As minhas seleções

Memórias e confissões de um adepto


Entre 2 e 8 de junho de 2008, a propósito da Euro Copa (Áustria/Suíça), este texto saiu-me das veias. Talvez tenha sido movido pela necessidade de repensar/perceber/explicar/justificar/expiar o facto de ser português e contudo torcer pela Holanda (mais, ser português e nunca ter torcido por Portugal…), ou talvez apenas movido pelo facto de, por vezes, me saber bem, muito bem, sentar e escrever. Recupero-o agora, a propósito da Copa do Mundo de 2014 (Brasil), revisto e aumentado.

Brasil, 1982

A primeira seleção que apoiei foi a do Brasil de Sócrates e companhia. Era forçoso que assim fosse, nasci em 1971, portanto seria de esperar que o meu primeiro Mundial fosse o de 1982, o do Naranjito, em Espanha (o país vizinho, logo ali ao lado, nuestros hermanos). Foi nesse ano que acompanhei com algum interesse (difícil saber o quanto), pela primeira vez, um acontecimento desta natureza. O Euro de 1980 (em Itália) e o Mundial de 1978 (na Argentina) passaram-me ao lado, mas o Naranjito cativou-me (e como não?) e despertou-me para esta realidade dos países, com exércitos de 11, em grupos de 4 e depois em eliminatórias a doer, todos com um único objectivo, o de erguer a taça. As regras do jogo eram claras e estavam entendidas, mas faltava-me algo. Torcer por alguém. Portugal não estava lá (embora figure no álbum de figurinhas de então…), mas eu queria na mesma jogar aquele jogo. Logo, era preciso torcer por outro alguém. E o Brasil pareceu-me a solução óbvia, ou possível. Ou alguém mo suspirou? E naquela altura, do alto dos meus 11 aninhos, eu convenci-me de que aquela era uma turma especial. Não tenho memória de jogos, jogadas, golos, apenas uma tarde ficou gravada para sempre, mas acredito que tenha ficado hipnotizado. Não sei se foi o azul e o amarelo, se foi a barba do Sócrates (eu diria mesmo que é impossível ficar indiferente a um jogador de barba…), se era aquele ar doidão do Falcão, se a magia do Zico, mas aqueles eram decididamente os meus tipos. Para quem, como eu, começava naquele momento a admirar aqueles duelos colectivos, aquelas guerras pacíficas (ou nem tanto), aquele Brasil era a escolha óbvia.

E o Brasil tinha ganho da União Soviética (2 x 1), da Escócia (4 x 1) e Nova Zelândia (4 x 0) no Grupo 6, tendo depois vencido a Argentina (3 x 1) no Grupo C (verdadeiro “grupo da morte”). Eram resultados impressionantes, que certamente me inspiraram. Eles estavam, eram, inspirados. Até que chegou a “tragédia do Sarriá”…

Naquele fatídico jogo frente a Paolo Rossi, eu saboreei o amargo da derrota, vi olho no olho a injustiça injustificável (nunca um hat-trick, numa altura em que nem sequer sabia que tal coisa existia, me soube tão mal…). Foi um batismo terrível. Ali começava a minha devoção ao mundo das nações em calções, e ali eu chorei pela primeira vez por causa de um jogo de futebol. Mais do que o jogo (do qual nada lembro, do qual apenas o youtube me conta coisas), lembro-me mesmo é da tarde, ensolarada e friorenta. Encontrava-me de férias no hotel da Torralta (o amarelinho; o mesmo amarelinho do escrete…), na serra da Estrela, com o meu pai. Vi (vimos?) o jogo dentro do hotel, numa pequena televisão na sala de estar, em silêncio, angustiado. Terminado o jogo, fui dar uns toques de bola (ainda hoje sinto o cheiro e a textura da bola), na grama, lá fora, com o meu pai. Sempre em silêncio. Aguentando em surdina algo de muito estranho para mim. Até que rebentei e chorei como a criança que era. É isto que guardo daquele que foi, provavelmente, o melhor escrete canarinho de sempre. A minha primeira seleção – como as primeiras escolhas? – foi efémera e amarga…

O escrete canarinho,
antes do embate com a Nova Zelândia no Mundial
de 1982.
Waldir Peres, Leandro, Oscar, Falcão, Luizinho e Junior (de pé);
Sócrates, Cerezo, Serginho, Zico e Éder (agachados)

