva da Contra-Reforma católica no interior de sua sociedade, a noção cultural de “dever-ser” assumida pelas suas elites utopistas foi orientada, em grande medida, por uma versão imanentizada de uma ou outra teologia.
Os exemplos mais claros são a Revolução Francesa, que após a Queda da Bastilha organizou-se primeiramente como comuna e sempre buscou implantar pela força uma utopia centralista e padronizante, e a Revolução Americana, dez anos anterior, que, inversamente, separava-se do governo central inglês para melhor atomizar as diversas utopias individualistas de cada Estado seu.

O comunismo, filho não tão bastardo da Revolução Francesa, é o paroxismo da imanentização absoluta da noção católica da Comunhão dos Santos, em que o governo faz as vezes da Santíssima Virgem e os cidadãos dos fiéis. Até mesmo os sacramentos e sacramentais católicos são parodiados nesta farsa satânica, com a autocrítica fazendo as vezes da Confissão sacramental e as paradas de Primeiro de Maio macaqueando as procissões dos santos.
O sistema ideológico americano, por sua vez, é o corolário imanentista do protestantismo, com o Estado tomando o lugar da divindade, a riqueza material fazendo as vezes da salvação, a Constituição da bíblia e a cadeia ou a morte da perdição final. É outra farsa satânica, desta vez duplamente inimiga da Igreja: por moderna e por protestante.
Ambos os erros, ambas as revoluções, vêm da subordinação satânica da religião — logo do que é certo e do que é errado — primordialmente à figura do Príncipe, e em seguida ao Estado utopista, que se dedica a forçar a ocorrência social e coletiva de um processo de santificação que deveria ocorrer pessoalmente. Enquanto a revolução coletivista e comunista — perversão direta da fé católica — combate abertamente a religião por colocar-se no lugar dela e percebê-la como concorrente, a revolução individualista e materialista americana finge aceitá-la, desde que ela se coloque como dependente da religião cívica oficial. Quem decide o que é certo e o que é errado é o Estado, e cada “religião” deve ser apenas uma espécie de sabor diferente de refrigerante, com diferenças inofensivas e pitorescas — chapéus engraçados, por exemplo — que não ponham em risco uma unidade que ocorre completamente no plano imanente.

E os Estados Unidos são exatamente o que o nome indica: ao contrário dos Estados (desunidos) europeus, que aos poucos foram se unificando em Estados nacionais e só agora, com o espaço Schengen, tiveram um curto período de fronteiras abertas, é fundamental para a utopia subjetivista americana que, ainda que os seus Estados sejam unidos, no sentido de permitirem livre trânsito de pessoas e — em certa medida — de bens, eles permaneçam Estados vestfalianos infranacionais. Em outras palavras: cada Estado americano é independente como a Bélgica ou a Suíça é independente, justamente para que seja possível a quem não concorda com a definição legal perfeitamente arbitrária do que seja certo e do que seja errado que a Serpente primeira ditou naquele território possa “votar com os pés”, e ir para outro Estado em que a lei esteja de acordo com aquilo que quer e deseja. Ao mesmo tempo, esta fragmentação deve forçosamente ser infranacional, justamente para que o “pedestre eleitor” possa sentir-se verdadeiramente em casa no Estado para onde foi em busca de uma maior adequação dos conceitos oficiais arbitrários de certo e errado ou legal e ilegal àqueles que adota pessoal e subjetivamente, por razões completamente de foro íntimo. “Sereis como deuses” era a promessa original da antiga Serpente, mas não se pode ser deus quando se é estrangeiro em terra de outra nação.
Esta necessidade de múltiplas soberanias infranacionais acabou levando à adoção e desenvolvimento no contexto político e social americano do conceito pseudo-científico de “raça”, fruto da má ciência francesa do final do século XVII. As primeiras tentativas de tratar os nativos americanos como soberanias vestfalianas falharam, levando os colonos a dizimá-los ou expulsá-los rumo oeste. A partir daí, as diversas vertentes utópicas estatais do protestantismo inglês apelaram para a “raça” para garantir uma homogeneidade que, no contexto europeu, seria tida como nacional, não “racial”. Em outras palavras, o conceito americano de “raça” é um sucedâneo da noção tradicional de “nação”, empregado para separar as pessoas por origem étnica e assim negar liminarmente a enormes parcelas da população os direitos de cidadania a que normalmente teriam direito.
Inicialmente empregado como forma de separar e manter separados os escravos africanos da população de origem inglesa dos Estados sulistas, numa caricatura fenotípica da separação britânica de nobres e plebeus em que uma vez escravo sempre escravo, o conceito demorou a traçar diferenças entre os diversos tipos de Outro. Pretos e índios eram todos “coloridos”, e a rigor qualquer não-WASP (white, anglosaxon, protestant — “branco”, anglo-saxão e protestante) seria considerado “racialmente inferior”, como vieram a descobrir na pele os grupos sucessivos de imigrantes europeus não ingleses (irlandeses, alemães, etc.). Em seguida, na medida em que estes imigrantes membros de grupos nacionalmente diversos vinham a adotar plenamente a língua e o pensamento ideológico relativista americano em detrimento da própria cultura e religião (tornando-se assim membros adotivos da mesma nação), eles foram sendo hesitantemente aceitos como “brancos”. O caso mais claro é o dos italianos, que chegaram a ganhar da religião cívica o feriado do Dia de Cristóvão Colombo como forma de reconhecimento oficial dos ítalo-americanos como membros da nação “branca”.
Os americanos de origem africana, propositadamente mantidos separados dos de origem “branca”, até hoje compõem na verdade uma nação diferente dentro do mesmo território e (hoje, finalmente) com a mesma cidadania, o que causa sérios conflitos inter-nacionais dentro de cada cidade e Estado, disfarçados de “questão racial”. Vale observar que, ao contrário do que pregam as teorias racistas, os “pretos” americanos são culturalmente americanos, ainda que sua cultura seja diversa da dos “brancos”; a semelhança entre um “preto” e um “branco” americanos é infinitamente maior que alguma que venha a existir além do mero fenótipo entre um “preto” americano e um africano, ainda que este seja filho da região de onde tenham vindo os antepassados do americano. As culturas africanas de origem foram completamente perdidas e, evidentemente, a cultura dos “pretos” americanos não tem absolutamente nada a ver com características “raciais”. Mas vá dizer isso para um raci[ali]sta!
