Google e o mantra Não Seja Mau

Eu já tinha ouvido falar do mantra “Não Seja Mau” entre os Googlers, termo oriundo desde os primeiros anos da empresa, porém eu não conhecia de fato a história. Recentemente tive a oportunidade de ver isto mais de perto, pois juntamente com meus sócios (co-founders) da Hand Talk passamos 15 dias imergidos dentro do Google Campus em Moutain View e respirando um pouco daquela cultura — parte de um processo de um programa Pós-aceleração da empresa chamado Launchpad Accelerator com Startups do Brasil, Indonésia e Índia que irá durar 6 meses.

Foram dias intensos e de muito muito conhecimento adquirido em tão pouco tempo, há algo diferente naquele lugar quando você está inserido no contexto a trabalho — diferentemente quando a viagem é para “turismo tecnológico”.

Comecei a ler recentemente o livro escrito por Eric Schmidt (presidente da empresa entre 2001 e 2011 e hoje lidera o conselho de administração) e Jonathan Rosenberg (é o ex-vice-presidente sênior de produtos) chamado “Como o Google Funciona”. Muito indicado por pessoas de dentro. Tem sido um aprendizado incrível compreender melhor toda a história da empresa, sem superficialidade como em outros títulos a respeito do Google.

Por isso gostaria de compartilhar com vocês uma fração do capítulo a respeito da Cultura, copiado integralmente. A interpretação e aprendizado com um texto curto como o que segue abaixo vai muito da sensibilidade de cada pessoa, mas dá para entender a diferença entre “cultura” e Cultura. Leia abaixo:

Eric Schmidt estava no Google havia cerca de seis meses. Àquela altura, ele já conhecia tudo sobre o mantra “Não seja mau”, cunhado pelos engenheiros Paul Buchheit e Amit Patel durante uma reunião no início da empresa. Eric, no entanto, subestimou o quanto essa simples frase tinha se tornado parte da cultura do Google.

Ele estava em uma reunião na qual eram debatidos os méritos de uma mudança no sistema de anúncios, uma alteração com o potencial de ser muito lucrativa para a empresa. Um dos diretores de engenharia socou a mesa e disse: “Nós não podemos fazer isso, seria uma atitude .” De repente, a sala ficou em silêncio; parecia um jogo de pôquer em um filme antigo de faroeste, quando um jogador acusa outro de trapacear e todo mundo se afasta da mesa, esperando alguém sacar a arma. Eric pensou: Nossa, esses caras levam essas coisas a sério. Uma longa e, em alguns momentos, acirrada discussão se seguiu, e, no fim das contas, a mudança não vingou.

O famoso mantra do Google de “Não seja mau” não é exatamente o que parece. Sim, ele expressa de forma genuína um valor da empresa e uma profunda aspiração dos funcionários. Contudo, “Não seja mau” é principalmente outra maneira de dar autonomia aos funcionários. A experiência pela qual Eric passou não era incomum (tirando o soco na mesa): Googlers de fato analisam seus valores morais quando tomam decisões.

Quando a Toyota inventou seu famoso sistema kanban de produção JIT,* uma das regras de controle de qualidade estabelecia que qualquer funcionário na linha de produção poderia puxar a corda para interrompê-la se percebesse um problema na qualidade.54 A mesma filosofia está por trás de nosso slogan simples de três palavras do Google. Quando o engenheiro na reunião de Eric chamou o novo recurso proposto de “mau”, ele puxou a corda para interromper a produção e obrigar todo mundo a avaliá-lo e determinar se ele era consistente com os valores da empresa. Toda companhia precisa de um “Não seja mau”, uma estrela-guia cultural que brilhe sobre todos os níveis administrativos, planos de produção e políticas no escritório.

Esse é o maior mérito de possuir uma cultura bem estabelecida e compreendida na empresa. Ela se torna a base para tudo o que você e a empresa fazem; é a proteção contra o perigo de algo sair dos trilhos, porque . As melhores culturas são ambiciosas.

Para cada componente discutido quando falamos sobre Cultura no Google, damos exemplos de como honramos nossos ideais, mas também poderíamos facilmente ter comentado sobre os casos em que falhamos. . Este é o poder de uma boa cultura: ela pode melhorar cada integrante da empresa. E pode fazer esta ascender.

[Copiado do Capítulo do livro “Como o Google Funciona” escrito pelo próprio Eric Schmidt e Jonathan Rosenberg -