As parcerias de Vinicius

Livro apresenta histórias por trás da composições do poeta carioca

O poeta e compositor Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes não era muito adepto do “preciso aprender a ser só” dos irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle. Casou nove vezes e seus trabalhos mais marcantes e conhecidos são fruto de parcerias com grandes nomes da MPB. A história da música de Vinicius é, assim, também uma crônica de suas grandes amizades, e é esse o caminho que tomam Wagner Homem e Bruno De La Rosa no livro Histórias de Canções: Vinicius de Moraes, sobre os bastidores íntimos da criação de grandes canções do poeta.

Histórias de Canções:Vinicius de Moraes é o quarto exemplar de uma coleção que teve início em 2009 com o lançamento de um volume dedicado a Chico Buarque. Wagner Homem, organizador do site oficial de Chico, decidiu escrever o primeiro livro depois de ver o grande número de perguntas que inundavam a página sobre os bastidores da composição desta ou daquela canção. Na sequência, teve origem a coleção, com volumes dedicados a Toquinho (com João Carlos Pecci, 2010) e Tom Jobim (em parceria com Luiz Roberto Oliveira, 2012). Pela mesma série, Paulo César Pinheiro já escreveu o livro de suas próprias canções. Neste volume, Homem se une ao cantor e compositor Bruno De La Rosa para registrar as histórias, causos e anedotas por trás dos grandes sucessos de Vinicius.

Pela própria natureza do projeto, o livro não traz muitas surpresas ou contribui para mudar a imagem pública que a esta altura está cristalizada no imaginário nacional sobre Vinicius. Nem seria o caso. O livro alinhava casos que mostram Vinicius no máximo de sua persona “poetinha”: o homem apaixonado, lírico, faminto de vida e de amores e que tinha a mania de nomear as coisas no diminutivo. A estrutura do livro se organiza, diferentemente de outros exemplares da série, menos por períodos cronológicos e mais pelos parceiros de composição do poeta: Tom Jobim, Carlos Lyra, Baden Powell, Edu Lobo, Francis Hime, Toquinho, entre outros.

Ao lado das letras das composições (que, na página, parecem algumas vezes um pouco desenxabidas, amputadas de seu casamento orgânico com a melodia, fazendo lembrar das considerações de Antonio Cicero sobre a natureza heterotélica da letra de música, ou seja, sem finalidade em si própria, mas na canção de que faz parte, e fazendo lembrar também as milhares de considerações recentes a respeito do Nobel concedido a Bob Dylan), Homem e De La Rosa alinhavam o contexto do período, um pouco da carreira e da biografia de Vinicius e de cada parceria e as circunstâncias e anedotas que envolvem a criação de uma música em particular. Uma delas: Vinicius se encontrou certa noite com Baden Powell em seu apartamento e passaram ambos a madrugada bebendo uísque, com o poeta enrolando para pôr letra na melodia recém apresentada de Samba em prelúdio. Quando já raiava o dia e a terceira garrafa de uísque era história, Baden Powell conseguiu por fim arrancar de Vinicius a razão de seu desconforto: a melodia, em sua opinião, era um plágio, mesmo que não intencional, de Chopin. A confusão só foi dirimida acordando-se a mulher de Vinicius, Lucinha Proença, sua quarta esposa, com quem foi casado entre 1957 e 1963, pianista e conhecedora de Chopin. Depois que Lucinha ouviu a música, veio o veredito: não era Chopin. Só aí Vinicius sentou-se para fazer a letra, não sem antes largar um teimoso “Então Chopin esqueceu de fazer essa”. A história era contada pelo próprio Baden em shows, como este.

Há mais histórias, claro. Se com Baden a parceria era regada a madrugadas de conversa e litros de uísque, com Carlos Lyra a dinâmica era outra: Lyra deixava a música registrada em um gravador na casa do poeta e este trabalhava a letra em cima. Toquinho, outro de seus parceiros constantes, havia tocado violão em um disco italiano de Sergio Endrigo com versões das músicas de Vinicius, lançado em 1970. O poeta gostou do resultado e ligou para falar com o jovem violonista, que quase desligou achando que era trote. O telefonema rendeu a Vinicius mais um grande “parceirinho”.

É um projeto saboroso e interessante, mas, em seu quarto volume, revela alguns dos problemas de se trabalhar sempre com os mesmos nomes em um universo tão interconectado como a MPB. Depois de volumes dedicados a Chico, Tom Jobim e Toquinho, é inevitável que algumas histórias deste livro repitam, com apenas ligeiras variações, coisas já contadas nos títulos anteriores — principalmente os de Tom e Toquinho, que mantiveram com Vinicius relação intensa de amizade e parceria. Por exemplo, até algumas frases são as mesmas no causo de como Toquinho conseguiu musicar a letra de Tarde em Itapoã, que Vinicius pretendia oferecer a Dorival Caymmi. Segundo contam os dois livros, com as mesmas palavras praticamente, Toquinho “numa noite, antes de embarcar para São Paulo,simplesmente pegou a letra e viajou.” Mesmo Chico, que só foi parceiro de Vinicius em seis trabalhos, passa pelo repeteco, como o episódio em que o poeta, mordido de ciúmes da parceria entre Toquinho e Chico, insistiu para que seu nome constasse na composição de Samba de Orly, apesar de sua única contribuição para a canção, a troca de um verso, tivesse sido derrubada pela censura. Para quem se interessa por um ou outro personagem isolado, não faz muita diferença. Quem pretender ler todos os volumes talvez se incomode.