Já os mexicanos, de quem foram roubados em guerra de agressão 60% do território, perfazendo quase todo o Oeste americano, são considerados membros da “raça latina” (como aliás também os brasileiros, inclusive os que se acham “brancos” e repetem como papagaios o discurso racialista da direita americana), e incentivados a manter-se, eles também, separados e, em grande medida, inferiores aos “brancos”. O mais patético é ver gente ignorante tentando importar estes conflitos e suas pseudo-soluções para o Brasil, onde temos muitos problemas, mas de natureza completamente diversa. O problema “racial” americano, na verdade, é extremamente semelhante ao dito “problema das nacionalidades” na antiga União Soviética, outra tentativa fracassada de construção de uma utopia moderna. Voltaremos a ele mais abaixo.

O cartaz diz “Sala de espera para negros”

Dos treze Estados iniciais, espalhados pela costa leste americana, o crescimento do território do novo país, logo do território dominado pela sua ideologia, seguiu uma mesma linha-mestra: agressão constante e descentralizada, levando à expulsão ou chacina dos habitantes anteriores, nacionalmente distintos, logo inassimiláveis na utopia em instalação, acompanhada de estabelecimento de colônias autogeridas armadas e agressivas, até que o território estivesse povoado basicamente por conacionais “WASP”; neste momento, poderia haver uma “compra” do território de seu dono anterior ou simplesmente a incorporação agressiva das novéis comunidades utópicas autogestionárias e “soberanas”, na forma de novos “Estados”. E assim o país foi crescendo e ganhando, nos novos “Estados”, novas opções de certo e errado arbitrários, novos campos de prova de ideologia subjetivista, aos poucos cobrindo grande parte do território do continente norte-americano.
É por isso que os Estados Unidos da América, ao contrário dos países europeus e dos demais países surgidos da organização moderna de Estados nacionais (como o próprio Brasil), não têm um nome. América é o território sobre o qual os Estados Unidos foram se espalhando, sem todavia revesti-la por inteiro. Ela é maior que eles. Os Estados Unidos da América são o que o nome indica: Estados independentes como a Espanha ou a Grécia são independentes, unidos num projeto utopista oriundo da mentalidade protestante anglo-saxã e ocupando território na América. Quem tem nome, ali, são os Estados, não o país como um todo, porque o país como um todo é uma utopia de união de Estados-opções num bufê infranacional e plurisoberano de certezas, de legalidades e ilegalidades, em que alguém daquela nação pode circular livremente, “votando com os pés” a cada vez que muda de opinião. O país é a união de Estados, de utopias. O país são os Estados Unidos administrativamente na União de estados (daí o uso comum do termo “União” para se referir à dimensão administrativa do país, como em “State of the Union Address”, etc.) e ele fica na América, ao lado da América Latina (daí a noção de uma “raça”/nação “latina”) e do Canadá.
Neste aspecto, é bastante interessante perceber que os canadenses anglófonos (e, em menor medida, os francófonos) não deixam de ser parte da mesma nação, ou ao menos nacionalmente semelhantes. O Canadá é, de uma certa maneira, uma espécie de Estado “café-com-leite”, um Estado Desunido na mesma América, em que é possível, por exemplo, fugir do alistamento militar sem ter que ir morar em nação verdadeiramente estrangeira. O México remanescente é, ao contrário, decididamente território estrangeiro.

O mexicano é um estrangeiro, exótico e engraçado

Esta experiência utópica de modernidade, assim, nasce de uma dupla negação da Sã Doutrina. A primeira negação é o protestantismo — logo o irracionalismo, o subjetivismo extremado, o individualismo que nega a Comunhão dos Santos e a negação das hierarquias intermediárias abaixo de Deus e acima da nossa vontade — e a segunda é a modernidade — logo a preponderância da ideia sobre a realidade, a desumanização do Outro, o utopismo renitente e a arbitrariedade completa da lei e moral.
Enquanto o comunismo é apenas uma forma de modernidade, o pensamento revolucionário americano mais clássico — o que passa por “conservadorismo” por lá! — é uma forma radicalmente anticatólica de modernidade. Pudera que a Igreja tenha sido tão fortemente perseguida em território americano, direta e indiretamente. Como vimos, o comunista se percebe como rival da Igreja, e se coloca abertamente contra ela. O americano, ao contrário, age como o pagão romano, que propunha colocar Nosso Senhor Jesus Cristo no Panteão, junto às “divindades” de todos os demais povos, desde que os cristãos, como bons cidadãos, queimassem incenso em sacrifício ao César-deus. Coisa, aliás, que me agasta tremendamente é ver bandeiras dos EUA e do Vaticano (para “equilibrar”?!) no presbitério de igrejas americanas. Para mim, botar uma bandeira nacional no presbitério é exatamente o mesmo que queimar incenso a César. É curioso observar, também, que a união do Estado de Utah aos EUA só foi feita após os mórmons mudarem pontos de sua doutrina(!) que eram incompatíveis com a religião cívica nacional americana, queimando incenso a César de sua maneira. Fora isso, o processo de Utah foi padrãozinho: colonização simultânea à expulsão ou chacina das populações preexistentes, estabelecimento de um governo e subcultura local com padrões extremamente peculiares de certo e errado, legal e ilegal, e finalmente pedido de incorporação como mais um Estado Unido. As diferenças foram poucas, causadas mais pelas esquisitices do pensamento mórmon, que aceitava os índios como israelitas perdidos(!) mas negava qualquer direito aos pretos, e que demorou para aceitar o intercâmbio pacífico com os não-mórmons, tendo quase chegado à guerra contra a União.
E este pensamento tremendamente revolucionário, racista e anticatólico, em que a ganância é considerada virtude e o roubo, rapina e destruição das outras nações é tido por destino manifesto de um país que se pretende novo povo eleito, vem sendo irrefletidamente adotado por brasileiros, frutos de uma cultura cujos valores e princípios mais caros e mais básicos ele nega, apenas por confundir as batalhas intestinas da revolução americana com os problemas por que passamos aqui.

