A ideia de pureza segundo Jonathan Franzen

Uma resenha do mais recente romance do escritor norte-americano

Franzen em palestra em 2011 na Pontificia Universidad Católica de Chile. Foto: Universidade Católica de Chile

Aos 57 anos, Jonathan Franzen é um tiozão com inquietações de tiozão, como pode concluir qualquer um que já leu seus romances — ou seus ensaios, alguns deles reunidos em Como ficar sozinho (2012), nos quais ele deplora o que considera o teatro encenado das demonstrações de afeto contemporâneas ou o caráter invasivo da privacidade alheia exposta em conversas públicas no celular. Talvez isso explique a intenção inicial que move seu mais recente romance, Pureza: uma sátira declarada à hipocrisia de boas intenções que passa de geração a geração e deságua na atual juventude militante usuária de redes sociais e admiradora dos feitos de ciberativistas como Julian Assange. E em suas primeiras páginas Franzen até consegue administrar bem o projeto, fazendo parecer que está gestando ali seu melhor livro. E é aí que as afetações de tiozão características do escritor se interpõem: Purity, a jovem protagonista, é mais um modelo de papelão do que uma pessoa de verdade e seu universo parece tão fantasioso para o desconectado Franzen que ela virtualmente é jogada para escanteio durante três quartos das extensas 600 páginas.

Mas não nos apressemos. Pureza começa enfocando a vida desestruturada de Purity Tyler, ou Pip, uma jovem recém formada cuja vida financeira está praticamente paralisada pelas dívidas contraídas com o crédito estudantil, trabalhando sem vontade em uma firma de consultoria que se vende como “desenvolvedora de soluções” para a adoção de políticas empresariais ecologicamente sustentáveis mas que, como muitas empresas desse setor na prática, consegue apenas encarecer serviços e produtos e usar o excedente para manter a própria estrutura. No melhor estilo “vida pessoal tumultuada”, Pip também é um caso digno de nota nas relações pessoais. Mora com uma comunidade de anarquistas em um prédio a ponto de ser desapropriado, está obcecada por um homem casado mais velho e é filha de uma hippie-nova-era de meia-idade que nunca a deixou saber quem é seu pai — quando perguntada, conta apenas que era brutalizada pelo marido e precisou fugir com a filha e mudar de identidade, uma história que anos mais tarde Pip vai desmascarar como emprestada de um romance.

Pip é apresentada com minúcias por uma prosa fluente (Franzen sofre diversas críticas que vão de coisas pelas quais ele tem culpa parcial, como sua autopromoção como “o grande romancista americano” ou sua já mencionada personalidade de tiozão, a coisas pelas quais ele não tem de fato controle, como a ampla vendagem de seus livros, mas que nunca se diga que seu domínio da prosa não transforma seus romances em um entretenimento facilmente navegável). Mas tanto o romance quanto a própria personagem estão empacados em um momento no qual não há movimento possível — as dívidas não desaparecerão, o trabalho continuará sendo um saco, mas sem ele, num quadro de crise, o desemprego não parece a maior opção para pagar as referidas dívidas. E a relação com a mãe, já tão estabelecida, não tem como se transformar em outra coisa sem um empurrão radical.

É um beco sem saída narrativo do qual Franzen escapa com um recurso que já havia usado antes em As correções: com uma proposta de viagem ao exterior feita por um personagem convenientemente lançado na história para sacudir seu estado de inércia. Pip é indicada, por meio da uma alemã chamada Annagret, hospedada na comuna, para trabalhar na América do Sul com o Projeto Luz do Sol, uma espécie de Wikileaks em modo turbo gerenciada por um ex-dissidente da Alemanha Oriental chamado Andreas Wolf. E a partir daí, Pip recua para o segundo plano, dando lugar a outros personagens que ocupam o proscênio em idas e vindas no tempo e no espaço. Meses depois de Pip haver aceitado a proposta de trabalhar no projeto Luz do Sol, a vemos como estagiária de pesquisa em um site de jornalismo administrado pelo casal Tom e Leila. Um casal que tem seus próprios problemas, uma vez que Tom ainda não superou os traumas de uma relação vivida mais de duas décadas antes com uma aspirante a artista instável e controladora. Somos também admitidos no passado de Andreas Wolf, com o romance fazendo um longo recuo até a queda do regime comunista na Alemanha Oriental para esmiuçar o quanto da fama de dissidente obtida por Andreas naqueles dias é ou não merecida.

Apenas nas seções finais do livro todas as narrativas dispersas se reúnem, em um grande coro de revelações que encobrem mentiras e omissões gigantescas da maioria dos personagens — muitas delas justificadas pela “pureza” das melhores intenções. Essa estrutura aparentemente dispersa que ganha unidade no conjunto não é de modo algum uma novidade no gênero romanesco, ou mesmo na carreira de Franzen — já estava presente em As correções e em Liberdade, seus trabalhos anteriores. O que ela representa aqui talvez seja o teste definitivo para a aplicação dessa estratégia no projeto literário de Franzen. Havia uma forma segura de manter a narrativa no controle nos livros anteriores porque ambos enfocavam núcleos familiares e de amizade com laços próximos forjados ao longo de muito tempo. Em Pureza, embora haja tramas familiares de importância, as relações entre os personagens são distantes, por não haver, à primeira vista, conexão direta entre eles para além do acaso (ênfase no “à primeira vista”). E para conseguir a conexão que antes o elemento familiar obtinha, Franzen unifica as passagens de seu amplo panorama lançando mão de uma trama intrincada e repleta de reviravoltas e coincidências cujo tom excessivamente “vaudeville” parece chocar-se contra as bases minuciosamente realistas construídas por Franzen ao longo de todo o romance.

Não seria nada muito problemático em um romance diferente, com uma proposta diferente. Mas para alguém tão apegado às virtudes do realismo como um retrato do mundo, tais recursos parecem mal ajambrados, incapazes de sustentar no conjunto a série de mergulhos mais ou menos aprofundados em uma determinada cena. Como se Franzen, grande observador, fosse um mestre na descrição de um determinado cenário, mas não conseguisse imaginar motivações para além do caricatural quando se trata de dar voz às pessoas criadas por ele.

Afinal, talvez seu grande projeto satírico contemporâneo não tenha, apesar da extensão de seus romances, espaço para personagens de verdade.