Escócia, 1983

Não podia, portanto, ter grande sucesso em mim esta minha primeira seleção. Não tinha como seguir em frente com ela. O choque tinha sido grande demais. Eu tinha apostado nos tipos mais curtidos do campeonato, estava apaixonado, e eles desgraçavam-me assim… Sacanagem! Mas o jogo, a geometria do campo, os árbitros, os hinos, o cerimonial, a tensão, as transmissões televisivas (aquele R do replay, piscando, no canto superior esquerdo da tela, era absolutamente mágico!), a euforia e a tristeza nas bancadas, esses, já me tinham conquistado. E eu queria continuar a jogar aquele jogo!

E enquanto procurava nova turma dei de caras com o Aberdeen FC. Naqueles anos de 82, 83, 84, o Aberdeen – vermelho na Escócia, como o Liverpool em Inglaterra, e o Benfica em Portugal – era uma das minhas equipas. Naquele Aberdeen reinavam, sob a batuta de Alex Ferguson, jogadores como MacLeish, Leighton e aquele que era o meu herói do momento, Gordon Strachan. Se a esses juntássemos Souness e Dalglish obtinhamos metade de uma selecção pela qual eu poderia torcer, pensei então. Sei que ponderei, tentei adotá-los, tentei amalgamar o Aberdeen vitorioso com a Escócia anódina, e sei que falhou. Foi fugaz, não se materializou, mas a Escócia parecia-me uma boa escolha, então. Já os conhecia um pouco do Mundial de 1982 (estavam no grupo do Brasil; tinham ganho por 5-2 à Nova Zelândia e tinham perdido por 4-1 frente aos canarinhos) e Strachan era tudo para mim.

Além de que, na altura, e estas coisas são muito importantes, por muito que possa parecer ridículo, a minha maior paixão residia em copiar, à vista, emblemas e marcas (chocolates, tabaco, automóveis, escudos de clubes, you name it…). E a Escócia, além de uma bandeira simples e elegante, tinha o Leão Rampante! Era um desafio do caraças, uma espécie de êxtase adicional. As horas que eu passei a desenhar aquele leão…

Mas o meu apoio à Escócia esfumou-se rapidamente… Se o Aberdeen, que tinha ganho a Taça das Taças (frente ao Real Madrid) em 1982-83, me tinha dado uma alegria capaz de fazer esquecer o desaire canarinho do ano anterior, já no ano seguinte me fez passar pelo mesmo martírio, o das lágrimas. Quando tudo indicava que iriam repetir a proeza na edição de 1983-84, eis que, nas meias-finais, frente ao FC Porto, acabaram por cair, tão perto da final (que o FC Porto perderia depois para a Juventus), num jogo que igualmente não esquecerei. E no fim do qual chorei, uma vez mais, copiosamente. Eram já lágrimas a mais.

A seleção escocesa,
antes do embate com a União Soviética no Mundial de 1982.
Graeme Souness, Alan Rough, Frank Gray, David Narey, Gordon Strachan, John Robertson, Joe Jordan, Steve Archibald, Alan Hansen e John Wark.

França, 1984—1986

Isto tinha de parar, pensei. Urgia abraçar uma seleção que me desse garantias… E, naturalmente, surgiu a França. E que França! Era a França de Platini, Giresse (grande!), Trésor, Amoros, Bats, Tigana (o que eu gostava dele!), Fernández, Tresor, Rocheteau (o anjo verde!), Battiston e Six. E era a França que eu começava a descobrir, a França que eu visitara no ano anterior, naquela que foi a minha primeira saída a sério, ao exterior. Eu e o meu pai, uma semana em Paris, oh lá lá, la belle vie! A França da Paris que ainda vibrava no meu coração. A França do Francês que aprendia então, na escola, com o maior dos prazeres. E, sei-o hoje, sentia-o então, é por razões destas que eu escolho torcer por um país, e pela sua seleção. Foi isto que aprendi então. Eram as letras, as telas, os sons, o Sena, os jardins, a carte orange e a orangina de pamplemousse, era tudo isso que eu via naqueles calções brancos, espreitando timidamente entre as camisas azuis e as meias vermelhas! E só assim faz sentido, para mim, desde então. E também aqui o desenho, a estética, a marca, jogaram forte. Não o esqueçamos, a França também era o Le Coq Sportif! Quem é da minha geração, vivendo em Lisboa, sabe bem a importância destas palavras. Muito desenhei também aquele galo… e quantos ténis daquela marca (particularmente o modelo Arthur Ashe) esfrangalhei.

