Modernismos para o Taiguara

Aprofundamento do que escrevi anteriormente, na forma de resposta a postagem aberta com meu nome feita no facebook pelo meu querido amigo Taiguara

No modernismo, a idéia é nítida e a realidade desfocada

Meu querido amigo e antigo editor na excelente revista Vila Nova, infelizmente há um tempo já afastado, Taiguara Fernandes de Sousa — em homenagem a quem até já batizei um personagem heróico em um livro de ficção –, escreveu um artigo sobre minhas opiniões, que respondo parte por parte abaixo, no amor de Cristo e da Sua Santa Igreja.

Posto sem revisão, para não gastar ainda mais tempo com isso. Já é lamentável que o escândalo exista, e quanto menos atenção de lhe der, menos mal ele faz.

A carta aberta do taiguara segue em itálico e a minha resposta em caracteres normais:

SOBRE CARLOS RAMALHETE E OS CARDEAIS-FARISEUS

Quando Carlos Ramalhete acusou de “modernismo de direita” e “farisaísmo” os quatro Cardeais que levantaram dúvidas respeitosas ao Papa Francisco sobre como aplicar o texto da “Amoris Laetitia”, muitos católicos e leitores seus, entre os quais eu mesmo, ficaram espantados e confusos.

O motivo para tanta celeuma não é outro: todos tinham as mesmas dúvidas que os quatro Cardeais e a sua consulta foi um alento, uma esperança de que as questões seriam respondidas; e, pela mesma razão, todos se incluíram, junto aos Cardeais, na crítica de Ramalhete — em um segundo boa parte da catolicosfera descobriu ser “modernista de direita” e farisaica.

Naturalmente, quem acompanhe Carlos Ramalhete há algum tempo se sentiria tentado a pedir algum esclarecimento sobre sua opinião polêmica. Eu, que sou amigo do escritor há alguns anos, leitor seu desde a Lista de e-mails Tradição Católica (muitos aqui nem sabem o que é isso) e editor de seus artigos para a Revista Vila Nova, teria o mesmo desejo. Contudo, provavelmente receberíamos do autor a resposta de que pedir esclarecimento sobre um texto confuso é farisaísmo, que qualquer explicação que ele desse de nada adiantaria, pois o seu texto deveria ser lido tomando como pressuposto tudo o que ele já escrevera antes — afinal, foi isso que ele disse dos Cardeais que fizeram o mesmo com o texto confuso de “Amoris Laetitia”.

Mas se, como eu, alguém também acompanha Ramalhete há anos e, justamente por isso, percebeu uma grave contradição entre tudo que ele escreveu antes e o que está dizendo agora, a situação se complica: os textos antigos do autor não respondem sobre a contradição do seu pensamento atual e, pior, o autor mesmo se recusa a responder. Não adianta tomar o passado como pressuposto: é justamente por fazê-lo que a contradição do texto presente salta aos olhos. Que fazer?

Não há contradição alguma. Ao contrário, permaneci exatamente no mesmo lugar em que estive no Pontificado de São João Paulo II — quando as “ambigüidades” eram coisas como louraças fazendo a leitura da Missa papal despidas da cintura para cima e coisas ainda piores — e no de Bento XVI — que teve sua imagem pública seqüestrada pelos mesmos grupos que agora assolam minoritariamente, mas com fortíssima presença virtual, o atual Papa.

Este lugar é ao lado do Papa. Sou Católico Apostólico Romano pela graça de Deus e ultramontano por convicção e por Fé, do lado do Papa não arredo um milímetro e espero não arredar até a Parusia.

Muitos e muitos anos atrás, eu tive uma boa experiência de imersão no que era então ainda uma fímbria periférica de toda a enorme catolicidade de opções e modos de viver a mesma e única Fé que compõem a Igreja: o modernismo de direita, naquele tempo ainda restrito à Europa e aos EUA, ainda que muitas vezes erroneamente achando que os Padres de Campos seriam seus colegas. Nunca abracei aquele modo de pensar, mas conheci-o intimamente, e creio ser perfeitamente capaz de reconhecê-lo quando se levanta de novo.

E é isso que vem acontecendo: graças à internet, e mais especificamente à penetração dela na elite brasileira que costuma ter a modernidade como suposto ideal, o modernismo de direita vem penetrando o que o meu querido Taiguara chama de “catolicosfera” virtual. Em geral ele vem junto com uma opção política, como aliás foi o caso no surgimento dele na Europa, onde é ligado predominantemente às direitas políticas francesa e espanhola. Aqui, curiosamente, talvez por falta de uma direita política que não a pessoa do Dep. Bolsonaro, ele é predominantemente ligado a uma importação de idéias e noções americanas de que já tratei em outro texto, sobre o anticomunismo revolucionário.

