Dos Protestos e da História

(Texto escrito no dia 22/6/2013, sem revisão, no calor do momento)

Na minha coluna publicada na Gazeta do Povo no dia 20/6/2013, intitulada “um cavalo encilhado”, procurei explicar o início e o crescimento dos protestos de rua que vêm tomando o Brasil. Neste texto, sem o estrito limite de tamanho que me é imposto por uma coluna de jornal, procurarei explicar como eles se inserem no momento histórico atual, para que seja possível às pessoas de boa vontade procurar pautar suas ações e participações (ou abstenções) com algum discernimento da situação.
Não sou profeta, e não sei o futuro. Dedico-me, porém, ao estudo tanto da cultura brasileira quanto da história da modernidade já há algumas décadas, e creio não estar falando besteira. Como qualquer texto escrito no calor do momento, elementos que depois serão percebidos pelos historiadores como importantes terão passado desapercebidos, e elementos cuja relevância era ilusória terão, certamente, atenção demasiada. Mas isto ainda é melhor que nada.

Contexto histórico

Estes protestos não surgem num vácuo; ao contrário, eles são parte integrante de uma onda de protestos que vêm varrendo todas as partes do planeta que foram dominadas, mais ou menos profundamente, pela dita “Civilização das Luzes”, ou “Modernidade”, uma forma de pensamento político antinatural que teve seu início prático há pouco mais de duzentos anos e agora chega a seu fim.
Resumindo muito, poderíamos dizer que a Modernidade é uma forma de absolutismo em que se considera que todo poder vem de um centro político. Em sua forma monárquica absolutista, era possível a um rei dizer “o Estado sou eu”. Cortando-se-lhe a cabeça, torna-se possível a um político dizer “todo o poder será exercido por mim em nome do Povo”. O significado prático de ambas as afirmações é o mesmo: o governante se percebe como o detentor de todo o poder, como a fonte do poder dos pais sobre os filhos (daí a facilidade do Estado moderno em tirar de alguém a “guarda” dos próprios filhos, por exemplo), dos professores sobre os alunos, dos empresários sobre seus funcionários, etc.
Esta forma de absolutismo, para sua implantação perfeita, demanda necessariamente que enorme parcela da população seja afastada por algum meio; o meio mais tradicional, empregado na França revolucionária, no nazi-fascismo, no comunismo e na expansão americana, foi o genocídio (respectivamente da nobreza, dos judeus, da burguesia e da população nativa e mexicana). A forma mitigada deste afastamento, empregada nos países de Modernidade do tipo capitalista, é o encarceramento maciço do lumpesinato urbano.
Tendo surgido na Europa, a penetração mais profunda desta ilusão antinatural sobre o funcionamento da sociedade ocorreu lá. No século passado, tivemos o auge da Modernidade, em que se digladiaram em território europeu suas formas mais puras, a fascista e a comunista.
Da Europa, contudo, esta ilusão antinatural espalhou-se pelo mundo. Os Estados Unidos da América — nas palavras de Chesterton, que cito de memória, “o único país erigido sobre uma ideia, não uma nacionalidade” — a Modernidade ganhou uma outra forma, talvez ainda mais pura por não ter sido construída sobre as ruínas da ordem social anterior, sim sobre a tábula rasa obtida com o genocídio da população nativa e — quando da invasão do norte do México, criando o atual sudoeste americano — católica mexicana.
Em outros lugares, contudo, incluindo o Brasil, a Modernidade não penetrou tão profundamente. Foi criada, sim, uma crosta superficial de Modernidade, com, por exemplo, uma legislação que tem a impessoalidade como valor, mantendo sempre, contudo, a população sua forma personalista e não Moderna de lidar com a realidade. Temos, assim, um Estado que se pretende Moderno, mas é uma Modernidade “pra inglês ver”. O mesmo político que se diz paladino da impessoalidade administrativa emprega toda a família; o mesmo cidadão de classe média que reclama da “corrupção” do político tenta — e frequentemente consegue — ser tratado de forma diferenciada pelo guarda de trânsito, pelo apelo a autoridade de amigos ou pela gorjeta.
Outro país em que a Modernidade não passa de uma crosta superficial é a Turquia, em que Attatürk tentou criar um país moderno à força no século passado, com sucesso apenas parcial.
É interessante perceber a semelhança, em muitos aspectos, da forma de eclosão dos protestos turcos e brasileiros, com um tema inicial irrelevante (um aumento de passagem de ônibus urbano aqui e a derrubada de algumas árvores para a construção de um centro comercial lá) servindo para desencadear uma onda de protestos absolutamente desproporcional à suposta causa. Em ambos os casos, o que se teve foi simplesmente — como observei no texto de minha coluna já citada — a eclosão abrupta de um sentimento de exasperação coletiva.
Nos países em que a Modernidade foi introjetada pela população, em que o modo de pensar da população é já completamente Moderno, contudo, os protestos tiveram outras formas. Nos EUA, ao niilismo das “ocupações” de Wall Street e outros lugares somou-se o romantismo individualista do Tea Party: formas modernas, ambas, de expressão de uma exasperação coletiva vaga demais para ser compreendida, mormente quando só se pensa em categorias modernas.
Da Europa, onde é mais profunda a percepção da participação política como ato coletivo, poderíamos citar as imensas manifestações com mais de um milhão de participantes da “Manif Pour Tous” francesa, que se levantou contra a imposição legal do “casamento gay”.