Eu já tinha dado pela França quando ainda andava abazurdido com o escrete de 1982. E como esquecê-los? Tinham tido uma participação discreta e pouco convincente durante as duas fases de grupos, é verdade, mas aquela endiabrada meia-final em Sevilha tinha deixado marcas. Sobretudo em Battiston, depois daquela entrada brutal de Schumacher. E como não poderia eu “odiar” para sempre os alemães (que agora se juntavam aos italianos)? Mas mais do que pela agressão a Battiston, pela trágica e emocionante série de penalties (a primeira de sempre numa Copa), depois de terem retirado à França uma virada que parecia histórica. Acabou, no final das contas, por ser histórica a virada dos alemães… Gott verdammt!

Eu já os conhecia, portanto, e agora, chegado 1984, e acabado o meu flirt fugaz com a Escócia, era o momento certo para a adoção dos Les Bleus; e logo agora, que lhes cabia a organização do Europeu de Futebol. Mas com esse namoro declarado, e como não poderia deixar de ser sempre que estão em causa grandes amores grandes decisões grandes compromissos, eis que veio a prova de fogo… Portugal frente a frente à França, nas meias-finais. Dommage! Lembro-me como se fosse ontem. Estádio Vélodrome, Marselha, 23 de Junho. Noite de São João (com direito a fogueiras e tudo). A casa da minha mãe estava pejada de gente, tudo em volta da televisão, uma barulheira dos diabos, todos (menos um) a torcer por Portugal. E Portugal tinha uma seleção do caraças, meio Benfica lá dentro! O jogo até começou bem (1-0 aos 24', por Domergue), a França e Portugal faziam magia, atacando furiosamente, sem parar, num jogo elétrico, e a um quarto de hora do final Jordão empata o jogo, levando-o para prolongamento. Que começa praticamente com o 1-2 (novamente por Jordão, aos 98') e que, durante um quarto de hora, me deixa totalmente exaurido (imaginem…), até novo empate (novamente por Domergue, aos 114'). E a um minuto do fim, quando já toda a gente esperava pelas grandes penalidades, após 119 minutos repletos de emoções, bolas na trave, jogadas e defesas do outro mundo, reviravoltas no marcador, eis que surge Platini (quem mais?) e marca o golo da vitória! Aquela França era a maior. E foi-o novamente, uns dias mais tarde, na final frente à Espanha.

E continuou a sê-lo, para mim, no Mundial de 1986, no México. Saltillo e as suas macacadas passaram-me ao lado, era Platini e os tricolores que eu queria. Tinha definitivamente (pensava eu) encontrado a minha seleção. E já nem a derrota que impuseram ao Brasil de Sócrates me incomodou… aquela série de penalties no final é ainda hoje um mimo… Não, na França eu vingara a má sorte canarinha de 4 anos antes e, em simultâneo, encontrara uma equipa forte, bela, elegante e vencedora. Tinham ganho o Europeu dois anos antes e abalançavam-se para a conquista do Mundial (tinham equipa para isso). Mas eis que surge no caminho, novamente na meia-final, a Alemanha… A França já tinha feito a proeza de eliminar a Itália e o Brasil e agora ainda lhe colocavam estes tipos (novamente) à frente? Ok, era fruta a mais, mas era possível. Só que não… Naquele jogo Platini percebeu que se tinha acabado o sonho (o Europeu de 88 e o Mundial de 90 já não contariam com a França). A Alemanha seguiu para a final e lá teve o que merecia… A taça era da Argentina! Da preciosa Argentina e desse personagem imensurável, de seu nome Diego Armando Maradona.

Numa altura em que eu entrava a toda a brida nos meus 15 aninhos, e as minhas paixões começavam a ser outras, Maradona me encantou. Ele era o cara. Com ele era possível sermos outra coisa, para além de futebol, futebol, futebol… Com Maradona o jogo passava pelo social, pelo político, pelas drogas… Com Maradona tudo parecia possível…

A seleção francesa,
Les Bleus, antes do embate com a Espanha na final do Europeu de 1984. Bruno Bellone, Bernard Lacombe, Alain Giersse, Luis Fernandez, Jean Tigana, Patrick Battiston, Maxime Bossis, Yvon Le Roux, Jean-François Domergue, Joël Bats e Michel Platini.

