Distorção delirante

Como se opera a transformação do que o Papa diz no que a imprensa noticia

Este é o Papa, pelo que dizem por aí

A minha primeira preocupação, quando ouço uma opinião de que discordo ou, mais ainda, quando alguém declara em alto e bom som algo que me parece francamente absurdo (“morcegos são ratos velhos que ganharam asas”, por exemplo, ou “pessoas são apenas peixe mais tempo”), é tentar entender de onde a pessoa partiu e o que a levou a dizer aquilo. A primeira etapa deste percurso é sempre tentar perceber se a pessoa sabe ou não o que diz, é claro. Há pessoas que dizem algo apenas para que sejam bem recebidas em algum grupo, e o fazem tanto que acabam aceitando sem refletir como verdade algo que começou apenas como uma senha, um código de reconhecimento e aceitação mútua. Neste caso, o que se tem que fazer é tentar descobrir qual é a razão pela qual aquele grupo tem por verdade algo tão evidentemente absurdo. Muitas vezes se trata de uma aceitação irrefletida de algo que veio de outro grupo ainda, e a história daquele meme (no conceito original de Dawkins) precisa ser traçada mais além. Mas em algum lugar ele surgiu.

É curiosamente frequente que nas suas andanças os conceitos sejam muitas vezes adotados pelos próprios grupos que eles visavam atacar, ou cuja visão de mundo seus criadores tentavam solapar. Ocorre nestes casos um processo antropofágico, que pode ter todo tipo de efeito na cultura ou grupo que adotou algo alheio. A História apresenta muitos exemplos claros disso. Podemos citar, por exemplo, a acusação protestante de racionalismo excessivo levantada contra a Igreja, que foi assumido por ela em resposta ao irracionalismo luterano, tornando-se uma das causas do hiperracionalismo de Trento e do afastamento dos cismáticos orientais, que pouco antes da revolta protestante estavam “rodeando o alambrado”, mais próximos que nunca de um retorno à unidade, bem como das súbitas restrições da dita Contra-Reforma às ordenações de autóctones, que tanto prejudicou a evangelização da Ásia e da América. Se Lutero não houvesse, no seu afã de denunciar a razão, acusado a Igreja de ser racional demais, ela nunca teria considerado necessário dar tão grande importância aos estudos teóricos, a Aristóteles, etc. São Tomás já o fizera, mas a canonização da filosofia tomista ocorreu foi em Trento.

O mesmo pode ser percebido em nossos dias, na acusação dos movimentos ecologistas ao capitalismo, de que a proteção do meio ambiente pelo mercado significa apenas tornar em objetos de luxo as espécies em extinção. Segundo esta pertinente denúncia, se há apenas um casal de um pássaro raro, o capitalismo na verdade incentiva que ele seja abatido e comido, por ter-se transformado num animal tão caro que poder abatê-lo simbolizaria um completo triunfo pessoal de alguém que busque a riqueza material. Muitos defensores do capitalismo assumem como seu este meme, e passam a reagir a notícias sobre animais em extinção com desejo de matá-lo e fritá-lo, ou besteira do gênero.

O caso que me faz escrever este artigo, contudo, é outro. Como já escrevi aqui, ali e acolá, eu não fiquei nem um pouco contente quando vi que era o Cardeal de Buenos Aires que seria o novo Papa. Com o passar do tempo, contudo, lendo o que ele diz e escreve, fiquei enormemente entusiasmado, e estou firmemente convencido de que o Papa Francisco é uma bênção de Deus para a Igreja, a pessoa certa no lugar exato para nos guiar por estes tempos de turbulência. Eu é que estava iludido, não o Espírito Santo, como aliás deveria ter sido então já evidente para mim.