Costumo dizer que pior que a direita americana só há a esquerda americana. As duas, todavia, são, mais que qualquer outra coisa, sumamente americanas. Tanto uma quanto a outra é perfeita e completamente adequada apenas àquele ambiente filosoficamente malsão; as questões com que lidam são peculiares a ele e não viajam bem; as soluções propostas, do mesmo modo, só podem fazer sentido dentro daquele contexto peculiar. É uma guerrinha política peculiar, como nas brigas inter-nacionais de “pretos” e “brancos” americanos, que não têm absolutamente nada a ver com os modos como se lida com a ancestralidade em outros países, em que o fenótipo não indica a nação a que se pertença (caso do Brasil) ou em que a escolha é apenas entre nacional e estrangeiro naquele território (caso do Japão).
Um exemplo curioso dessas peculiaridades, aliás, foi a eleição do Presidente Obama. Seu pai era africano, e sua mãe americana “branca”. Ele foi criado em trânsito pelo mundo pela mãe e sucessivos padrastos estrangeiros, e, em termos estritamente nacionais, só poderia ser considerado americano “branco” (como a mãe) ou apátrida transnacional. Foi, todavia, eleito como se fosse realmente americano “preto”, como se pertencesse àquela nação dotada de dialeto próprio, valores próprios, etc. Ora, neste sentido, faz mais sentido afirmar que Bill Clinton é preto que dizer que Obama o é. Mas a confusão entre o fenótipo e o pertencimento nacional, dito “racial”, é tão arraigada nos EUA que Obama se viu alçado a representante de gente com quem não tem praticamente nada em comum que não a americanidade e a quantidade de melanina.
É algo semelhante aos discursos racistas que afirmam que negros são menos dotados intelectualmente porque os exames de QI americanos são mais facilmente compreendidos e respondidos por quem tenha sido criado na cultura dita branca. Os mesmos exames, se feitos por ingleses de baixa renda, com características genotípicas e fenotípicas praticamente idênticas às dos “brancos” americanos, provavelmente teriam resultados ainda piores que os obtidos pelos americanos ditos pretos, por haver hoje naquela cultura elementos anti-intelectuais extremamente semelhante aos presentes na dos americanos ditos pretos, como observado por Dalrymple.
É até desnecessário apontar como a absurda importação do discurso racialista da esquerda americana para o contexto brasileiro só faz criar novos problemas. Por exemplo, enquanto nos EUA a separação de vítimas de criminalidade pela “raça” aponta uma série de dados ulteriores de relevante valor estatístico, já que as pessoas vivem em bairros diferentes, usam roupas diferentes, falam com sotaques diferentes, ouvem músicas diferentes, etc., de acordo com a nação/“raça” a que pertencem, no Brasil este é um dado absolutamente vazio. O mesmo vale para cotas, ação afirmativa e outras medidas que já fazem pouco sentido lá, e aqui não fazem nenhum. 
Um erro é então composto com outro, ao ser importada a resposta “conservadora” americana, um discurso tão “raci[ali]sta” quanto o anterior, que às acusações de existência de uma suposta dívida racial dos “brancos” para com os “pretos” causada pela escravização destes por aqueles responde com acusações de antiga escravização de eslavos por africanos, como se o problema fosse a cor da pele, ou tenta confundir o sentido de “branco” lembrando que esta categoria nacional ganhou participantes tardios, como os italianos. A rotulação “racial” de seres humanos, feita a sério nos EUA como forma cultural de tratar um problema social que na verdade é de múltiplas nacionalidades num mesmo território, ao ser importada para um país como o Brasil só pode causar sérios distúrbios de percepção social, com falsos problemas gerando falsas soluções e a população sendo dividida contra ela mesma pelos ideólogos.

Do mesmo modo, assim como os protestantes a cada geração resolvem “voltar à bíblia”, e a cada geração se descobrem ainda mais afastados dela por sua distância da Igreja, onde ela vive, o discurso político americano a cada geração lida novamente com a sua “bíblia”, a Constituição. Os ditos conservadores aplicam a ela o mesmo literalismo burro que os fundamentalistas protestantes aplicam à Escritura, enquanto os ditos progressistas inventam exegeses tão delirantes quanto as perpetradas por “teólogos” episcopalianos contra a Escritura. Ambos os lados, todavia, sofrem da mesma idolatria, que tem sua origem na imanentização quase plena da bibliolatria protestante.
Exatamente como um protestante que tenta “entender o Hinduísmo” lendo o Bhagavad Gita, sem perceber que aquela religião, ao contrário do Islã e da sua própria, não é uma construção baseada num livro, a cultura americana sempre acha que a base, a origem de tudo, é algo escrito. Daí vem, por exemplo, a curiosa fascinação que ela tem por supostos “evangelhos ocultos” que “dariam medo ao Vaticano” se viessem à luz. É a própria cultura que os impede de perceber que as coisas são, na realidade, o oposto exato: é sempre uma realidade preexistente (por exemplo, a Igreja) que produz textos (como a Bíblia).
Tive, uma vez, uma experiência engraçada neste sentido: um senhor americano, que estava pensando em se mudar para o Brasil para aqui ter acesso à liturgia tradicional em ambiente paroquial, o que ainda não existia nos EUA (foi antes do motu proprio Summorum Pontificum), resolveu, por conta própria, “entender o Brasil”. A maneira que ele escolheu para fazê-lo é, para qualquer brasileiro, evidentemente absurda. Para um americano, todavia, com sua escritolatria cultural, é óbvia: ele conseguiu, sei lá onde, uma tradução para o inglês da nossa querida Constituição Federal, e pôs-se a estudá-la!
A conclusão inicial a que chegou, claro, foi de que os brasileiros são completamente loucos. Expliquei-lhe que a conclusão correta seria a de que os brasileiros não acreditam em papéis escritos, porque (diz o nosso ditado) “o papel aceita tudo”, e por isso os constituintes sentiram-se à vontade para inserir no texto constitucional toda e qualquer bobagem que lhes viesse à cachola.