Interregno

O desaire da França de Platini coincidiu com o início da minha adolescência. Coincidiu com a minha mudança (e que mudança!) do Colégio Moderno para a António Arroio. Coincidiu com o sabão no cabelo e os brincos na orelha. Com os discos, os livros e a Cinemateca. As bandas e os concertos (saudoso RRV!). A charraria no liceu e as amêndoas amargas no Esteves. A experimentação. Acima de tudo os interesses comuns, os amigos, as redes. Onde a bola não era peça importante, não tendo mais, durante largos anos, uns bons 8 anos, o mesmo impacto na minha vida. Naturalmente, a minha vida de adolescente teve mais de Maradona que de Platini. De outro jeito não poderia deixar de ser…

Holanda, 1994—…

Eu diria que o despertar da minha atenção recua até ao Mundial de 1994 (EUA) e que o meu apoio incondicional vem desde o Mundial de 1998 (França). Mas soube recentemente (através de uma conversa com um amigo de longa data) que a minha história com a Holanda já vem desde o Mundial de 1990 (Itália). Parece, pois, que não fui insensível à prestação (por pobre que tenha sido…) de van Basten, Rijkaard e Gullit, e isto apesar de não ter uma única memória para partilhar. Memórias de acompanhar a progressão da equipa, e de assentar os resultados na cabeça, e de prestar muita atenção aos golos marcados (e sofridos), essas, só as tenho mesmo a partir do mundial, quatro anos mais tarde, em solo norte-americano. Mas mesmo assim, apenas as suficientes para me lembrar de vibrar com cada passada e consequente remate de Koeman, com a luminosidade hipnótica de Winter, com a elegância suprema de Bergkamp (que despontara no europeu sueco dois anos antes); e, negativamente, muito negativamente, com aquele terceiro golo brasileiro, de Branco, naquelas emocionantes quartas-de-final

Memórias mesmo, memórias de me lembrar dos gestos, das expressões de alegria e de dor, dos golos marcados indelevelmente no fundo da minha cabeça, memórias de adepto, essas, foi mesmo em França. Foi nesse mundial que comprei a camisa oficial da seleção holandesa (que ainda hoje me acompanha de 2 em 2 anos). Foi nesse mundial que ingressei na oranje legioen. Tenho esse magnífico mundial todo na cabeça (e quando esta falha, sempre tenho o DVD…). A Holanda tinha uma seleção de morte, cheia de jogadores geniais, embora os resultados possam não o espelhar. Dois empates e apenas uma vitória na fase de grupos, e duas vitórias nas oitavas e quartas pela margem mínima, e sempre com o golo decisivo no último minuto… (um bom resumo aqui). E a queda, por penalties, frente ao Brasil na meia-final. Nessa meia-final, nessa sessão de penalties, eu já não chorei. Como fazê-lo? Aliás, já nem a França de Platini me fizera passar por isso. Eu já tinha aprendido, então, que o estilo, e a elegância, e o jogo inesquecível, e o prazer indelével, são de longe o melhor prémio. E aquela Holanda tinha van der Sar, Reiziger, Stam, os irmãos de Boer, Numan, Jonk, Bergkamp, Kluivert, Davids, Overmars, Cocu, Seedorf, Zenden, Borgarde, Winter, Hooijdonk, van Bronckhorst, Hasselbaink… Como não amar aquela seleção? Aquela seleção poderia muito bem ser a próxima a vencer algo. Ou não. Que importa? E aquela seleção tinha Dennis Bergkamp no seu melhor! Para muitos, o melhor golo holandês de sempre (e deixemos por ora Cruijff de lado…) parece ser o 2-0 de van Basten frente à Russia em 1988. Para mim, não hesito, é sem dúvida nenhuma o de Bergkamp frente à Argentina, nas quartas-de-final de 1998, a um minuto do fim. Quem nunca o viu que o faça aqui por favor (só a gritaria de Jack van Gelder vale a pena). A um minuto do fim, frente a um rival histórico (1978!), com o jogo empatado a 1, e com uma expulsão para cada lado, Dennis Bergkamp faz algo de inesperado, algo em que ele próprio não parece querer acreditar. Frank de Boer, a cerca de 60 metros de Bergkamp, lança a bola pelos ares (o voo da redondinha é algo de excecional, como que nos dizendo «atentem, agarrem-se, vem aí algo de único»…), e o “Iceman”, em apenas três toques (Ayala e Roa são personagens de ficção ali, naquele momento, naquele minuto), mete a bola lá dentro e coloca a equipa nas meias-finais. Foi algo de assustador. Um golo assustador, é isso um grande golo!