O modernismo, qualquer forma de modernismo, é revolucionário. Não é revolucionário um Cardeal pedir uma explicação ao Papa, mas o é ele reiterar publicamente este pedido depois que não o teve respondido publicamente quando solicitado em particular, e o é mais ainda que isso seja saudado como em torcida de futebol, como se um cardeal fosse “líder da oposição” a um Papa supostamente “esquerdista” (coisa que simplesmente não faz sentido dentro da Igreja). E é isso que seria evidente que aconteceria, e é isso que aconteceu: a mesmíssima projeção e deriva malsãs que fazem com que seguidores da SSPX muitas vezes achem que Ecône (ou agora Nova Friburgo, para os mais radicais) seria a “verdadeira Roma” aparece em botão na ovação aos Cardeais por supostamente levantarem-se contra o Santo Padre. Isto é o modernismo em ação, e o fato de ser de direita não o faz em nada melhor que o de quem via Dom Pedro Casaldáliga ou Dom Paulo Evaristo Arns como oposição pela qual se deveria torcer contra São João Paulo II. Modernismo é modernismo.

Uma curiosidade histórica, aliás, que alguém que me acompanha há tanto tempo quanto o meu bom Taiguara deve se lembrar de que décadas atrás eu já dizia que aconteceria, é que com a exaustão da modernidade na política e na sociedade era previsível que ela viesse a tomar formas exageradas e por vezes mesmo violentas, num canto de cisne que estamos atualmente testemunhando mundo afora e que anima esta invasão de um modernismo de direita nos mesmos meios que vêem a lei e a ordem social se desfazerem pelas ruas do Brasil enquanto suspiram de alegria pelas vitórias dos populistas no Primeiro Mundo, sonhando com algo assim por aqui.

Quanto ao farisaraísmo, não é o pedido de explicações que o caracteriza, mas o escândalo público com algo que não deveria em absoluto provocar escândalo algum, que é o Santo Padre responder o que quiser, a quem quiser, quando quiser e como quiser. O Papa é ele, e ninguém pode nem julgar nem pressionar a Santa Sé.

Este é o caso exato de “Amoris Laetitia”. Não adianta tomar a doutrina da Igreja inteira e todos os textos magisteriais anteriores como pressuposto para resolver o problema do capítulo 8 da Exortação, como simploriamente afirma Ramalhete: tomar esse pressuposto apenas faz com que a contradição e a dúvida sobre o capítulo 8 se torne mais gritante. E se o próprio Magistério se recusa a resolver o problema — ele, que tem o múnus de apascentar as ovelhas e confirmar os cristãos na fé — a dúvida merece, com todas as notas, o adjetivo de insolúvel.

Tal “necessidade” já parte do erro absurdo de esperar mudanças na Sã Doutrina, pois não há absolutamente nada na AM8 que contradiga um iota da Lei de Cristo. Além disso, ela não é uma listinha de coisas permitidas e proibidas — “é compreensível que se não devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos” (AM par. 300)

Mas se se a tem, então que se espere. A Lumen Gentium — documento conciliar, logo muito mais importante que uma exortação apostólica pós-sinodal, e, em tese, merecedor de uma “explicação” mais rápida e mais urgente — foi promulgada em 1964. Seu capítulo 16 só foi ser explicado no ano 2000, na Dominus Iesus, e mesmo assim o foi na forma de um documento da Congregação para a Doutrina da Fé, não de um pronunciamento papal. Pronunciamentos papais não se demandam. Ponto. O Papa é soberano, o Papa é o Vigário de Cristo, não nosso; o Papa é nosso pai dado por Deus, não nosso representante eleito. Nada contra apertar políticos contra a parede até que miem: é para isso que eles servem. O Papa, não!

Aliás, uma curiosidade: a explicação dada na Dominus Iesus é exatamente o que eu sempre dissera que era, por ser simplesmente o fruto de uma leitura feita a partir do pressuposto de uma hermenêutica da continuidade. Qualquer outra leitura pressuporia uma descontinuidade que não pode existir. Não é “não pode” no sentido de “estar errado”, mas “não pode” no sentido de “não ser possível”.