Chego eu porém nas redes sociais, e vejo, pasmo, gente aparentemente capaz de razão que se diz católica mas acredita em absurdos completos a respeito do próprio papa, como, por exemplo, que ele teria dito que “o Corão e a Bíblia seriam a mesma coisa”. Ora, parece-me evidente que uma tal contraposição (Corão versus Bíblia, como se o papel da Sagrada Escritura na Igreja fosse de alguma forma semelhante ao do Corão no Islã) só poderia ter partido da cabeça de um protestante, ou ao menos de alguém cuja percepção de eclesiologia seja protestante. Outros não vão tão longe, e apenas (como o Papa São Pio X condenou) reclamam de que o Papa, de alguma forma, “não seria claro no que diz”. E o que diria ele? Interrogados, respondem sempre citando algum absurdo repetido por manchetes de jornais brasileiros (deixemos de lado as páginas anticlericais ou protocismáticas da internet, que na verdade são apenas uma reverberação, não a fonte, deste mesmo fenômeno). A repetição dos absurdos da imprensa acaba levando as pessoas a juízos negativos prévios que as condicionam para que aceitem coisas abertamente delirantes como a tal equiparação do Corão e da Bíblia (ou, antes, da bíblia, com “b” minúsculo, por ser frase tão inequivocamente protestante). Ou seja: a primeira etapa da transição das boas coisas que diz o Papa aos delírios em que creem os bobos há de estar na imprensa ou em torno dela, não nos cismáticos que apenas reverberam o que esta diz acrescentando invencionices delirantes (Corão, etc.), que “colam” por o público ter sido preparado com antecedência por ela.

Resolvi, então, fazer a necrópsia deste fenômeno. Abramo-lo, para que possamos perceber de que morreu a verdade no que diz respeito ao Santo Padre.

A primeira e mais necessária etapa é discernir quais são os significados emitidos originalmente por Sua Santidade e quais são os significados aberrantes reportados pela imprensa, para assim podermos identificar os significantes que causam (ou não) deturpação de significado. Em outras palavras: eu leio o que o Papa diz e escreve e entendo perfeitamente. Eu leio o que a imprensa brasileira declara que ele disse, e é um absurdo sem pés nem cabeça, muitas vezes o oposto do que ele efetivamente declarou. Releio, vou à página do Vaticano, verifico a declaração do Santo Padre no original (em geral italiano, mas em algumas raras vezes em espanhol), e a coisa continua muito louca. Como uma coisa pode virar outra, contraditória e frequentemente contrária à primeira?

O Papa pronuncia-se de várias formas diferentes. A mais comum é a homilética: praticamente todos os dias ele faz uma pequena e riquíssima reflexão sobre o Evangelho, na Missa pública que celebra em sua residência (ele mora no hotel interno do Vaticano) ou na oração do Ângelus. Pois bem: suas homilias simplesmente não são noticiadas fora da imprensa vaticana ou semi-vaticana (Aciprensa, Zenit, etc.). A segunda forma dos pronunciamentos papais é a dos textos magisteriais preparados (encíclicas, exortações, etc.). Esta tampouco é noticiada, a não ser em grandes linhas, mas quando o é, é sempre em função de um ou outro detalhe absoluta e completamente irrelevante. É como se um porta-aviões fosse avistado e a notícia fosse sobre a tampa de um dos canhões de menor calibre. Este dado — a raridade das notícias e o foco estrito e desviado do principal — já nos dá uma primeira dica de onde esteja o problema; a terceira e última forma de pronunciamento acaba de apontá-lo. Esta é a das entrevistas, mormente as realizadas no avião em que Sua Santidade viaja. As entrevistas do Santo Padre são a fonte de nove entre dez absurdos publicados pela imprensa e repetidos pelos protocismáticos como preparação para as mentiras mais delirantes com que depois brindam seu público de odiadores do Vigário de Cristo.

Nelas, e em muito menor escala nas estranhas fixações das interpretações midiáticas de notas de pé de página ou irrelevâncias assemelhadas nos documentos papais, é que buscaremos perceber onde o significado do que diz o Papa se perde tanto, e por que isso ocorre.