Mas essa idolatria do papel, tão presente na cultura americana, soma-se à parca compreensão do Direito que têm os nossos advogados recém-formados, nutridos na escola positivista, gerando maus efeitos na compreensão da realidade brasileira. Pior ainda é a situação dos que só conhecem a lei brasileira de ouvir dizer, sem que tenham sequer a experiência da lida cotidiana com os absurdos legais do Brasil que acaba por transformar nossos advogados não em juristas, mas em cínicos. Temos jornalistas e leigos (com perdão do pleonasmo) que sacralizam as “regras do jogo” político e a legislação como se esta fosse a origem da moral, não uma pilha momentânea de casuísmos e chicanas que muda de acordo com os ventos.

Na cultura americana, a idolatria do escrito faz com que as questões mais prementes de justiça e moral sejam objeto de um tratamento, por ambos os lados, que é espantoso para qualquer católico. O aborto, que faz dos EUA uma nova Cartago a sacrificar no atacado seus filhos aos demônios, é dito pelos “conservadores” da direita uma questão a ser tratada pelas legislações estaduais! Afinal, a ideia de base da utopia americana é que o certo e o errado são arbitrários, e deve ser possível “votar com os pés” e mudar-se, dentro da nação, para outro conjunto soberano de certo-e-errado onde se possa ser como um deus. A questão da licitude do assassinato de bebês no ventre da própria mãe(!), para enorme parcela dos ditos conservadores americanos (uma contradição em termos!) é, como eles colocam, uma questão de “direitos dos Estados”, ou seja, uma suposta violação da soberania vestfaliana que daria a cada Estado o direito de definir ao seu bel-prazer o que é certo e o que é errado. Não adianta dizer que é mera estratégia, visto ser teoricamente mais fácil aprovar legislação estadual que federal (o aborto foi legalizado nos EUA por uma canetada do Supremo Tribunal, não por lei votada); é uma questão real de filosofia política.
O mesmo ocorre com o dito “casamento gay”, que vem sendo objeto de sucessivas manifestações legislativas estaduais, como se cada Estado pudesse definir por si o que é ou não é casamento. Aliás, cabe lembrar que no curioso sistema legal americano é necessário literalmente pedir licença ao Estado para contrair casamento.
Na primeira metade do século XX, ainda, atingiu seu auge nos EUA um fortíssimo movimento anti-álcool (enganosamente dito pela “temperança”), em grande medida causado pelo escândalo farisaico dos protestantes ao perceber que os imigrantes católicos irlandeses e alemães tinham o salutar hábito de tomar uma cervejinha no churrasco de domingo. O absurdo levou a uma emenda constitucional proibindo a venda de álcool, repelida por outra treze anos depois. Até hoje em muitos lugares dos EUA é proibido beber em público, ainda que o ato de tomar goladas de algo oculto num saco de papel dificilmente pudesse ser confundido com outra coisa por lá. O mesmo raciocínio puritano que demoniza objetos e substâncias, ao invés de condenar apenas o seu mau uso, levou os EUA a iniciar a dita Guerra às Drogas não apenas em seu território, mas também nas suas relações exteriores. A proibição de algumas substâncias entorpecentes na maior parte dos países do mundo é fruto direto da política americana no século passado. Curiosamente, o mesmo raciocínio puritano dualista, segundo o qual as coisas só podem ser péssimas ou maravilhosas, nunca meras coisas neutras cujo uso é bom, mau ou neutro, está agora fazendo com que a maconha esteja sendo legalizada Estado por Estado nos EUA, com um fortíssimo lobby americano pró-maconha bancando campanhas em outros países e levando alguns à reversão completa das políticas proibicionistas anteriores, apesar do fracasso da experiência neste sentido encetada na Holanda por décadas.
A legislação acerca de armas de fogo também é percebida por um prisma muito peculiar naquela cultura. Para ambos os lados, a questão principal é a exegese de um “versículo sagrado”, a Segunda Emenda da Constituição americana, que une num texto confuso o direito de portar armas, ou mesmo de pegar em armas, e a necessidade de haver uma milícia “bem regulada”. Para o lado dito conservador, o texto apontaria para a necessidade de os cidadãos se defenderem do próprio governo, como os revolucionários americanos “defenderam-se” da metrópole inglesa na Guerra da Independência, com milícias armadas. As milícias do texto, assim, seriam basicamente uniões voluntárias e informais de indivíduos, e o direito a pegar em armas seria individual. Já para o lado dito “liberal”, ou progressista, as milícias seriam forças governamentais organizadas, como as polícias, a dita “guarda nacional” (na verdade exércitos estaduais), etc. Na verdade, a briga é entre os que percebem a ordem social como algo a ser imposto e os que a percebem como fruto indireto dos interesses particulares e individuais, em luta constante contra o que é imposto.
Nenhuma das visões, evidentemente, é aceita pela Igreja, e ambas são contrárias a todos os sistemas de organização social — tanto formal quanto informal — dos países católicos. Ao tentar importar um debate que aqui não faz sentido, o que se acaba fazendo é distorcer as questões realmente prementes em nosso país, de criminalidade, punição, direito de defesa, etc.
O caso das armas tem, ainda, origens no próprio processo de formação do país. Os EUA foram criados e se expandiram, literalmente, a bala. Quando a agressão WASP conquistou toda a faixa de território americano que hoje compõe os EUA, negando direitos de cidadania aos habitantes anteriores sobreviventes por questões nacionais (como sempre, ditas raciais), a agressão americana espalhou-se pelo mundo, lançando-se a guerras de agressão contra as colônias espanholas de Cuba e das Filipinas. Desde então, as forças armadas dos EUA estão perpetuamente agredindo alguma população distante, com cada geração tendo a “sua” guerra; apenas já no período de decadência mais acentuada atual a conscrição de soldados para a máquina de guerra foi substituída pela contratação de mercenários. Mesmo agora, quase meio século após o fim da conscrição obrigatória, ainda é obrigatório o registro dos soldados potenciais, que se está aventando estender às mulheres.