Exatamente da mesma forma, apenas uma tremenda má-vontade para com a Sã Doutrina e um espírito (modernista) de eterno devir ideológico pode arrancar da AM, a despeito da enorme quantidade de reafirmações da imutabilidade da Doutrina, uma suposta mudança. É tanta vontade de achar chifre em cabeça de cavalo que se tomam as orelhas por eles.

Todos descobrimos com surpresa, então, que a dúvida sincera, motivada pela boa vontade de querer encontrar uma continuidade entre o texto atual e tudo que foi dito antes, nos transformava, “ipso facto”, em “modernistas de direita” e “fariseus”.

Não é verdade. O que marca a forma de ação do modernismo nos pontificados de que não conseguiu seqüestrar a imagem, como no de São João Paulo II e no do Papa gloriosamente reinante, é achar tudo complicado e difícil de entender, justamente, como já expliquei, por partir de uma hermenêutica da descontinuidade. Como falei da Lumen Gentium, aproveito para lembrar que sob S. JPII não passava uma semana sem demandas de explicação constantes, só que — mesmo quando vindas de gente não muito educada — sem um décimo da virulência que hoje se levanta contra o Santo Padre por absolutamente qualquer coisa que ele diga ou faça. O esporte de caça ao Papa e distorção fantástica de tudo o que ele diz viralizou e contaminou enorme parcela de pessoas que de outra forma seriam bons católicos. Eu, pessoalmente, tenho cada vez mais certeza de que nisso há ação demoníaca direta. Nunca vi tanta mentira em tão pouco tempo, e o efeito cumulativo delas é o que faz com que se tenha facilmente esta percepção da ação dos Senhores Cardeais como revolucionária: se o Papa diz X, rasgam-se as vestes internet afora dizendo que ele teria dito X2Y3, exatamente como quando Bento XVI teria “liberado a camisinha para garotos de programa” e outros delírios, mas elevado à enésima potência e transformado em coreente política, análoga à de separatistas ou coloniais independentistas, que a mentalidade moderna costuma ver como “heróicos”. O resultado é que quando surge uma questão pontual que pode até ter um pé na realidade, ela é vista como “finalmente a revolução”. E revoluções são coisa do Capiroto, não é bom esquecer.

Como Carlos Ramalhete está qualificando por estas expressões uma atitude específica, então devemos crer que também seríamos “fariseus” e “modernistas” se pedíssemos do autor esclarecimento sobre estas suas palavras confusas, as quais não entendemos, mesmo à luz de tudo que ele dissera antes. Logo, melhor não pedir.

Porém, eu queria ressaltar a expressão “modernista de direita”. Até hoje, apenas em Ramalhete eu li essa expressão. Na lista Tradição Católica, ele a utilizava, comumente, para referir-se à Fraternidade São Pio X, em oposição aos modernistas de esquerda, que aqui no Brasil seriam os seguidores da Teologia da Libertação. O fato curioso é o seguinte: Ramalhete mesmo é um dos que mais frisa a insuficiência da classificação entre direita e esquerda, que vem da Revolução Francesa (a divisão entre girondinos e jacobinos), por sua incapacidade de refletir a realidade das várias posições políticas existentes.

Mais ainda, diria eu: não faz absolutamente sentido algum ser-se católico “de direita” ou “de esquerda”. E o problema é justamente este: o modernista percebe-se como um ou outro, e tem orgulho disso.

Como não poderia deixar de ser, a divisão de Ramalhete entre “modernistas de esquerda” e “de direita” padece do mesmo problema. Tome-se como exemplo um membro da Renovação Carismática que acredite que a liturgia deva ser “animada” e “adaptada aos nossos tempos”, mas que não defende o marxismo: por sua primeira posição, não é modernista de direita; pela segunda, não é modernista de esquerda. É o que, então?

Modernista de esquerda. O que define o modernismo de esquerda e de direita não é a sua adesão a formas extremas do pensamento ideológico extra-eclesial, mas a sua relação com o perpétuo devir em que todo modernista crê que a Igreja esteja inserida: se o sujeito quer remar rio acima o tempo todo para não descer o rio ele é um modernista de direita; se se compraz na descida do rio, ele é um modernista de esquerda. O problema de ambos é que não rio algum, mas uma cidade construída sobre a montanha, e ambos se afastam dela cada vez mais, em direções contrárias. O demônio sempre coloca uma armadilha de cada lado da estrada. Sempre foi assim, e sempre será até a Parusia.