Poderia ajudar neste sentido uma apresentação paralela dos problemas de comunicação ocorridos no pontificado de Bento XVI e no final do de São João Paulo II; não tenho tempo para fazê-la agora, mas basta dizer que o fenômeno era extremamente semelhante, mudando apenas a “polaridade”. A imprensa, naqueles pontificados, distorcia sistematicamente as palavras dos Papas para que eles parecessem ter tido coisas odientas e cruéis, do mesmo modo como ela hoje distorce as palavras do Papa Francisco para que ele pareça dizer sandices “progressistas” e politicamente corretas. O mais engraçado, ou triste, é que o Papa Francisco é infinitamente mais “conservador” que o Papa São João Paulo II, ou mesmo que o Papa Bento XVI (na parca medida em que seria possível a um Papa não ser conservador, claro), o que faz com que as distorções sejam ainda mais flagrantes para quem quer que se dê ao trabalho de examinar o que efetivamente foi dito ao invés de acreditar nas besteiras da imprensa e de seus reverberadores.

Vamos, então, aos fatos. O próximo passo deste nosso exame é perceber em que ponto da brincadeira de telefone-sem-fio que vai da boca do Santo Padre à dos antipapas de internet o cerne da mensagem se perde. Já vimos que não é entre a imprensa e os repetidores protocismáticos ou simplesmente ligados a outras causas que criam do nada discursos e imagens delirantes que só sobrevivem devido à preparação do terreno pelas distorções da imprensa.

Seria o fenômeno algo que ocorre nas redações brasileiras? É relativamente provável, quando nos damos conta de que a imprensa brasileira é composta, com raras exceções, de ateus militantes com pouca ou nenhuma cultura religiosa. Mas não é o caso. Praticamente não há, em nossa imprensa, reportagem religiosa direta que não a local. Assim, o culpado por manchetes do tipo “Bispo ordena leigos”, comentando em tom de escândalo a ordenação de diáconos permanentes para uma diocese brasileira, não é o mesmo que nos traz pérolas como “Papa diz que Igreja deve pedir desculpas aos gays”.

As notícias publicadas pela imprensa brasileira sobre as entrevistas papais têm sempre as mesmas e limitadíssimas fontes: as agências de notícias ditas internacionais, na verdade anglo-saxãs. Nossa imprensa compra as bobagens prontas da imprensa americana e (em menor medida) inglesa, num grande pacote em que vêm junto notícias de política europeia e guerras do Oriente Médio, e apenas as republica, geralmente pelo valor de escândalo que percebe na “notícia” já plenamente distorcida que recebe. Se examinarmos diretamente o noticiário das agências sobre o Papa, eliminando a etapa brasileira que apenas deixa de publicar uma que outra coisa, sem nada acrescentar, é fácil notar os temas. Para as agências que a imprensa brasileira republica, o Papa fala apenas dos seguintes tópicos:

  • Gays;
  • Empoderamento das mulheres;
  • Aquecimento global;
  • Terrorismo, Islã e refugiados muçulmanos;
  • Bernie Sanders / Donald Trump;
  • Armas

Ora, se formos ao que o Papa realmente diz, percebemos que nenhum destes desinteressantes “temas” jamais foi abordado por ele, ao menos não na forma como a imprensa os enquadra. Ao contrário; ele procura sempre, quando algum repórter tenta insistentemente arrancar dele alguma declaração sobre tais irrelevâncias, usá-las como ponto de partida para apresentar de maneira mais clara e completa a Evangelho.

O que essas besteiras têm em comum é simples: são os temas que dividem os lados na briga política entre as duas cabeças da cobra americana. Eles não interessam ao Papa, que jamais fala deles, mas só o que interessa às agências anglo-saxãs é o que diga respeito a esses temas, o que os leva a distorcer o que o Papa diz até que consigam encaixar um pino quadrado num buraco redondo e pintá-lo como tomando partido nas briguinhas intestinas daquele distante e desinteressante território de missão.

Um exemplo claríssimo é o que nos proporciona o último (quando escrevo) bestialógico da imprensa, livremente baseado na resposta dada pelo Santo Padre a uma jornalista de uma agência católica americana na volta de sua viagem à Armênia, disponível em italiano na página da Santa Sé. Examinemo-lo com mais vagar, para que este caso nos sirva como modelo para a percepção de como se opera a distorção.