Em tal contexto cultural, percebe-se como a arma de fogo é, por definição, o instrumento de conquista e expansão dos EUA, com conotações “patrióticas” completamente diversas das que tais instrumentos têm em outros países. O fato de a parte mais importante do processo de expansão agressiva dos EUA pelo território americano tenha ocorrido de forma decentralizada, com colônias autogestionárias agressivas que não se importavam com os supostos “acordos indígenas” com que o governo central satisfazia a fantasia de tratar as tribos nativas como soberanias vestfalianas, faz assim com que o discurso dos ditos conservadores tenha fortíssimas raízes históricas e culturais. Na verdade, todavia, a importância delas empalidece diante tanto da situação atual, em que a população civil não está mais envolvida nas sempiternas e intermináveis guerras geridas pela União e tocadas com soldados voluntários e empresas de mercenários, como a antiga Blackwater, quanto da importância cultural e social da exegese do texto “sagrado” constitucional.
Afinal, a nação formada nos EUA e para os EUA é uma nação unida não por supostas razões filogenéticas, como nos mitos de origem das demais (castas nascendo do corpo de Purusha na Índia, herança dos francos de Clóvis, união de índios, africanos e portugueses no Brasil, etc.), mas pela adesão a uma cultura sumamente moderna, em que a ideia prepondera sobre a realidade e é a Constituição que cria o Direito, não o contrário.
A base desse pensamento moderno, todavia, é o dualismo originado pela crença calvinista da dupla predestinação, segundo a qual as pessoas são predestinadas ao Céu ou ao Inferno antes mesmo de nascer, sem possibilidade de modificar este curso. Esta crença, presente na imensa maior parte dos grupos sectários e geográficos de colonizadores vindos da Grã-Bretanha para a América, perdeu com o passar do tempo seu caráter estritamente escatológico, sofrendo quase total imanentização, como de hábito no pensamento moderno. Assim, o que era originalmente uma afirmação de um poderio absoluto da divindade, negando o livre-arbítrio do homem, tornou-se uma forma de separar as pessoas entre “vencedores” e “perdedores” materiais. Pessoas populares, ricas, bonitas e saudáveis são “vencedoras”, enquanto os menos favorecidos em talentos e riquezas são “perdedores”. Estes não merecem nada que não desprezo, e aqueles devem ser emulados.

“Vencedores” vão para um lado; “perdedores” para o lado oposto.

Este raciocínio, baseado em uma monstruosidade moral, faz com que figuras caricatas, porém riquíssimas, como Donald Trump ou Hugh Hefner sejam tidas como modelos sociais a emular. Ao mesmo tempo, é dele que surgiu a heresia dita americanismo, que consiste no desprezo da contemplação mística em prol da ação secular.
A este dualismo junta-se detrimentalmente uma moral anti-teleológica de base kantiana, que — ao contrário do que ensina a Teologia Moral católica — é completamente universalista (“age como se o teu agir devesse se tornar regra universal”) e se baseia em imperativos morais categóricos (“mandamentos” que estariam ao alcance da pura razão), que — é claro — normalmente são completamente arbitrários. Ora, se minha opinião é acessível à razão e aqueles “perdedores” de outro grupo político não concordam comigo, ou bem eles são incapazes de usar a razão, ou bem eles são pessoas malignas que sabem o que é certo e mesmo assim insistem em fazer o errado.
 O resultado da união destes dois fenômenos, o dualismo calvinista e a moral kantiana, é uma incapacidade profunda de lidar com o Outro. Na cultura americana, o Outro, por definição, é burro ou mau, é inferior (“perdedor”) e não tem direitos. É esta incapacidade que causou o genocídio dos habitantes anteriores daquela terra; ainda que muitas vezes eles já houvessem sido convertidos pelos espanhóis, morassem em cidadezinhas de alvenaria, usassem roupas, etc., estavam demasiadamente longe culturalmente dos colonos WASP para que fossem percebidos como sujeitos de direitos. “Índio bom é índio morto”.
A mesma incompreensão radical está na origem de muitas das desventuras das vítimas da política exterior americana ao longo do último século, como ilustrado magistralmente por Burdick e Lederer no livro The Ugly American (O Americano Feio). Mesmo após este aviso ser dado e recebido — John Kennedy deu um exemplar a cada senador americano quando o leu — o mesmo fenômeno se repetiu nas guerras de agressão e conquista americana do Afeganistão, Iraque, etc. O discurso oficial americano, que aos ouvidos de qualquer outra nação soava absurdo, era que bastaria “remover cirurgicamente” os governantes e a população abraçaria instituições democráticas do tipo americano — subentendendo-se que relegariam a religião ao foro íntimo, etc.
Ocorreu, como previsível, o mesmo que em todas as conquistas americanas anteriores, com a exceção da Alemanha e Japão, que por razões culturais próprias a cada um destes países conseguiram lidar frutuosamente com o invasor: num primeiro momento, a população ficou estupefacta, sem entender o que estava acontecendo e apavorada pela agressão nua e crua e pela riqueza aparentemente sem fim dos invasores (vale lembrar, aliás, os cargo cults, interessantíssimos subprodutos melanésicos das invasões americanas na Segunda Guerra Mundial). Em um segundo instante, a população se horroriza com o que percebe como desrespeito e blasfêmia da parte do ocupante, que simplesmente não tem noção alguma de como suas ações são percebidas pelo povo da área invadida e acha que está tudo indo muito bem. Ao mesmo tempo, os piores estelionatários da região passam para o lado do invasor, percebendo que dali podem tirar fartíssimos lucros, e fingem estar de pleno acordo com os “valores” americanos. Rapidamente eles se vêem alçados a posições de poder e mando (Hamid Karzai é um exemplo perfeitamente didático, mas está longe de ser o único; podemos contar vários por país invadido desde cem anos atrás), podendo então dedicar-se a desviar para proveito próprio as fortunas incomensuráveis derramadas às mancheias pelo governo americano, que ainda acredita estar investindo na transformação daquele país numa democracia. Revoltados pelos abusos e imoralidades do ocupante e de seus fantoches, a população passa a apoiar cada vez mais fortemente os remanescentes do governo anterior ou qualquer grupo armado que se coloque contra as tropas americanas e os agrupamentos de soldados coloniais nativos. No Afeganistão o Talibã voltou, no Iraque as milícias xiitas dominaram o leste, com o oeste caindo nas mãos do Estado Islâmico sunita, no Vietnã o Viet-Cong conseguiu expulsar os americanos, etc.
