Teologia da Ecologia

Escrevi isto para a revista Guia Prático de Teologia, em 2012. Muito antes da Laudato Si.

O estudo da ecologia e dos temas conexos — conservacionismo, estudos de poluição, cálculos de tendências meteorológicas e climáticas, etc. — é um fenômeno novo; os elementos que o compõem, contudo, são desde há muito estudados pela teologia cristã.
Como a visão teológica é muito diferente das visões modernas mais comuns, torna-se necessário deixar claras as premissas indispensáveis a um raciocínio teológico ortodoxo sobre esta área.
A primeira delas é a alteridade absoluta da Criação como um todo em relação ao Criador;
A segunda é a estrutura hierárquica de toda a Criação;
A terceira é o papel do homem como custódio desta criação.
Vejamo-las:
O Criador, em relação à Criação, é absolutamente Outro. Num momento em que está na moda uma quase-divinização da Criação (como na chamada “hipótese gaia”, do ambientalista James Lovelock, que vê a Terra como um organismo vivo e lhe dá o nome da deusa grega do solo), é importante lembrar deste fato. A natureza criada não só não é Deus, como é obra Sua e d’Ele depende. O Criador é tão absolutamente maior que a Criação que ela nada Lhe acrescenta: Deus mais o universo criado — todas as galáxias, planetas, estrelas… — não é maior que o próprio Deus.
Esta Criação, contudo, é boa. No livro do Gênesis vemos que Deus declarou que cada coisa criada era boa. Este ponto de fé foi frequentemente negado pelas heresias de base gnóstica, que opunham o mundo físico criado, que consideravam mau, a uma “pura espiritualidade” que seria boa. Alguns chegaram ao ponto de achar que o mundo físico teria sido criado pelo demônio!
A Criação inteira orienta-se de Deus para o próprio Deus. Deus é, ao mesmo tempo, o primeiro princípio e o fim último de tudo o que existe. Mais ainda, é Ele a manter permanentemente em existência toda criatura.
A Criação, contudo, não é caótica. Este ponto da teologia clássica de São Tomás de Aquino foi redescoberto no final do século passado, quando a informática possibilitou discernir matematicamente a ordem de fenômenos até então considerados aleatórios. A forma das nuvens, a distribuição dos galhos das árvores, dos grãos de areia… Tudo isso tem uma ordem complexa, a que só agora a ciência moderna começa a ter acesso através da simplificação matemática.
Para a teologia cristã isto não é novidade: tudo se insere dentro de uma ordem maior, uma proporção (em latim, uma “ratio”) maior, expressa em termos hierárquicos. Esta hierarquia não é como a hierarquia rígida de um exército, mas como a hierarquia do nosso próprio corpo ou de uma árvore, em que as partes menores ligam-se a partes maiores, de maneira ordenada, visando um perfeito funcionamento tanto do conjunto quanto das próprias partes. Assim, seria uma “quebra de hierarquia” termos, por exemplo, as mãos saindo diretamente dos ombros, sem as etapas hierárquicas intermediárias que consistem nos braços e antebraços.
Dentro da Criação, portanto, há uma hierarquia expressa de diversas maneiras numa teia de relações que hoje chamamos ecológicas, em que nada está desligado de todo o resto. A árvore depende do solo, que depende do regime de chuvas, que por sua vez depende dos oceanos e do sol…
Esta interdependência de toda a Criação faz com que a posição relativa de cada galáxia seja necessária para a manutenção da órbita da terra, de que por sua vez depende o clima, do qual depende a vida de cada espécie. Cada ser, seguindo a sua natureza, tem seu fim próximo naquilo que o torna perfeito (o capim é comido pela vaca, a vaca é comida pelo homem, a água faz crescer plantas e animais, a pedra dá estabilidade ao solo, etc.), e assim seu fim último em Deus. Trata-se, portanto, uma ordem complexa e hierárquica, em que se encontra, como causa primeira e fim último, o próprio Deus. A esta ordem, a teologia tomista chama de “ratio divina”.
Não se trata, contudo, de um circuito fechado, como querem alguns ambientalistas atuais, de que o homem se coloca à parte ou — pior ainda — em que o homem se comporta como parasita. O homem, criatura que é, faz parte deste sistema complexo. A diferença crucial entre o homem e os outros seres criados, no entanto, é que o homem carrega consigo as consequências do Pecado Original; poderíamos dizer, ao tratar da ratio divina, que o homem não se encaixa nela automaticamente. Qualquer passarinho ou fio de grama segue a sua natureza e faz o que foi programado para fazer, inserindo-se sem titubear na ordem de todas as coisas. Suas “decisões” são simplesmente adequações do comportamento natural à espécie às circunstâncias ambientes.