A divisão sugerida por Carlos Ramalhete é tanto mais insuficiente quando se observa a definição que o autor dá para “modernismo” em seu Facebook (https://www.facebook.com/carlosramalhete.brasil/posts/10154177979282239) e no seu perfil no Medium (https://medium.com/…/modernismos-e-supostas-dubiedades-8538…): “É da índole do modernismo apegar-se a idéias em detrimento da realidade”.

Quantas posições de direita, esquerda, centro, centro-direita, centro-esquerda, cima, baixo, diagonal, “nenhum-dos-lados”, etc, poderiam ser colocadas na atitude de “apegar-se a idéias em detrimento da realidade”? O que Carlos Ramalhete está definindo não é modernismo, mas ideologia — e ideologia existem tantas quantas existem as idéias, bastando que em qualquer delas o sujeito se esqueça da Realidade.

O pensamento ideológico é justamente o que caracteriza o modernismo. Ser modernista é pensar ideologicamente. Quer se o faça pela esquerda, pela direita ou pelo avesso, se se coloca a idéia acima da realidade e se tem um modelo ideológico para transformar o mundo, é-se moderno e, no contexto teológico eclesial, modernista.

A divisão é insuficiente e, por mais que me custe dizê-lo, parece que Ramalhete vem utilizando estas expressões indiscriminadamente (especialmente nos debates sobre o Papa Francisco), sem uma delimitação de seu significado real, exatamente como os tradicionalistas radicais faziam no passado contra todos que não eram seus partidários: bastava rotular de “modernista” e seguir adiante, sem responder.

Talvez Ramalhete pudesse esclarecer este ponto, mas não farei esse pedido, sob pena de farisaísmo.

Muito me espanta essa sua atitude, mas lembro que sempre vale a pena perguntar. O “não” já se tem, afinal. O que talvez pudesse ter sido mais educado teria sido escrever em particular me pedindo que respondesse a isto ou aquilo, ao invés de começar com uma salva pública. Para que se veja ao estrago que está fazendo o mau exemplo do escândalo em tela!

De todo modo, farei eu mesmo algumas reflexões sobre o problema.

O conceito verdadeiro de modernismo é aquele que foi dado por São Pio X na Encíclica “Pascendi” (https://w2.vatican.va/…/hf_p-x_enc_19070908_pascendi-domini…). Basicamente, o modernista é: 1) aquele cuja “filosofia religiosa se assenta sobre a doutrina que chamamos agnosticismo. Por força desta doutrina, a razão humana fica inteiramente reduzida à consideração dos fenômenos, isto é, só das coisas perceptíveis e pelo modo como são perceptíveis”,

O que é exatamente a mesma coisa que eu digo ao afirmar que o modernismo não aceita que se possa conhecer a realidade, só a idéia (fenomênica). Cabe lembrar, aliás, que o modernismo é protéico: ele muda, ele se transforma o tempo todo, ganhando novas fantasias, exatamente por ele ser desligado da realidade. Há tantos modernismos quanto há idéias passíveis de aceitação. E há idéias tão absurdas que só um intelectual acreditaria nelas, mas aí elas estão. O resultado disto é que se nos ativermos às características acidentais do modernismo (esta acima é a primeira e maior característica essencial, não acidental) em um determinado momento, perderemos de vista a heresia assim que ela dobrar a esquina e vestir-se de novas roupagens.

2) aquele que crê que “o sentimento religioso (que, por imanência vital, surge dos esconderijos da subconsciência) é o gérmen de toda a religião e a razão de tudo o que tem havido e haverá ainda em qualquer religião”; 3) aquele que acredita que “no sentimento religioso deve reconhecer-se uma espécie de intuição do coração, que pôs o homem em contato imediato com a própria realidade de Deus e lhe infunde tal persuasão da existência dele e da sua ação, tanto dentro como fora do homem, que excede a força de qualquer persuasão, que a ciência possa adquirir”.

Estes dois pontos são exatamente o que eu aponto quando afirmo — em termos mais adequados ao momento histórico atual e às formas mais variadas que o modernismo tomou de lá para cá — que o modernista não consegue perceber a eternidade da Sã Doutrina e sempre a considera em estado de perpétuo devir. Alguns modernistas — a quase totalidade, no tempo de S. Pio X, mas pouquíssimos hoje em dia — ainda usam essa desculpa esfarrapada de um “sentimento religioso”, que perdeu a aceitação científica com o surgimento de outras escolas de antropologia e sociologia no Século XX. O que é essencial nisso, contudo, continua sempre em jogo, ou seja: a indefinição, a incapacidade de percepção da presença do Eterno na realidade, da imutabilidade da Sã Doutrina, etc. O modernista sempre espera que a Doutrina mude, e é por isso que não consegue ler AM8.