O Mundial de França tinha deixado um imenso amargo na boca… A garantia de que o meu compromisso era com a Holanda, sim, mas uma enorme frustração. Em 2000 veio o Europeu de Futebol, e logo organizado por eles (juntamente com a Bélgica). A seleção era praticamente a mesma, mas a prestação era já diferente, senão vejam-se os resultados: Rep. Checa (1-0), França (3-2), Dinamarca (3-0) e Jugoslávia (6-1). Avassalador. Só vitórias. Sim, a conquista do segundo Europeu da Holanda parecia ser algo a ter em conta. Nem a Itália, na meia-final, os pararia. Pois não. Foram antes os penalties (mais uma vez…)! Dois penalties falhados durante o jogo (para não falar das inúmeras bolas a rasar os postes…) e três penalties falhados na decisão final, após 120 minutos sem parar. De um dia para o outro, não mais se falava da forte seleção laranja, mas antes da sua evidente inépcia em marcar grandes penalidades. Esse momento foi muito difícil de digerir, muito adepto impávido, muita pergunta sem resposta… embora se googlarmos “how to shoot a penalty + academic study” (por exemplo) o que não faltam são estatísticas, explicações e soluções. Até a morte foi chamada a terreiro…

O grande drama mesmo é que a maior parte de uma excelente equipa dizia adeus às grandes competições e novos jogadores e treinadores entravam em ação, não garantindo de todo o sucesso desejado. A Holanda não se apurou sequer para o Mundial de 2002 (Coreia e Japão; e à conta de Portugal…) e, quer no Europeu de 2004 quer no Mundial de 2006, nunca se encontrou verdadeiramente, nunca teve equipa decente (numa difícil fase de transição) e caíu em ambas as competições (para mal dos meus pecados) face a Portugal. Dez anos volvidos parece que a elftal finalmente tem espinha dorsal, jogadores ganhadores, rodados e com pica para ganhar alguma coisa (mais importante mesmo, tem San Marco no comando!). Resta passar o “grupo da morte” (Holanda, Itália, França e Roménia) e já está… Além de que Portugal, a aparecer, só aparece na final… (e ganha, claro está; e no penalty shoot-out… arrrrrgh!) Este europeu alpino vai contar com pequenas jóias como van Persie, Robben, Huntelaar, van der Vaart e Sneijder. Van der Sar estará lá como capitão óbvio e van Basten como herói inspirador. E à defesa só resta ter lido aqui as preocupações de alguns compatriotas e passar a defender menos e a atacar mais! Aanvallen!!!!

Pequeno update, uma vez que este texto data de 2008 (em vésperas do Euro 2008).

Entretanto, a Holanda marcou presença no Euro 2008 (Suiça/Áustria), no Mundial 2010 (África do Sul) e no Euro 2012 (Polónia/Ucrânia). Foram três aparições completamente distintas, mais distintas seria impossível. Já deixei claro que a seleção de 1998 foi a que mais me marcou, por ser a primeira a fazer-me acreditar, a primeira a fazer magia, a mostrar-me coisas extraordinárias, mas a de 2008, caramba!, a de 2008 foi enorme e fez uma campanha imaculada. Caiu num jogo atípico (quartos-de-final, frente à Rússia de Hiddink), sem nada a apontar, e ficará para sempre na memória da oranje legioen. Essa seleção chegou a Berna com nada mais que a certeza de estar dentro do “grupo da morte”. Mas a morte, na verdade, foi dos restantes! Frente à Itália, 3 x 0. Frente à França, 4 x 1. Frente à Roménia, 2 x 0. O que se estava a passar? Ninguém parecia conseguir explicar tal agilidade, facilidade, leveza. Ataque avassalador! A equipa, pasmem-se, parecia tranquila e feliz. Tradicionalmente, a seleção holandesa é um saco de gatos, cada holandês é um potencial treinador (imagine-se então cada jogador!), a seleção sempre balcanizada, fações contra fações, múltiplas zangas e recalques. Mas aquela seleção de 2008 viveu algo fora do comum, os jogadores estavam todos no mesmo comprimento de onda, todos respiravam tranquilidade, a harmonia era visível. Possível explicação? As famílias. Sim, as famílias, as famílias dos jogadores compareceram em peso. Pode parecer lirismo da minha parte, mas vejam-se estas imagens. São imagens que não se vêem em torneios deste calibre. Mas era assim que terminavam os jogos holandeses na fase de grupos, era este o ambiente. Como não corresponder depois, em campo, jogando ao mais alto nível? Pois.