Um cachorro, por exemplo, mesmo tendo sido criado em um lugar onde passam automóveis, mas não há predadores maiores que ele, continua tendo como primeira reação, ao ver um automóvel que se aproxima, uma mais apropriada para lidar com ursos e elefantes: fazer cara de coitadinho, de inofensivo, para que a “fera” de quatro rodas não o perceba como rival e o deixe em paz. Já o homem, para agir plenamente de acordo com a ratio divina, precisa da razão para discernir o curso correto de ação e da graça divina para conseguir submeter à razão aquilo que sente. Sem razão, sem a graça ou sem ambos, o homem desrespeita ao próximo e destrói, ao invés de conservar, o que Deus lhe confiou.
O fato de o homem ter esta dificuldade, causada pelo pecado de Adão, no entanto, não faz com que ele esteja separado da Criação. O homem faz parte da natureza criada, depende dela e ela depende dele. É fácil perder isto de vista hoje em dia, numa sociedade que separa o homem do ambiente como jamais ocorreu. Nunca, na história da humanidade, houve uma sociedade em que cada pessoa estivesse tão distante da origem de sua alimentação — passando em geral a vida sem ver o que comerá brotando da terra –, em que cada um recebesse a água de uma torneira e “se livrasse” dos dejetos dando a descarga.
Isto é, em última análise, uma negação da terceira das premissas que enunciamos no início deste texto: o papel de custódio do homem. “Custódio” é quem toma conta de algo, sem ser o proprietário; para a teologia cristã, é exatamente este o papel do homem na ordem da Criação. Ao homem compete tomar conta de todas as outras criaturas, que no entanto pertencem a Deus, não a ele. Este papel só pode ser perfeitamente levado a cabo quando o homem consegue, pela razão auxiliada pela graça, vencer a tentação de se perceber como dono e senhor de tudo o que existe, quando percebe que o que passa pelas mãos dele não lhe pertence, apesar de ser sua a responsabilidade pela conservação e bom uso de tudo o que há.
Em termos práticos, isto significa que compete ao homem procurar manter toda a Criação orientada o mais perfeitamente possível para Aquele que é o seu fim último: Deus. Ao mesmo tempo, compete ao homem tirar da terra, pelo seu trabalho, o seu sustento. Não são coisas conflitantes, pois a própria natureza dos seres os leva à perfeição sob a custódia dos homens. A fruta é orientada para Deus ao alimentar alguém, por exemplo.
Vemos no livro do Gênesis que Deus leva a Adão todas as criaturas, para que Adão lhes dê nomes. Dar um nome a algo é uma forma de conhecer e, ao mesmo tempo, de dominar o nominado. Quem dá o nome a um filho são os seus pais, por exemplo.
Tendo nomeado cada ser, Adão continuava só; foi-lhe então feita por Deus uma companheira. Isto mostra a diferença essencial entre o homem, que é ao mesmo tempo criatura corpórea, como os animais, plantas e pedras, e criatura espiritual, como os anjos. Um animal nunca está só, pois é um com toda a criação corpórea; um anjo tampouco, por ser um com toda a criação espiritual. Já o homem é anjo em meio às feras e fera em meio aos anjos; só pode deixar de estar só quando tem consigo quem o complete.
Quando, contudo, Adão peca e é expulso do Paraíso, passa a ser necessário que ele ganhe o seu pão com o suor do seu rosto. A Criação — e seu próprio corpo, com seus desejos e vontades — deixa de obedecer a ele, sem que ele deixe de ter a responsabilidade de custódio.
Esta é a nossa situação desde então: somos os responsáveis por todos os animais, plantas e minerais, pelas águas e pelos ares, mas eles não nos obedecem. Temos que, de certa forma, domá-los para que tenhamos deles o que nos é necessário à sobrevivência.
Vale notar que esta relação, tão mais difícil, é expressa também na Sagrada Escritura na história de Noé. Desapontado com o homem, Deus diz que exterminará “da face da terra o homem que criei, desde o homem até os animais, desde os répteis até as aves do céu” (Gn VI,7). Um vai junto com o outro: não pode haver animal sem homem, pois o homem é necessário como seu custódio. Ao mesmo tempo, o homem depende dos animais para a sua própria sobrevivência.
Tendo, assim, em mente estas premissas, como perceber a ecologia do ponto de vista teológico?
Mais ainda: como perceber de maneira teologicamente ortodoxa a relação entre a sociologia e a ecologia, necessária a partir do momento em que nos damos conta de que, como ensinou Aristóteles, o homem é um animal naturalmente social?