Em todas estas proposições, São Pio X condena no modernismo a atitude subjetivista e relativista de fazer-se senhor da própria verdade, de não reconhecer a realidade mas, ao contrário, acreditar que dela conhecemos apenas fenômenos, impressões subjetivas, e que na religião isso redundaria apenas em sentimentos — nada seria verdade, apenas o que eu mesmo penso e sinto.

Mas esta não é uma posição parecida com o que Ramalhete fala ser o modernismo? Sim, e por esse motivo seria correto dizer que a definição de Ramalhete se aplica ao modernismo, mas não é, ela mesma, a definição de modernismo. O modernismo seria, sim, uma espécie de ideologia, mas nem toda ideologia é o modernismo, como sabemos.

Aí está o seu engano. Não há ideologia possível fora do modernismo. O pensamento ideológico é a nota essencial do modernismo, devido justamente aos aspectos apresentados por S. Pio X, que comentei logo acima.

Mais ainda, não se trata apenas de reduzir a religião a sentimentos; a coisa pode ser, e frequentemente é, muito pior que isso. E olha que isso já basta para ir pro Inferno de ponta-cabeça. Trata-se de negar a realidade como um todo, apegando-se à noção (moderna, cartesiana e kantiana) de que só se pode conhecer o “fenômeno”, ou seja, o que está para dentro dos olhos, orelhas, etc., mas não o “númeno” (a coisa em si, que seria incognoscível). Assim, para o modernista é a realidade é que é fluida e protéica, e é por isso que ele simplesmente não consegue conceber a imutabilidade doutrinal da Igreja: não há permanência possível quando se vive num eterno devir, e mesmo o que se tome por “permanência” (em geral a preservação de coisas acidentais, mas por vezes um esforço desesperado para salvar coisas essenciais que não correm perigo algum fora da cabeça — do “fenômeno” — do modernista) acaba sendo sempre apenas mais uma forma de devir, de ação ininterrupta e descerebrada, de correr em círculos com as mãos na cabeça.

A isso se poderia responder que Ramalhete não está definindo o modernismo, mas afirmando que é “da sua índole” tomar aquela atitude. Mas se o autor está apenas falando de uma “índole”, de uma postura específica, muito mais a sua divisão entre “modernistas de direita” e “de esquerda” é insuficiente e imprecisa, servindo antes para rotular do que para descrever realidades — e, por isso mesmo, é uma classificação injusta.

Espero que as definições mais estritas feitas acima o ajudem neste afã.

O mais difícil dessa situação é que as sociedades do dito Primeiro Mundo foram tão completamente dominadas — ou melhor, diria eu, destroçadas — pela Modernidade que para um nativo delas perceber o mundo sem ser por um prisma moderno — e na Igreja modernista — é quase tão impossível quanto seria entender perfeitamente o modo de ver o mundo de um camponês tibatano. Este, aliás, está bem mais próximo da Igreja que um europeu ou americano médio, justamente por saber que consegue enxergar a realidade, porr não se crer mergulhado em um fantasioso devir eterno, etc.

Para nós, no dito Terceiro Mundo, a situação é outra: a Modernidade nunca passou de ilusão, ou no máximo de uma fina camada de verniz para inglês ver. Assim, para que a pessoa realmente tome para si integralmente o mesmo de pensar modernista, ela precisa praticamente abandonar sua própria sociedade; o problema é que há todo um mundo — desde o mundo fantasioso e moderno do Direito positivo brasileiro aos seriados de TV, passando pela internet, especialmente em inglês — em que é possível mergulhar, deixando para trás não apenas a própria situação real, mas a própria estrutura da realidade. Este perigo torna-se ainda maior pela câmara de eco composta pelas redes sociais, que normalmente apenas reforçam aquilo que a pessoa externa, censurando liminarmente toda e qualquer postagem que pareça ir contra aquilo. Só assim um brasileiro consegue ser modernista, ainda que seu modernismo acabe rapidamente na hora em que entra em contato clássico e fecundo com a própria família, por exemplo. Ele é sempre superficial, e em geral vem junto com um falso sentimento de superioridade por “viver” em um mundo “mais puro”, numa tentação de natureza algo gnóstica de se considerar “o verdadeiro católico” em detrimento das massas mal-lavadas.

