A música do cometa

Um conto de ficção científica de Carlos André Moreira

NOTA: Em homenagem ao fim da sonda Rosetta, anunciado nesta sexta-feira, republico aqui um breve conto de ficção científica produzido por inspiração da divulgação dos primeiros sons de um cometa, em 2014, quando a sonda e seu módulo de aterrissagem Philae fizeram contato com o corpo celeste pela primeira vez.

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Notas do diário secreto de Hart Donovan, coronel do exército britânico e adido do MI-6 junto à agencia espacial britânica. Setembro de 2035.

O público ainda não foi informado da real natureza da crise que enfrentamos — nunca é informado, na verdade–, portanto a mera existência destas anotações poderia ser considerada alta traição, mas acho inaceitável que a Humanidade marche para sua maior e talvez derradeira batalha sem ter o conhecimento real de como tudo isto começou.

Foi há mais de 20 anos. Duvido, portanto, que muitos tenham feito a correlação entre os fatos. Pelo contrário, na época o tom geral havia sido de euforia, a comunidade científica e até mesmo o público acompanhando a coisa toda em tempo real, cruzando os dedos e torcendo como em um evento esportivo. Pela primeira vez na história, um artefato espacial conseguiria pousar na superfície de um cometa. O sucesso foi comemorado como um evento histórico capaz de mudar nosso entendimento do espaço. O que estava certo, mas não do modo que se imaginava.

A sonda-robô se chamava Philae, palavra que remontava a um obelisco egípcio que fora fundamental para entendermos a escrita hieroglífica dos antigos. Um nome sinistramente apropriado quando pensamos nas questões de linguagem que nos revelaram o que estava por vir. Como objeto em si mesmo, não causava grande impressão, parecia uma maquete de edifício sobre uma estrutura trípode. Apesar disso, seus recursos eram extraordinários, com dispositivos capazes de analisar a composição da superfície, as emissões de gases, os campos magnéticos emitidos pelo núcleo do cometa, além de produzir a cada etapa imagens e som.

Logo que pousou, a Philae gravou o que à época chamamos de “música do cometa”, um conjunto de oscilações de campo magnético com frequência entre 40 e 50 mHz que muitos, eu inclusive, consideramos normal, sons produzidos pela liberação de partículas neutras no espaço. Não sabíamos a origem, mas não vimos motivos para alarme até o jovem Hubert, um dos matemáticos franceses que haviam trabalhado na criação dos sistemas de memória da sonda, submeter o som a um algoritmo de tradução de impulsos que ele próprio vinha desenvolvendo há alguns anos.

Por esse ângulo, até que tivemos sorte. Naquele tempo era mais provável que um gênio matemático em início de carreira como Hubert estivesse desenvolvendo algoritmos de programação para o Google do que trabalhando em uma agência espacial. Mas ele tinha uma visão idealista da exploração ao espaço, alimentada por doses singulares de ficção científica, e por isso estava lá no momento exato para analisar o “canto do cometa”, compartimentar seus sons e frequências em algo que pudesse ser traduzido, ainda que com ampla liberdade do conceito, em “linguagem”.

Hubert demorou meses. Nesse meio tempo, a sonda havia perdido carga 60 horas após o pouso e levara semanas para que a mudança da posição do cometa em relação ao sol a recarregasse. Com a continuidade das explorações, os dados foram ficando mais curiosos. Foi uma coincidência significativa que Hubert tenha chegado às primeiras conclusões quando a sonda finalmente se autodestruiu, como programado, chocando-se com a superfície arenosa do cometa.

Era óbvio, daquele tipo de obviedade que se torna ostensiva só depois que as peças se encaixaram. A Terra sempre foi visitada por cometas, sua trajetória elíptica garantia que muitos deles retornassem, outros pareciam visitantes fugazes que jamais seriam vistos de novo, mas o fato é que, com isso, sempre havia algum deles perto de nós. Chegamos a formular teorias de que eles poderiam ter trazido para a Terra os componentes que haviam gerado a vida no planeta. Nunca consideramos, no entanto, que aqueles simpáticos viajantes espaciais poderiam ser um sofisticado sistema de monitoramento, em ação desde tempos imemoriais. Depois que Hubert conseguiu extrair os fundamentos básicos do que se compunha a linguagem do canto de cometa, ficou claro que aquilo era um alarme, um pulso sendo enviado com uma mensagem veemente: “sistema comprometido — objeto estranho a bordo”.

Os governos cortaram a transmissão dos dados da Philae e mantiveram o que haviam obtido em sigilo por décadas. Passamos, no entanto, os últimos 20 anos nos preparando para o inevitável, criando nossos próprios sistemas de monitoramento e aprendendo o que podíamos daquilo que a sonda encontrou no núcleo. O público não foi informado. Nunca é.

As naves foram detectadas há cerca de duas semanas. Estão a caminho, mas já se aproximam tanto no espaço que seus aparelhos de comunicação interferem em nossos dispositivos de rádio e TV com um conjunto de oscilações de campo magnético com frequência entre 40 e 50 mHz. Não tenho ideia de se eles sabem que agora entendemos suas transmissões, mas sabemos, ao menos alguns de nós sabem, exatamente que preparativos estão fazendo.

Eu invejo quem acorda todos os dias sem saber.

Publicado originalmente, em uma versão bastante editada, no caderno Planeta Ciência, de Zero Hora, em 24 de novembro de 2014