O espírito do tempo

Qual é o ponto comum de todas estas manifestações multitudinárias, de todos estes levantes, ocorrendo onde ocorreu a Modernidade? Qual é o “espírito do tempo”, o zeitgeist que as perpassa?
Por incrível que pareça, uma das afirmações mais próximas dele foi feita, no Brasil, pelo Senador Cristovam Buarque, mais conhecido por seu costumeiro utopismo tão delirante quanto bem intencionado. Propôs o Senador a extinção de todos os partidos políticos (o que, aliás, venho propondo há anos, por ser o eleitor brasileiro personalista).
Esta extinção, por sua vez, poderia ser expressa de outra maneira, na busca de uma definição essencial deste zeitgeist, no afã de isolar mais precisamente o ponto histórico em que estamos. Poderíamos apontar não mais para a frase do Senador, mas para o bordão que encontramos não só nas manifestações multitudinárias, mas em manifestações políticas individuais há já alguns meses: “não me representa”.
As manifestações coletivas são a soma de centenas de milhares de manifestações individuais de exasperação com a noção moderna e antinatural de centralização do poder. Daí o repúdio aos partidos políticos (que pretendem “representar” — ou seja, tomar para si o poder de — a população), aos homens e mulheres políticos, aos “líderes” autodenominados, etc.
Os atores políticos ligados às instituições soçobrantes, evidentemente, estão em pânico. O Movimento Passe Livre, grupelho de extrema-esquerda caricata que prega a estatização (leia-se “hipercentralização Moderna”) dos transportes públicos e que inadvertidamente serviu de estopim para os protestos, está pulando para cima e para baixo como uma criança mimada em busca de atenção. Os articulistas ligados às instituições estagnadas sob ataque tentam, no seu limitadíssimo horizonte conceitual, atribuir a um “fascismo” e a uma “extrema-direita” — mais assemelhados à proverbial cabeça de bacalhau que a um ator político real, na cena brasileira — a demanda multitudinária e ao mesmo tempo pessoal de devolução do poder ao indivíduo, expressa na frase “não me representa”.
Alguns chegam a incentivar vandalismos, talvez como forma de buscar um aumento da desordem que possa permita uma tentativa de implantação de um governo ditatorial (ou seja, hipermoderno). Em suma, querem voltar ao século passado. Estão no Titanic que afunda, bradando seus privilégios de ocupantes da primeira classe.
O momento histórico, contudo, não lhes é em nada propício. A tendência é a progressiva irrelevância das instituições excessivamente centralizadoras, com o crescimento das instituições naturais de autoridade (associações de bairro, grupos de ação político-cívica, etc.). Como em todo fim de sistema politico-civilizacional, a reação consiste em tentar mais do mesmo; podemos, por isto, esperar que se faça passar legislação mais centralizadora, etc. Isto, contudo, não tem como ter efeito real; esta legislação tende a ser ignorado, tanto mais quanto mais distante da realidade da população ela for. Trataremos disto com mais vagar mais abaixo neste mesmo texto.