O primeiro ponto de nota é as nacionalidades dos repórteres presentes, a importância dos órgãos que representavam e as perguntas feitas. Perguntas sobre os temas abaixo foram feitas por representantes dos seguintes órgãos:

  1. Desejos e orações do Papa para a Armênia (TV pública armênia);
  2. Ações que o Papa vai encetar para ajudar a pacificar o conflito da Armênia com o Azerbaijão (“Notícias da Armênia”, um jornal francês especializado);
  3. Alusão papal direta em discurso público ao genocídio dos armênios (Agência francesa de notícias France Presse e jornal católico francês La Croix);
  4. Se há dois Papas, Francisco e Bento XVI (Jornal argentino La Nación);
  5. O que o Papa pensa do Concílio pan-ortodoxo (Agência russa de notícias Itar-Tass);
  6. Se a saída da Grã-Bretanha da União Européia pode levar a Europa à guerra (Jornal católico americano National Catholic Register);
  7. Se haveria alguma possibilidade de reabilitação de Martinho Lutero (Rádio pública alemã ADR);
  8. Estado da questão sobre a possibilidade de voltar a haver diaconisas (Jornal francês Le Monde);
  9. Declarações do Cardeal Marx de que a Igreja deveria “pedir perdão à comunidade gay” (agência católica americana Catholic News Service).

Tudo o que respondeu o Papa vale ser lido, mas o que serviu de base para uma livre-interpretação jazzística de suas declarações pelas agências de imprensa foi apenas a última resposta. E quais foram essas agências internacionais, que por sua vez a imprensa brasileira repetiu? A lista de sempre: AP (que chamou o Cardeal de Karl Marx!), CNN, Reuters, NPR e NYT, com uma versão já um pouco mais delirante da parte dos mórmons (Deseret).

Vale apontar que nenhuma delas estava presente. Para elas — ao contrário do que ocorre com Le Monde, Itar-Tass ou com a rádio pública alemã, o Papa não é notícia. No mundo anglo-saxão, os interesses são outros. E é exatamente a limitadíssima lista de interesses da imprensa anglo-saxã que pauta as editorias internacionais brasileiras, logo todo o noticiário “laical” sobre o Papa no Brasil. Bastaria um clique, em nossos tempos de internet, para ter até mesmo no celular tudo o que o Papa realmente diz, mas para a maioria a preguiça é maior que o desejo de aprender, e nossos jornalistas orgulham-se de emular a esquerda americana até nos temas que lhes interessam.

Ora, as agências de imprensa anglo-saxãs estão praticamente todas alinhadas com a dita esquerda americana; poderiam perfeitamente ser consideradas porta-vozes do Partido Democrata. Neste caso, todavia, também ocorreu o fenômeno com cuja descrição iniciei este texto: a Deseret News é alinhada com a direita americana, mas retoma e amplia o meme criado pela esquerda. Enquanto a esquerda inventou que o Papa teria declarado que “a Igreja deveria pedir perdão aos gays”, a Deseret já acrescentou “e às lésbicas”!

A maior diferença entre as agências anglo-saxãs e a imprensa do resto do mundo (esta, sim, muito bem representada na entrevista) é cultural. Primeiro, como já apontei, o Papa não é automaticamente notícia em países em que o catolicismo é minoritário e percebido pela maioria como uma religião estrangeira. Mesmo que seja lastimável o estado atual do catolicismo francês ou alemão, ou mesmo do cristianismo russo, a importância do papa é culturalmente evidente nesses países, ainda que para opor-se a ele. Já para ingleses ou americanos, o “Papa de Roma” tem a mesma importância que o Rei da Bélgica, ou seja, praticamente nenhuma, a não ser que ele diga algo chocante.