E assim chegamos no problema de origem de toda esta longa história: o anticomunismo americano. É possível fazer a coisa certa pelas razões erradas, e poucos casos são mais emblemáticos que o da luta anticomunista encetada pelos EUA desde 1946.

Como, aliás, a maior parte dos inimigos de plantão dos EUA, o monstro comunista que dominou grande parte do planeta no século passado, perfazendo o então chamado “Segundo Mundo”, em grande medida é fruto da sempre desastrosa política exterior americana. A União Soviética deveu diretamente à ajuda americana sua sobrevivência à Segunda Guerra Mundial, da qual saiu com o domínio de todo o Leste Europeu. Os soviéticos entraram com o exército de escravos, que morreram às dezenas de milhões, e os americanos com todo o equipamento militar. A ditadura soviética recebeu dos EUA cerca de 18 milhões de toneladas de equipamento militar, de meias a aviões de guerra; um valor de quase 150 bilhões de dólares, em valores de hoje, foi simplesmente dado pelo governo americano a Stálin, não apenas impedindo que Hitler o derrubasse, mas dando-lhe a capacidade de reverter o quadro anterior e levar as tropas soviéticas até Berlim. Por decisão política, as tropas americanas foram paradas às margens do Elba, permitindo que os russos fossem os primeiros a chegar na antiga capital alemã e assim dominassem todo o território da futura Alemanha Oriental.
A história da relação entre os EUA e o comunismo, todavia, havia sempre sido tempestuosa; a aliança com Stálin foi movida pelo interesse comum de combater a Alemanha nazista, que violara o tratado de paz e colaboração antes assinado com a União Soviética e a invadira em busca de petróleo.
A grande festa comunista, o Primeiro de Maio, que a Igreja procura catolicizar com a festa de São José Operário (imaginem a grita se fosse o Papa Francisco a criar esta festa!… Mas divago.), afinal, comemora um confronto entre sindicalistas e a polícia ocorrido em 1886 em Chicago, nos EUA. A virada do século XIX para o XX foi, no mundo inteiro, um período de intensa agitação comunista e anarquista; apesar da total incompatibilidade destas ideologias, por muito tempo ambos se confundiam.
Na Europa, o recém-formado movimento trabalhista, ainda que frequentemente encabeçado por radicais anarquistas e comunistas, conseguiu garantir uma certa universalização de direitos trabalhistas básicos, como um limite de horas de trabalho diárias (aliás, o motivo do confronto de 1o de maio foi justamente a demanda de uma jornada de trabalho limitada a oito horas), a chamada semana inglesa, etc. Já nos EUA, a situação de imigrante recente de enorme parcela da força de trabalho da época tornava muito mais fácil aos plutocratas recorrer diretamente à violência policial contra os sindicalistas, que muitas vezes não tinham ainda cidadania americana e podiam facilmente ser deportados. A sempre eficiente iniciativa privada americana chegou a criar uma vasta corporação de detetives particulares e guardas de segurança, a companhia Pinkerton, cuja ocupação principal até o final da década de 1930 foi a infiltração de movimentos sindicalistas e a repressão — muitas vezes armada — às greves. Como resultado, o movimento sindicalista americano acabou por se associar ao submundo criminoso.
Ora, a situação contra a qual os primeiros sindicalistas lutavam é exatamente a que levou o Papa Leão XIII a condenar os excessos do capitalismo, dando início à formalização da Doutrina Social da Igreja. O problema do comunismo, para o americano de então, não era o seu materialismo ou o seu anticlericalismo; ao contrário, estes eram seus pontos favoráveis! O que levava os EUA a condenar o comunismo e perseguir a ação sindical, então ainda percebidas em grande medida como sendo uma coisa só, apesar da existência de organizações sindicais anticomunistas, como os Cavaleiros do Trabalho, era o que ele tinha de justo: a busca do respeito ao trabalhador, que não pode jamais ser percebido como um recurso a explorar, sim como um pai de família que colabora naquele empreendimento e tem direito à justa recompensa de seu trabalho, a tempo de folga, etc.
A origem dessa estranha negação da humanidade do trabalhador está, mais uma vez, no conceito de base da versão imanentista do calvinismo que informa a cultura americana: a separação entre os “bons” e os “maus”, “vencedores” e “perdedores”. O critério calvinista clássico para a identificação do “salvo” — origem do “vencedor” americano — era a adesão a um código de conduta que incluía uma ética burguesa do trabalho que tudo subordinava ao sucesso financeiro. O “salvo” seria sovina, comeria pouco, trabalharia longas horas por dia, não se entregaria a prazeres e luxos, etc. A riqueza decorrente de uma vida de ascetismo pessoal conjugado a grande dedicação ao ganha-pão, evidentemente, seria mais uma marca a garantir que o sujeito era um predestinado.
Ora, esta visão faz com que as justíssimas reivindicações dos civilizados trabalhadores recém-imigrados da Europa, frequentemente católicos, que, longe do ideal calvinista, percebiam que o trabalho deve servir à vida familiar e não o contrário, sejam para o calvinista cultural uma espécie de deboche, de devassidão exposta. É o mesmo conflito cultural que levou a maioria WASP, alguns anos mais tarde, a proibir a venda de álcool para eliminar o “escândalo” das famílias tomando uma cervejinha juntas aos domingos.
O comunismo em seus primórdios sindicais, assim, era percebido nos EUA como uma espécie de celebração do erro e da devassidão. Ora, em um sistema moral baseado, como vimos anteriormente, em imperativos morais categóricos, o erro é forçosamente percebido como fruto da maldade. Afinal, a ética de trabalho calvinista seria evidentemente, para seus aderentes, algo óbvio e acessível à razão. Quem não a aceitasse era ou bem monstruosamente mau ou bem incapaz de raciocínio, sendo levado pelo nariz por algum malvado e precisando de proteção contra ele.