Os atores

O principal ator político do momento é o jovem de classe média tradicional, fruto de uma educação ineficiente dominada pelo marxismo, somada a hábitos de consumo de massa do capitalismo tardio (desde seriados americanos como forma de “cultura” até o consumismo em senso mais estrito, com roupas e celulares de grife), com tudo isso servindo de cobertura para um bolo cuja massa é da mais pura cultura patriarcal tradicional, que o faz — apesar de seus apelos à modernidade — não pensar duas vezes antes de demandar privilégios de estamento (“você sabe com quem está falando?”, etc.). Ele compõe o grosso das manifestações e dá vazão verbal ao zeitgeist que, no entanto, anima também a outros atores. Por mais que a Globo tente esconder este fato, a composição socioeconômica e cultural das manifestações as torna muito próximas das Marchas da Família com Deus pela Liberdade de 1964.
Como ator secundário, já tradicional no casting brasileiro, a população de classe média baixa. Devido à inserção de enorme quantidade de jovens oriundos deste estamento no antes limitado quadro dos portadores de símbolos de pertença à classe média tradicional (principalmente carro, faculdade e eletrodomésticos), surgiu em cena uma força conservadora, insegura de sua pertença à classe privilegiada mas apegada a valores tradicionais e percebendo-se como em ascensão social por mérito próprio. Estes somam-se às manifestações de maneira mais tímida, por não terem tido aulas tão eficientes quanto as da classe média tradicional de “como é glorioso manifestar-se contra o poder” no ensino fundamental e médio. Também estão imbuídos deste zeitgeist anticentralizador, talvez até em dose maior que seus congêneres da classe média tradicional, devido à possibilidade de somar a participação política direta ao rol de símbolos de pertença à classe média que já ostentam.
Finalmente, a voz do atraso: os grupelhos (ou, se preferirem a linguagem deles, os “coletivos”) perdidos em algum momento entre o século retrasado e o século passado, ainda repletos de fantasias de construir no Brasil o que jamais conseguiram construir alhures, mesmo tendo matado cem milhões de pessoas na tentativa. Os militantes das formas exacerbadas de Modernidade (praticamente todos comunistas; há em São Paulo uma presença minúscula e caricata de militantes de um pseudo-fascismo tupiniquim, que não se sustenta ideologicamente, e só. São fascistas de butique, como há punks de butique) estão desesperados ao ver escorrer entre os dedos o que parecia tão próximo do sucesso, com a tomada dos governos (logo do poder, na visão simplista da maioria, ainda que alguns — como Freibetto — tenham discernido não ser o caso) pelo Foro de São Paulo.
Estes lutam ingloriamente contra o zeitgeist, tentando ou bem “domar” as manifestações, fazendo delas os costumeiros poleiros para políticos, adornando-as de bandeiras vermelhas e promessas vazias, ou bem transformá-las em desordem social aberta, através de atos de vandalismo que possam fazer com que se justifique uma (na visão deles) possível radicalização da autoridade centralizadora governamental, implantando à força uma ditadura comunista.
Como a mídia está umbilicalmente ligada ao governo, por ser dependente de anúncios milionários e estar povoada por jornalistas militantes destas formas exacerbadas de Modernidade, são apenas estes que têm voz nela; para a mídia, é imprescindível tentar reduzir a demanda das manifestações a qualquer coisa diferente de uma negação da centralização autoritária Moderna: daí a ênfase em besteiras irrelevantes, que levam a bola de volta ao campo da política tradicional, como se tudo isso fosse devido a passagens de ônibus, PECs e outras “demandas”.
Conspicuamente ausentes estão os conservadores, talvez por medo do desconhecido, talvez pelas infelizes declarações de alguns maîtres-à-penser, que não conseguiram ver além do quebra-quebra que está sendo incentivado pela extrema-esquerda numa tentativa frustra de esvaziar o momento histórico.
Nos lugares em que professores e outros intelectuais anticomunistas procuraram agir no sentido de influenciar as manifestações, a extrema-esquerda foi prontamente alijada dos protestos. Os lugares em que isto não ocorreu, o processo de “conservadorização” é mais lento, ainda que inexorável devido tanto ao fato de a maioria da população ser conservadora quando à incoerência entre o zeitgeist que as anima e as ideologias centralizadoras Modernas.

Para onde isto tudo vai?