Se tomarmos o exemplo histórico, podemos perceber esta relação em ação na Europa medieval, era em que a sociedade melhor se organizou de acordo com a fé cristã. Sendo sempre uma sociedade de homens marcados pelo Pecado Original, portanto enfrentando as mesmíssimas dificuldades que enfrentamos hoje, a sociedade medieval era, no entanto, uma sociedade em que era evidente para todos que a ordem de todas as coisas não é nem pode ser criação humana, que não há caos, mas ordem complexa, e que compete ao homem custodiar toda a Criação, de acordo com a ratio divina.
O que mais chama a atenção quando examinamos atlas históricos é a recuperação florestal ocorrida durante a Idade Média; vastos terrenos que haviam sido destruídos pela exploração excessiva durante o domínio romano puderam se recuperar, revertendo à condição de floresta. Ao mesmo tempo, os avanços tecnológicos permitiram o aumento da produção agrícola e uma maior facilidade de beneficiamento da produção, com moinhos de vento e de água aproveitando ao máximo os recursos naturais disponíveis.
Não havia, contudo, uma noção que se pudesse comparar à visão conservacionista atual da ecologia, pela simples razão de que não se percebia o homem como algo separado do restante da Criação, mas como seu custódio, como a criatura primeira, dotada de maior responsabilidade e encarregada do cuidado de todas as outras.
Evitavam-se, assim, devido ao respeito prestado às premissas expostas no início deste texto, os problemas decorrentes da visão atual, que se alterna entre um utilitarismo que pretende ver na terra algo a explorar até o esgotamento e um romantismo desumano que prega ser o homem um parasita a exterminar.
Não havia necessidade de estabelecer limites para o desmatamento, pois o desmatamento era a negação do trabalho de custódio: desmatava-se apenas o necessário para plantar, usando a madeira para edificação. A água era água, fonte de vida, não “recurso hídrico” a manejar ou esgotar de acordo com as circunstâncias econômicas.
Para que se possa pensar teologicamente a ecologia, assim, é preciso partir das premissas corretas e evitar as múltiplas tentações e erros oferecidos pela sociedade moderna.
Não podemos perceber o homem como separado da Criação; é difícil, na sociedade atual, dar-se conta de que fazemos parte da Criação quando vivemos em um apartamento, temos água na torneira e nossa comida vem em caixinhas e nossos dejetos desaparecem ao dar a descarga. Antes da caixinha, contudo, a comida veio de uma plantação, irrigada pela água que veio dos céus na forma de chuva, tendo se elevado dos mares pelo calor do sol. Antes da torneira, a água veio de um rio. Além da descarga, para algum lugar vão os dejetos.
Uma consciência ecológica cristã pode e deve se preocupar com o destino destes dejetos, com a origem desta comida — de onde ela veio? Como foi plantada? Qual o efeito desta plantação no ambiente e no entorno geográfico dela? — e desta água. O que ela não pode fazer é tratar a água como um mero recurso, algo que tem o homem como fim último, ou — ao contrário — tratar a preservação da natureza como um fim em si, em detrimento da vida humana.
O perigo de divinização da Criação é hoje em dia tanto maior quanto maior é a distância do homem de ambientes relativamente preservados. Paradoxalmente, é mais fácil divinizar a natureza quando se está em uma quitinete em São Paulo que quando se está no campo, em contato direto com ela.
A divinização da natureza, contudo, oferece — além do perigo da idolatria — um perigo à própria conservação da Criação, que é papel do homem. Não se pode conservar aquilo que se diviniza; ao contrário, a tendência final é a destruição. Os povos pagãos que divinizavam a natureza sempre acabaram por cultuar uma ou outra árvore, derrubando todas as outras. Na Europa isto só veio a ser interrompido quando da cristianização da sociedade. Na Etiópia, só no entorno das igrejas e capelas permanece alguma floresta.
Do mesmo modo, a paganização da sociedade, ora em curso, levou à destruição ambiental de vastas áreas, especialmente nos países dominados por regimes oficialmente ateus. Na antiga União Soviética, havia rios de cores vivas que vez por outra pegavam fogo sozinhos.
No Ocidente capitalista, os mecanismos de mercado possibilitaram muitas vezes que se formasse uma relação menos doentia com o ambiente: o negócio da caça nos Estados Unidos, por exemplo, levou muitos proprietários rurais a cuidar melhor de suas terras, para que não faltem animais selvagens para os caçadores que pagam pelo privilégio de caçar lá. A razão é econômica, mas está perfeitamente de acordo com uma visão teologicamente ortodoxa da ecologia: o homem, custódio da Criação, cuida do ambiente e dele tira o seu sustento, sem diviniza-lo e sem destruí-lo propositadamente.
Qualquer pensamento teológico da ecologia, deste modo, deve partir das premissas expostas acima; só assim se evita tanto a idolatria da natureza quanto a idolatria do homem, os dois lados da mesma perigosa moeda da separação entre o ambiente e seu custódio.