Os órgãos de imprensa americanos presentes à entrevista, por esta razão, eram ambos confessionais e “oficiais”: o uso da palavra “católico” no nome de um organismo demanda canonicamente autorização eclesiástica, o que faz com que seja certo que órgãos de imprensa chamados “serviço católico de notícias” (pergunta 9) ou “escrivania católica nacional” (pergunta 6) sejam órgãos oficiais ou oficiosos de dioceses ou congregações religiosas. A única outra opção seria serem grupos que não reconhecem a autoridade eclesiástica, como as “católicas pelo direito de decidir”, e neste caso não faria sentido algum terem sido credenciados para uma entrevista no avião do Papa. O contato das agências anglo-saxãs, assim, já foi de segunda mão, recebendo provavelmente a notícia desses órgãos confessionais católicos e lendo-a na diagonal em busca de palavras-chave que pudessem servir para criar algum escândalo e assim ter uma notícia publicável acerca do por si irrelevante e desinteressante “Papa de Roma”.

E aqui entra o segundo aspecto cultural que leva à distorção. O que importa, no contexto cultural da imprensa americana, é apenas uma coisa: a sempiterna briga entre as duas cabeças da mesma cobra, a coletivista (hoje em dia dominando o Partido Democrata) e a individualista (hoje em dia concentrada no Partido Republicano). Tudo é interpretado em função dessa chave de compreensão. Tudo que é dito ou — mais ainda — reportado é necessariamente percebido como tomando partido nesta briga. O simples fato de que esta é uma briga por que a imensa maioria da população do mundo, a começar pelo Papa, não tem interesse algum é irrelevante para a mídia americana e, por extensão, para as agências anglo-saxãs. É em torno dela que a própria noção de notícia gira, para eles.

Evidentemente, isto tem sérios efeitos deletérios não apenas nos países de origem, como também, e, diria eu, principalmente, nos países em que outras causas estão em jogo. O principal destes efeitos é a expectativa de “fluidez” que acaba sendo criada pela repetição constante de notícias absurdas que parecem indicar que haveria alguma mudança na Doutrina católica, que é imutável por definição. Vemo-lo claramente nas perguntas feitas pelo Le Monde (pergunta 8) e pela rádio alemã (pergunta 7). A pergunta 4, do jornal argentino, insere-se no contexto da política local da terra natal do Sumo Pontífice, em que é de interesse do grupo que controla o jornal diminuir a influência papal, e por isso é irrelevante para o tema de que estamos tratando. A primeira é uma besteira chapa-branca para ter palavras doces a transmitir para o público local. A segunda e a terceira são pertinentes, e dizem respeito a atitudes papais que realmente influenciam tremendamente a geopolítica de toda a Europa e Oriente Médio. As agências de notícias anglosaxãs, todavia, que só se ocupam geopoliticamente com Israel, Irã e assuntos correlatos, não se interessam por isso. A pergunta 6 também reconhece a importância geopolítica da Santa Sé, ainda que de maneira equivocada e limitada aos interesses paroquiais anglo-saxãos, e, finalmente, a pergunta 5 diz respeito ao papel do Santo Padre como Patriarca da Igreja Latina, tal como percebido pelos cismáticos orientais. Em todas essas perguntas, a resposta do Santo Padre foi brilhante, sempre usando as perguntas como ponto por onde alavancar um golpe de judô que as virou do avesso e as usou como degrau para alcançar o Evangelho.

Na pergunta final, que é a que nos interessa por ter sido a base donde decolou o delírio da grande imprensa, como apontei acima, uma jornalista da imprensa confessional americana perguntou sobre as declarações de um cardeal alemão. Tais declarações fizeram muito ruído na imprensa americana pela única razão que permite que estrangeiros sejam mencionados nela: elas parecem se encaixar num dos temas da guerra cultural em curso entre as duas cabeças da serpente americana. O que o Cardeal Marx disse, que já não era lá essas maravilhas, dizia respeito a um contexto cultural e social totalmente diverso, mas como era possível transferir suas palavras — o significante — para outro contexto, dando-lhes em última instância um significado diverso, é o que a imprensa americana (portanto as agências anglo-saxãs, que se norteiam por esta) fez. Criou-se assim, para consumo interno americano e — muito pior — para exportação pelas agências, um cardeal pertencente ao Partido Democrata. Os Democratas adoraram, os Republicanos odiaram, e ninguém entendeu nada. O meme do cardeal-democrata, todavia, já estava criado, e no imaginário da política americana ele foi firmemente marcado como pertencendo a um partido, logo como inimigo figadal do outro. A partir dessa pertença fictícia, claro, já seria imediatamente possível adivinhar suas opiniões sobre todos os demais temas: armas, Irã, etc. Tudo o que fosse publicado sobre ele já sofreria de antemão de um viés confirmatório de uma filiação partidária que no mundo real nunca existiu.