O resultado é que o roubo pelos comunistas da preocupação com os pobres que sempre foi a marca da Doutrina Social da Igreja, que levou a um enorme crescimento do erro comunista na Europa, nos EUA nunca chegou a ocorrer. A imagem do comunista como uma pessoa preocupada com as péssimas condições dos trabalhadores e querendo combater as injustiças, tão forte no imaginário dos demais países do Ocidente, simplesmente não fazia sentido nos EUA. Como eu já disse, todavia, esta negação do comunismo ocorria pelas razões erradas: o que fechava a cultura americana ao comunismo era o seu fechamento à moral cristã tradicional de que os comunistas roubaram valores para atrair os incautos; as imoralidades do comunismo (igualitarismo, materialismo, etc.) não apresentavam problema algum para a cultura americana.
A questão comunista veio a levantar-se novamente quando da Revolução Russa, quando pela primeira vez a experiência comunista foi tentada na prática. Enquanto os agitadores sindicais comunistas anteriores lutavam por mudanças e novas obrigações no seio de uma sociedade não-comunista, os revolucionários russos, como os americanos antes deles, propunham-se a criar uma nova sociedade, fazendo tábula rasa das que lhe haviam precedido. Curiosamente, foi justamente a recusa por parte dos novos governantes comunistas de assumir as dívidas da Rússia tsarista para com os EUA que levou o presidente americano Woodrow Wilson a não reconhecer o novo governo, que só veio a ser reconhecido pelos EUA em 1933, por iniciativa do mesmo presidente Roosevelt que viria a traçar a aliança com a URSS na Segunda Guerra Mundial, já tratada aqui em grandes linhas.
Imediatamente após a Segunda Guerra, A União Soviética começou a procurar exportar para o resto do mundo a sua revolução, colocando-se assim em conflito com os EUA. Como havia apenas guerras “terceirizadas”, em que exércitos pró-URSS e pró-EUA enfrentavam-se no dito Terceiro Mundo sem participação direta de soldados de ambos os lados, convencionou-se chamar “Guerra Fria” a este período. Nele, os países que caíam na esfera de influência soviética fechavam-se ao exterior e nacionalizavam as empresas privadas, inclusive as americanas, e os que caíam na esfera americana eram também forçados, ainda que de maneiras mais sutis, a adequar-se às políticas desta potência, implantando vastos sistemas de contracepção — como no Brasil, em que o governo militar importou com o nome de Benfam a mesma IPPF americana que ora se vê envolvida em um escândalo de venda de órgãos de bebês abortados –, adequando sua legislação e sistema educacional aos desejos dos EUA, etc.
É evidente que a situação destes era melhor que a daqueles; afinal, o comunismo é um sistema totalitário que gera miséria extrema, por não fazer sentido algum economicamente. A destruição cultural dos países na esfera americana, contudo, também existiu, ainda que de forma mais sutil.
No próprio território americano, bem como em todos os países da esfera de influência americana, a União Soviética e demais países comunistas procuraram fortalecer a subversão. Isto foi feito, basicamente, de duas formas: a mais extensa e cara, operante em todo o hemisfério ocidental e na Europa, foi a cultural, que buscava fortalecer todo e qualquer movimento antissocial e destrutivo do tecido social. Daí vieram a revolução sexual, o abuso de drogas recreativas em grande escala, etc. O outro, restrito aos Terceiro Mundo, era a subversão aberta, com movimentos paramilitares tentando conquistar o poder.
Os mecanismos de subversão comunista da cultura americana encontraram um terreno fértil em que se apoiar no dualismo cultural decorrente da matriz calvinista imanentizada daquele país, como apontamos acima, somado à tensão sempre presente entre os dois corolários internos principais da percepção “escatológica” da sociedade americana como “cidade construída sobre a montanha”, “terra dos justos/livres/bravos/bons”, etc.
Esta percepção leva, por um lado, a uma forte tensão centrípeta, ao considerar que uma sociedade de perfeitos é necessariamente perfeita, sendo um dever da sociedade assegurar que esta perfeição seja sempre atuante. É por isso que as primeiras colônias puritanas tinham sistemas quase totalitários de vigilância dos próprios cidadãos, legislações que puniam fortemente qualquer desvio da norma, etc. O Outro, o diferente, é intolerável. A sociedade deve não só ser perfeita, mas também deve estar no controle. É desta herança cultural que vem, por exemplo, a linha político-educacional de Hillary Clinton, que ao tratar da educação de uma criança escreveu que “it takes a village”, “uma cidadezinha é necessária para fazê-la”. A criança, nesta visão, seria fruto da sociedade, da cidadezinha, da vigilância permanente que é o preço da liberdade.
Por outro lado, a mesma visão da sociedade como composta de santos e puros produz uma tensão centrífuga que conduz a um fortíssimo individualismo. Não podemos nos esquecer que os “santos” em questão não são Santos católicos, pertencentes à Comunhão dos Santos, membros da Igreja Triunfante, sempre a ouvir e a interceder pela Igreja Padecente (das almas do Purgatório) e pela Igreja Militante (dos vivos na Terra). São “santos” protestantes, dotados de uma relação direta e pessoal com seu deus, mas praticamente desligados dos irmãos. Eles são como unidades autônomas, cada um sua própria “Igreja”, cada um em comunhão apenas consigo mesmo, com os bons modos e a convivência social fazendo as vezes de comunhão com o próximo.
Esta tensão fortemente individualista sempre esteve em conflito aberto com a tensão comunitarista oposta, ao longo da História americana. Dado o dualismo do pensamento calvinista de base, cada lado sempre se percebeu como “vencedor” ou “justo”, percebendo o oposto como “perdedor” e “réprobo”. O sistema partidário americano se modificou pouco ao longo dos anos: sempre houve, por razões culturais que já devem ser evidentes, uma forte tendência ao bipartidarismo, com raros terceiros partidos sendo em geral apenas versões mais extremadas de um ou de outro. Ao longo dos anos, todavia, a identificação de cada partido (comunitarista ou individualista) foi-se modificando, sem jamais deixar de existir como dualismo exacerbado.
