O Senhor dos Porcos (HQ) — Resenha

Excerto da HQ

O Brasil tem uma excelente tradição de história em quadrinhos, ainda que ela tenha ficado um tanto ou quanto oculta nos últimos tempos. Temos desenhistas e roteiristas, digo até, melhores que a média norte-americana, alcançando até o nível dos quadrinhos europeus.
E uma novidade neste mercado parece vinda da Europa: O Senhor dos Porcos, do Adriano Loyola, me fez lembrar imediatamente de La Tour, de Peeters & Schuiten. A presença da arquitetura — mais ainda, da arquitetura semi-destruída — como quase um personagem, os homens fortes e rubicundos, tudo apontava para esta obra que, como descobri ao conversar sobre ao assunto com o autor, ele mesmo não conhecia. Mas é assim que funciona com a boa arte: ela nos vem de outro lugar, diria Platão. A boa arte é quase uma intervenção do ideal no real.
No Senhor dos Porcos, o autor começa com uma situação que poderia ser atual, mas que ocorre em outro ambiente, em outra decadência que não esta em que vivemos: um cárcere privado, em que sequestradores disputam oque fazer com a vítima. Capturaram a vítima errada, e não sabem o que fazer com ela. Seria melhor matá-lo? Prosseguir com o pedido de resgate? Vendê-lo a alguém?
Cada um dos personagens é um arquétipo, e o próprio dilema acaba sendo arquetípico. A questão é esta, mas poderia ser qualquer outra; as pessoas debatem, mas poderia ser um debate mental, interno, na cabeça de uma pessoa só.
E tudo acontece em meio a ruínas, ruínas físicas e morais. É quase um retrato do que temos hoje, projetado em um tempo tão pútrido quanto este em que vivemos para aumentar-nos ao mesmo tempo a familiaridade e o estranhamento. Não conto aqui para não estragar a surpresa, mas o melhor está no fim.
E, em tempo, lembro que não, não é Pato Donald nem Homem-Aranha. Se precisarmos muito recorrer aos EUA, estaríamos mais perto do alvo ao dizer que Eisner reconheceria nos planos e quadros tão separados desta HQ a mesma arte sequencial que dissecou em sua obra teórica e construiu em sua obra prática; a fonte em que o Adriano Loyola bebe, todavia, é outra. É algo entre a crônica de costumes e a HQ européia, num equilibrismo estético que indica a presença de vida inteligente no universo quadrinístico local.

Boa notícia para que aprecia esta arte.

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