Só que essa alta energia familiar viu o seu reverso, num triste turn of events. No dia 18 de junho, Sabia Boulahrouz (mulher do defesa direito Khalid Boulahrouz) deu à luz uma criança prematura que viria a morrer no dia seguinte. Um terrível golpe para Khalid e Sabia, e igualmente um terrível golpe na prestação holandesa, três dias depois, frente à seleção russa. Não só Khalid Boulahrouz insistiu em jogar, como toda a seleção jogou com uma braçadeira negra em memória de Anissa Boulahrouz. Algo estava quebrado para sempre. O jogo foi o que foi, a Rússia (nas mãos de Hiddink) jogou que se fartou, mas não tenho dúvidas nenhumas de que, estivesse a Holanda no mesmo nível emocional dos jogos anteriores, a Rússia tinha sido cilindrada. Se, se, se…

No regresso a casa, Marco van Basten foi à vida dele e entrou em cena Bert van Marwijk. Com van Marwijk a seleção holandesa atravessou uma das suas piores fases de sempre, se não a pior. Com van Marwijk entrou em cena uma espécie de mambo jambo mourinhesco, em que os fins justificam os meios, o que no mundo do futebol todos sabemos o que quer dizer — sacrifique-se o jogar bonito e venham de lá os 3 pontos… Tudo o que a Holanda historicamente abominou… Mas esse pragamatismo de van Marwijk, aliado à vontade de vencer de Wesley Sneijder (que, de maneira evidente, capitaneou a equipa), deram lugar a um unanimismo que tudo gelou até a derrota final. Derrota final na final, é cert0, mas derrota final. O que a Holanda abdicou nessa copa sul-africana não tem preço. Num total de 7 jogos (660 minutos), eu diria muito friamente que a Holanda apenas jogou 45 minutos — o segundo tempo, frente ao Brasil. É muito pouco. Os jogos na fase de grupos foram um enorme bocejo; o jogo das oitavas passou-se (mas alguém algum dia lembrará esse Holanda x Eslováquia?!); o jogo das quartas, frente ao Brasil, foi a grande prova de fogo e aqueles segundos 45 minutos foram de luxo; o jogo da meia-final frente ao Uruguai valeu sobretudo pelos golos de Gio e de Forlan; e o jogo da final foi o coroar dessa espiral destrutiva iniciada uns anos antes com Bert van Marwijk…

Foi? Não. Bert van Marwijk, no regresso à Holanda, não perdeu o lugar. Não, continuou o seu reinado no Europeu seguinte. Desse torneio apenas há a registar isto: 3 jogos, 3 derrotas. E isto. E isto. E isto. Chega. Até a rainha teve de intervir… E nesse mesmo mês, Bert van Marwijk partia.

E assim termina o update, que era suposto ser pequeno…


Também na Holanda, à semelhança da França de catorze anos antes, eu projeto outras dimensões, outros sentidos, outras paixões. Nunca foram para mim, as seleções, um veículo de realização, de fuga a uma realidade que vingamos no futebol, não. Se a França era para mim o Francês, também a Holanda é para mim o Neerlandês (com a grande diferença que este só arranho… e mal e porcamente) que, embora seja geralmente apelidado de língua de trapos, para mim, é sweet music to my ears (sério, quantas vezes não escuto rádio holandesa só para os poder ouvir falar de quando em quando). Mas é também a Holanda da qualidade de vida, da tolerância (por muito que eles próprios não acreditem…), da luz admirável (e olhem que eu venho de uma cidade que se gaba de ter uma luz acima da média…), uma vez mais das grandes telas, dos grandes pintores, dos grandes museus, do design (seja lá em que vertente for), do interior versus exterior, do frio e da chuva, sim, também da música foleira e do consumismo desenfreado (blargh…); e do laranja, sempre o laranja. E dos passeios de sonho, da vida em segunda-mão, dos polícias sem chapéu, da bicicleta como extensão do corpo, das experiências sensoriais em cada esquina, da genebra quente e a chuva fria lá fora, das cervejas e da comida na rua, das galerias, das janelas sem cortinados, dos mexilhões com Hoegaarden numa qualquer esquina torta, dos cafés onde dá vontade acampar, dos comboios, do verde e do azul e do cinzento, de Leiden!, do ocasional cheiro a erva, das livrarias (acreditem, as livrarias holandesas respiram como nenhumas outras), e do, sempre presente, futebol.