Pois a jornalista americana resolveu perguntar ao Papa o que ele achava das declarações do Cardeal. O Santo Padre tentou colocá-las em contexto: primeiro disse que o cardeal (a quem chamou, brincando mas com fundo de verdade, de “Marx-ista”) estava falando de uma questão de catecismo básico, e que bastaria abrir o catecismo e ler para entender como agir em relação ao próximo. Em seguida, ele apontou que a Igreja é santa e sem mácula, e que portanto não seria a Igreja, mas os cristãos individuais, que poderiam ou deveriam pedir desculpas. Mas que essas desculpas não eram devidas meramente aos homossexuais (aliás, ele disse “à[s] pessoa[s] que tem essa condição”!; se fosse Bento XVI o viés de confirmação oposto faria desta expressão o cerne do noticiário: “Papa diz que homossexualismo é doença”, etc.), sim a toda e qualquer pessoa que tenha sido maltratada quando vinha honestamente buscar a Deus na Igreja. Deu como exemplos os filhos de casais divorciados, que eram maltratados na Argentina do começo do século passado, as crianças forçadas a trabalhos pesados, etc. E prosseguiu, dizendo que na verdade o que é devido não são apenas desculpas, mas um esforço real de aproximação e acolhimento de quem busca a Igreja. Perfeito: ele reafirmou a impecabilidade da Igreja, negou-se a aceitar a existência política da “comunidade gay” mencionada pela repórter, apontando que na verdade são pessoas com um problema (“condizione”), apontou para o catecismo para quem quiser saber mais sobre o assunto, lembrou que o nosso dever é de acolher quem busca a Igreja de boa fé, e, finalmente, colocou possíveis desculpas em seu devido lugar, entre miríades de outras culpas pessoais que cada cristão tem.

Daí, contudo, operou-se a transformação de vinho em água suja, ou o desaparecimento dos pães e peixes. Algum pressuroso editor anglo-saxão (confesso que não tive a pachorra de pesquisar qual das grandes agências foi a primeira a pisar na jaca), talvez até com a busca de palavras facilitando-lhe a vida, achou o termo “gay” e daí passou a ler. Opa, além de “gay”, “desculpas”, tudo no mesmo parágrafo! O escândalo estava pronto. Não interessa que o que o Santo Padre tenha feito tenha sido justamente o oposto de dizer que “a Igreja tem que pedir perdão aos gays”, reafirmando o que deveria ser evidente, mas que a ignorância dos jornalistas ignora, ou seja:

- que a Igreja não tem culpa nem pode ter culpa, pois a culpa pertence a pessoas, não ao Corpo Místico de Cristo;

- que os cristãos temos, sim, que pedir desculpas a muita gente, porque — ao contrário do que prega a cultura americana, em que a lei divina e a vontade humana se misturam, fazendo com que desculpas só sejam compreensíveis no contexto de uma mudança radical de vida — sabemos que pecamos constantemente contra Deus e contra o próximo;

- essas desculpas são devidas a pessoas concretas por atos concretos contra elas, não a grupos políticos ou categorias.

A leitura absurda e contrária à realidade, uma entre muitas (eu poderia ter usado “n” outros exemplos; o mecanismo é sempre o mesmo) é hoje em dia, infelizmente, a regra, não a exceção, na medida em que já se criou na imprensa um viés de confirmação que faz com que tudo o que o Papa Francisco diga seja lido na diagonal em busca de “mudanças”, assim como tudo o que dizia o Papa Bento VXI era lido, também na diagonal, em busca de “maldades medievais”. É dela que vêm os delírios da imprensa tupiniquim, e é deste erro inicial de percepção da realidade como sendo sempre orientada para confirmar uma ou outra cabeça da cobra americana, que se nutrem as mentiras ainda mais delirantes plantadas pelos protocismáticos e demais interessados em diminuir o alcance das reais palavras do Santo Padre.