Esta tensão, com o auxílio da máquina de propaganda soviética, que tinha fortíssima influência nos meios de produção cultural americana ao longo da Guerra Fria, produziu nos EUA o que se convencionou chamar de “guerras culturais”. De um lado está a tensão coletivista, acirrada pela propaganda soviética oculta, e do outro a tensão individualista, tornada ainda mais forte e venenosa pelo confronto aberto em que se encontra.
Neste ambiente, como não poderia deixar de acontecer em uma cultura em que imperativos morais categóricos perfeitamente irracionais substituem os valores e princípios morais de culturas mais sadias, cada um dos lados tomou como seus alguns imperativos, enquanto o lado oposto tomou os seus opostos. Alguns destes correspondem, como um relógio parado está certo duas vezes ao dia, a valores ou princípios morais reais. Outros são questões puramente indiferentes do ponto de vista moral. E outros, ainda, são abominações tratadas como imperativos morais categóricos por um dos lados. Todos, contudo, sem exceção, são apoiados ou combatidos pelas razões erradas.
Destarte, a direita americana, por exemplo, desenvolveu uma horrenda antropologia de dominação, perfeitamente consoante com a percepção como tábula rasa do território conquistado pelo esforço individual que orientou a invasão e dominação do atual território americano. Nela, toda a Criação é apenas recurso a ser explorado. Um bichinho bonitinho é um monte de carne esperando a hora da churrasqueira, um casaco se for peludo, etc. Uma árvore frondosa é mera lenha. É uma exacerbação da já abominável visão de mundo que levou à destruição praticamente completa de vastos territórios, ecossistemas e espécies. Basta ver, por exemplo, que o nome da cidade de Las Vegas, hoje no meio de um deserto, significa “várzeas”, ou “planícies úmidas”, em espanhol, ou lembrar que manadas de milhões de búfalos dominavam as Grandes Planícies do Centro-Oeste americano, tendo sido abatidas no atacado, no mais das vezes sem que os caçadores levassem mais que a língua(!) dos animais, apenas para negar comida aos índios brabos que ainda perduravam na região. Quando a esta visão levantaram-se do lado coletivista movimentos financiados pela URSS pregando um ultra-conservacionismo subversivo e exacerbado, a direita americana perdeu completamente qualquer resquício do respeito cristão pela Criação que um dia possa ter tido. O imperativo moral categórico do lado oposto deve ser considerado abominável pelo meu lado, afinal.
O mesmo ocorreu com vasta cópia de fenômenos sociais e morais: um lado tomou como imperativo moral categórico uma questão, já de modo exagerado, e o outro passou a pregar o seu extremo oposto. Normalmente, ambos os lados pisoteiam a verdade e a justiça neste processo.
Um exemplo claro disso é o tratamento da questão do homossexualismo na sociedade americana — e por extensão, graças à péssima mania de importar brigas políticas de lá, na nossa e em muitas outras. Antes todos concordavam que o homossexualismo era abominável, o que fazia com que não fosse culturalmente possível sequer tolerar a pessoa que sabidamente tivesse esses desejos. Já escrevi um artigo sobre isto.
Agora, todavia, aconteceu uma reviravolta cultural: o homossexualismo passou a ser algo necessariamente bom, que deve forçosamente ser equiparado às relações conjugais. O fato de relações homossexuais serem evidentemente estéreis — como nos lembra Levy Fidélix — torna-se irrelevante: o importante é o “sinal” negativo ou positivo de algo. Não há meio-termo, não há tolerância possível; só há, na cultura americana, aceitação plena de algo como realmente bom ou sua demonização.
O mesmo vem ocorrendo com as drogas, especialmente a maconha e os alucinógenos mais potentes (daime, lsd, etc.): o que antes era abominável agora passa a ser proposto como teofânico e maravilhoso. E, tal como ocorreu com o homossexualismo, em breve o poderio militar e econômico dos EUA, paradoxalmente o mesmíssimo que levou à proibição praticamente mundial das drogas recreativas no século passado, vai pressionar todos os demais países para que descriminalizem tão santas e augustas “substâncias”, como se o problema fosse a existência de algo e não o seu abuso. Aqui mesmo no Brasil o discurso importado dos EUA da pró-maconha-como-coisa-boa teve um de seus grandes defensores no então deputado Fernando Gabeira, que para legalizar o uso recreativo do entorpecente argumentava, de maneira aparentemente irracional para quem não conhecesse a origem cultural do seu discurso, com as inegáveis utilidades têxteis do cânhamo, outro nome da mesma planta. Ora, bolas, as velas das caravelas de Pedro Álvares Cabral eram feitas de cânhamo! O problema não é se uma substância é, em si, boa ou má: tudo o que Deus criou é bom. Mas isso não significa que seja bom comer folhas de comigo-ninguém-pode ou cicuta, fumar folhas de outra planta, etc. Mas na pseudo-moralidade dualista americana, são as coisas que são boas ou más.
Poderíamos, ainda, falar da assustadora defesa da tortura e dos crimes de guerra, como o dito “carpet bombing”, “bombardeio de carpete”, que visa demolir toda e qualquer edificação — com todos os habitantes dentro, claro — de uma cidade, como criminosamente foi feito a Dresden e Tóquio pelos EUA na Segunda Guerra, pra não mencionar as bombas de Hiroshima e Nagasaki, que devastaram as duas únicas cidades católicas do Japão. Mas o horror destas defesas deveria ser óbvio para qualquer pessoa civilizada.
Há ainda outros vários temas das “guerras culturais” americanas que estão sendo importados por inteiro, poluindo o nosso discurso político e moral. Não creio que valha a pena prosseguir na enumeração, uma vez que já apontei os princípios pelos quais opera o discurso combativo e, em última instância, antipolítico (por não permitir a convivência real com o Outro) daquelas guerras, bem como o perigo de importá-las, seja de que lado for.
Repito, para finalizar: pior que a direita americana, só a esquerda americana. Sejamos civilizados, e deixemos de lado as briguinhas internas das culturas selvagens que nos cercam, por mais dinheiro que elas venham a ter.