Sim, nem que fosse pelo futebol… A Holanda, ao que parece, é o país com mais praticantes inscritos em federações de futebol do mundo (e vem imediatamente à memória o notável trabalho do fotógrafo Hans van der Meer). A Holanda deu ao mundo jogadores geniais como Cruijff, Rep, Rensenbrink, Suurbier, Haan, Neeskens, Bergkamp, van Basten, Gullit, Seedorf entre tantos, tantos outros. Deu ao mundo treinadores de topo como Rinus Michels (recentemente eleito aqui como coach of the century), Advocaat, Beenhakker, de Haan, van Gaal. Deu ao mundo o Futebol Total (à semelhança da Arquitetura Total e do estúdio Total Design), o pressing e o fora de jogo. E as bancadas vestidas de laranja. E o Ajax, equipa que forma e lança jogadores de alto nível. E, além disso, a Holanda (embora com apenas um título, Euro 1988) marcou presença em 10 dos 20 Mundiais (3 vezes finalista vencido) e em 9 dos 14 Europeus (4 vezes nas meias-finais), sendo parte integrante de momentos verdadeiramente inesquecíveis. Como a final do Europeu de 1974 frente à Alemanha, que acabou perdendo devido à sua arrogância (também ela, não raras vezes, característica holandesa…). Ou como a final do Mundial de 1978 frente à Argentina, que perdeu devido, bom, digamos assim, à intimidação permanente e atroz por parte das autoridades, organização e povo argentino… Mais tarde, Rensenbrink afirmaria que caso tivesse marcado o golo da vitória (bola ao poste) nos últimos instantes da partida, que estava empatada a 1, ninguém teria saído dali vivo… Ou como a meia-final do Europeu de 1988, frente à Alemanha, numa revanche bem-sucedida da final de 1974. Nesse jogo jogou-se mais do que uma partida de futebol, nesse jogo vingou-se a final alemã de 1974 e remexeram-se e soltaram-se (finalmente!) traumas e fantasmas não tão antigos assim. Nas bancadas do estádio viram-se, para espanto de muitos, faixas que diziam “Ein Reich, Ein Volk, Ein Gullit” ou o “delicioso” “Oma wij hebben je fiets gevonden” (“Avó, encontrámos a sua bicicleta”) em claras alusões à II Guerra Mundial. A segunda faixa alude a um particular momento da invasão do país por parte do seu vizinho, em que a administração alemã confiscou vários milhões de bicicletas e as remeteu para a Alemanha e territórios do Leste. E nós imaginamos o que isso pode ter significado para os holandeses… De tal modo que em 1988 ainda era assunto… Aliás, veja-se a dimensão dos festejos na Holanda após essa meia-final, 9 (nove!) milhões de pessoas vieram para a rua!! Mas este jogo e esta rivalidade também serviram para lançar de vez na sociedade holandesa um outro debate, longamente reprimido; o da participação ou não dos holandeses durante a ocupação nazi. O debate sobre os goede e os fout holandeses. Sendo que o bons (goede) eram quase todos, e os fout (maus) apenas alguns… if you know what I mean… A partir dessa meia-final, a partir do final dos anos 80, esta questão começou a ser debatida e falada e resolvida (espera-se). E se um país consegue aproveitar o futebol para lançar debates deste tipo, esse país só pode ter o meu apoio. Seja. ORAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAANJE!!!!

A seleção holandesa,
a oranje elftal,
antes do embate
com a Argentina no Mundial de 1998.
Edwin van der Sar, Dennis Bergkamp,
Jaap Stam, Philip Cocu, Wim Jonk e Patrick Kluivert (de pé);
Arthur Numan, Edgar Davids, MichaelReiziger, Frank e Ronald de Boer (agachados)