Se é assim, precisaríamos verificar se, mesmo desconsiderando a classificação de Ramalhete, os Cardeais por ele criticados se enquadrariam na definição de modernismo. Neste ponto, a resposta é evidentemente negativa: se os Cardeais estão buscando do Papa uma definição que concilie a doutrina de “Amoris Laetitia” com o Magistério anterior, então eles estão adotando a postura exatamente contrária àquela dos modernistas, de fazerem-se senhores da verdade por causa de seu próprio e subjetivo “sentimento religioso”. Ao tomarem como pressupostos, em sua carta, ensinamentos infalíveis da Igreja e, de outro lado, pedirem do Papa um esclarecimento sobre “Amoris Laetitia”, nos dois casos os Cardeais reconhecem que o seu “sentimento religioso” não é senhor da verdade e que existe uma realidade que independe deles e daquelas contradições em que o texto parece incorrer: a realidade da indissolubilidade do matrimônio, da sua necessidade para a vida sexual do casal, da existência de valores morais absolutos e atos intrinsecamente maus, etc.

Portanto, mesmo considerando a definição verdadeira de modernismo, que é aquela de São Pio X, nem assim a acusação de Ramalhete aos Cardeais se sustenta.

O modernismo já tomou muitas outras formas acidentais de S; Pio X para cá, e é falacioso reduzi-lo a uma já passada ou, pior ainda, achar que ela seria a sua única nota essencial. E o problema não é ter uma dúvida, ainda que a dúvida seja, sim, sintoma de um problema sério na medida em que não há razão absolutamente alguma para tê-la, a não ser que se parta do pressuposto de que a Sã Doutrina seria uma pluma ao vento, puro devir. O que ela não é nem pdoe ser, pois ela é o próprio Cristo, que é a Verdade, o Caminho e a Vida.

Mais ainda: é modernismo a negação do papado e do poder monárquico papal implícita numa revolucionária demanda pública de explicações, como se o papa fosse um vereador acusado de desvio de dinheiro público. E mais ainda o é a sumamente lamentável “torcida” que se fez nos meios de comunicação social, insuflando o escândalo a tal ponto que se poderia pensar que os Cardeais eram novos Robespierres ou Washingtons, liderando revoluções contra autoridades tidas por eles como ilegítimas.

Mas, dirá Ramalhete, buscar auxílio em São Pio X para uma definição de “modernismo” é, isso mesmo, “apego ao texto” e “farisaísmo”.

Não. Não direi nem diria. Muito me espanta que alguém que conhece meu pensamento há tanto tempo entre num estado de espírito tão fantasioso, mas é assim que opera o modernismo: pela fantasia de um eterno devir.

Em última instância, a posição de Ramalhete levaria à inutilidade de qualquer texto, de qualquer doutrina expressa num texto e mesmo à desnecessidade de entender um texto em verdade — e do estudo, e da leitura e de tudo o mais que se segue. É uma posição insustentável e que, contraditoriamente, levaria ao modernismo: como não precisamos nos apegar ao que o texto realmente diz, devemos ficar apenas com a nossa impressão fenomênica e subjetiva dele, com o nosso sentimento religioso.

Este raciocínio é tão absurdo em suas premissas e em suas conclusões que, sinceramente, não sei qual o caminho tomado da realidade a ele, se é que ele partiu em alguma forma dela.

Foi o que os modernistas fizeram com todos os textos da Igreja no último século e, por isso mesmo, a necessidade de clareza e sentido certo dos termos sempre se impôs — clareza que os quatro Cardeais agora cobraram, sem saber que estavam sendo modernistas ao querer evitar a deturpação do texto pelos modernistas (o absurdo desta idéia é perceptível tão logo anunciada).

Já foi respondido mais acima.

No fim, tomando tais pressupostos, não teríamos sequer por que nos apegarmos ao texto de Ramalhete, não haveria motivo para buscar entender o seu real sentido, nem ao menos razão para lê-lo — e o escritor, curiosamente, nos dá licença expressa para isso.

Depois de escrito, meu texto forçosamente é do leitor. Só o que posso fazer é me entristecer quando, como parece ser o caso, ele entra por um ouvido e sai pelo outrio, sendo percebido através de óculos ideológicos coloridos e distorcidos.

Com saudades, sempre seu amigo e irmão em Cristo,

Carlos Ramalhete