A hipótese mais assustadora, usada como bicho-papão por alguns líderes para afastar os jovens engajados das manifestação, seria uma ditadura comunista. Isto é simplesmente impossível. Para implantar uma ditadura totalitária (ao contrário de uma ditadura meramente autoritária), como forçosamente uma ditadura comunista deve ser, é necessária a existência de uma massa crítica de aderentes ideológicos suficientemente grande para que se os possa uniformizar e armar para controle da população. Isto, no Brasil, é simplesmente impossível devido aos mecanismos culturais de sobrevivência brasileiros, que levam a um apoio “pra inglês ver” sem compromisso real. Em outras palavras, não há gente suficiente para fazer uma KGB ou Gestapo aqui, graças a Deus. O Brasil não é uma ilhota ao largo de Miami, da qual pudesse fugir a parcela da população que se faria necessário assassinar para ter sucesso numa revolução. Sem ter para onde ou como expulsar os indesejáveis e sem ter como levantar forças bastantes para mata-los, não há como fazer uma ditadura totalitária.
A segunda hipótese mais assustadora é uma ditadura autoritária de cunho populista, talvez alçada ao poder com participação das Forças Armadas. Há alguns candidatos a montar neste cavalo branco, do próprio Lula a Joaquim Barbosa, passando por outros menos votados, como Bolsonaro. Esta é uma hipótese real, não mais nem menos provável que as duas seguintes; o fiel da balança, devido à ausência conspícua de conservadores dispostos a agir dentro das manifestações, acaba sendo a capacidade destrutiva dos vândalos de extrema-esquerda e seus idiotas úteis niilistas.
A terceira alternativa seria a manutenção de Dilma na Presidência com apoio militar, fazendo dela, na prática, refém das Forças Armadas e desviando o projeto de poder da extrema-esquerda para o igualmente centralizador projeto tecnocrático dos militares. Na melhor das hipóteses, isto levaria a um cenário interessantíssimo na próxima eleição presidencial.
A quarta alternativa seria a tomada do poder pelos militares, que provavelmente levaria à antecipação das eleições presidenciais — ou talvez de todas as eleições, forçando uma recomposição do quadro político brasileiro — para evitar que as Forças Armadas se tornem alvo da continuação dos protestos. Afinal, a “educação” formal da juventude que ora protesta sempre demonizou as Forças Armadas.

Em todo caso, cumpre lembrar que a cultura brasileira tem mecanismos de resolução de conflito ímpares. Basta perceber a diferença entre o ocorrido nos demais países latino-americanos e o ocorrido aqui nas proxy wars entre EUA e URSS dos anos sessenta e setenta: enquanto os países de nosso entorno, com populações comparativamente ínfimas, tiveram genocídios chegando às centenas de milhares de pessoas, o Brasil — com uma evolução do quadro político em tudo semelhante, dos anos sessenta até os dias atuais — não chegou a quinhentas vítimas de ambos os lados. Podemos e devemos contar com estes mecanismos, com a “turma do deixa disso”, com resoluções mais pacíficas que o que se poderia esperar da virulência das opiniões em curso.
O que há de acontecer ao longo das próximas décadas, contudo, é uma diminuição desta centralização excessiva, desta forma antinatural de percepção e ação do poder trazida pela Modernidade. Em termos práticos, isto significa que grande parcela do poder voltará a seus donos legítimos, com um aumento no protagonismo político-cívico das instâncias inferiores e uma diminuição proporcional da importância dos partidos ideológicos (que, se perdurarem, será na forma de fósseis comunistas inócuos ou — como já temos — gangues de venda e redistribuição de poder patrimonialista).
A ação cívica recomendável e afinada com o momento histórica, a meu ver, é assim a ação de organização destes protagonismos político-cívicos: associações de moradores, de atletas, etc. Se não há esgoto, que se faça um mutirão para construí-lo ao invés de pedir a um político. O poder não é dele, mas da população. Deve-se buscar a irrelevância cada vez maior das instâncias políticas mais afastadas da população, fazendo com que a associação de moradores tenha mais poder que o prefeito, que tenha mais poder que o governador, que tenha mais poder que o presidente. Assim é a ordem natural, assim sempre foram as coisas até a Modernidade chegar e inverter tudo de forma antinatural, levando, em seu auge, aos horrendos genocídios do século passado.
Em suma: acabaram os cheques em branco para políticos. Devemos agir, não pedir, fazer, não eleger.
E que Deus ajude o Brasil.