Mas e daí, como se chega à outra acusação que se faz ao Santo Padre, segundo a qual ele seria “dúbio”?

Simples, e triste. O que ocorre é que as suas sábias palavras são torcidas, como vimos acontecer acima, e uma versão bizarra imediatamente circula — quando algo circula, claro, pois como apontei mais cedo, no mais das vezes o que diz o Papa é simplesmente ignorado; para que algo dito por ele circule, é primeiro necessário que se possa criar escândalo suportando o viés “mudancista” acerca de algum dos pontos disputados na política americana, preferencialmente no sentido que indicaria aprovação das maluquices do Partido Democrata.

Aí vem alguém bem-intencionado e tem a pachorra de ir lá na página da Santa Sé e ler o que efetivamente ele disse, e aponta isso aos demais. Ninguém vai lá conferir, claro, porque seria trabalho demais. Ao contrário, o que se faz é simplesmente retrucar “mas eu li no Globo”, ou besteira do gênero. A conclusão óbvia de quem tenta ser honesto e ouvir “os dois lados”, mas não se interessa o bastante para correr atrás do que foi efetivamente dito, é que o que o Papa disse certamente teria que ser dúbio, para que pudessem circular versões tão delirantemente díspares de um único discurso.

A isso, diria eu que ele teria que ser não apenas dúbio, como um gênio da dubiedade jamais visto na História. Eu vivo da palavra escrita há décadas, e mesmo assim eu teria enorme dificuldade em escrever, com tempo e podendo corrigir, um texto que fosse dúbio ao ponto de permitir leituras tão antagônicas quanto as que são atribuídas aos ditos do Papa por quem não os leu. Para espanto ainda maior, a matéria-prima mais comum das fabricações e delírios da imprensa acerca do que o Papa teria dito ou deixado de dizer é sempre ou bem o que ele diz de improviso em entrevistas, como vimos acima, ou — muito mais raramente — coisas extremamente laterais, alusões passageiras e notas de pé de página em documentos, etc. Ou seja: o Papa conseguiria o prodígio absurdo de ser “dúbio” de maneira complexíssima e brilhante ao falar de improviso, mas não o seria — ou ao menos não seria o suficiente para que isso pudesse dar vazo a leituras tão diametralmente opostas do que quer que seja — nos textos a cuja preparação se dedica. Estranho talento, esse!

Mais ainda: parece-me bastante evidente, e espero que uma pulguinha também tenha brotado atrás de sua orelha, caro leitor, que o supremo desinteresse da imprensa pelo que ensina o Santo Padre em suas homilias e escritos, de que ela só trata rarissimamente e focando sempre algo distante do cerne da questão (por exemplo: a maravilhosa encíclica chestertoniano-tomista Laudato Sì, sobre a música das esferas na Criação, foi reduzida pela imprensa ao que o Papa deu como exemplo de assunto sobre o qual a Igreja não deve se manifestar: as causas da incerteza climática; a maravilhosa exortação Amoris Laetitia foi reduzida à tricentésima-quinquagésima-primeira notinha de pé de página!, etc.) mostra onde está o que ele realmente quer nos dizer.

Ele não quer dizer nada sobre gays, empoderamento, segunda emenda da constituição de um território de missão periférico, etc., etc. Ele não está nem um pouco interessado na briguinha entre as duas cabeças da cobra, senão como ocasião para tirar dela as pessoas e levá-las ao Cristo, que é Quem realmente importa. E o caminho ele aponta com clareza e maestria nos seus escritos, nas suas homilias e, sim, também nas suas entrevistas. Basta abandonar o absurdo viés de confirmação do delírio de uma imprensa que em termos de Igreja é periférica, provinciana e desinformada, e ir direto à fonte. É fácil, e maravilhoso. A cada dia mais fico feliz por Deus ter-nos dado tão grande Papa.