Azedinhas

Um conto de Carlos André Moreira

Esta deveria ser a história de Jorge e Elisa. E de como às 14h17min de uma sexta-feira de novembro ambos trombariam um no outro no cruzamento da Osvaldo Aranha com a Felipe Camarão. Jorge dobraria a esquina, distraído, cantando em voz alta trechos de uma balada em inglês, e descreveríamos a surpresa que aquela alegria obscena provocaria em Elisa, caminhando séria na direção contrária, pensando no pré-datado emitido quase dois meses antes na compra de um livro e que ainda não aparecia no extrato retirado na agência bancária exatos quatro minutos antes.

E esta narrativa mostraria com o engenho possível o sorriso perplexo de Elisa ao ver Jorge entoando desafinado algo que poderia ser stars ou start, o reconhecimento da palavra dificultado pela inflexão de cursinho pré-vestibular do inglês deficiente dele. E aqui se contaria também como Elisa murmuraria um quase inconsciente “tá bom”, olhando diretamente para os olhos cor de borra de café de Jorge. E ele, retirado de seus devaneios musicais pela expressão inesperada daquele rosto louro-esmeralda, perguntaria, abrindo um sorriso de 350 dentes, se ela gostava da canção.

Seria possível que a partir daí a história se detivesse por alguns segundos no diálogo travado pelos dois entre os ruídos do tráfego e as cotoveladas dos demais pedestres, nada muito longo, apenas o suficiente para que ela admitisse não conhecer a música, e ele diria também não fazer a menor ideia, mas contaria que a ouvira no rádio quando dirigia para o Centro e gostara da melodia.

E, para fins de economia narrativa, provavelmente seriam suprimidas as frases seguintes, apenas se diria que ela talvez elogiasse a maneira como ele estava reproduzindo uma música estrangeira escutada uma única vez. E ele quem sabe dissesse ter bom ouvido e péssima pronúncia, e a partir daí seria suficiente contar que ele, subitamente encorajado, pediria o telefone de Elisa. E ela, impressionada pelo oceânico sorriso que tornava até simpático o rosto anguloso e quase feio de Jorge, passaria o número de seu celular, para sua própria surpresa.

E pulando as inevitáveis e naturais hesitações sobre ligar ou não, poderíamos contar nesta história que ele telefonaria sim no dia seguinte, a convidaria para almoçar no domingo, e ela recusaria alegando compromissos familiares envolvendo duas irmãs e uma sobrinha, pelo que ele conseguiria entender. Mas ficariam acertados para um cinema — na noite de terça-feira para aproveitar o ingresso mais barato. E talvez neste ponto se acelerasse a narrativa, bastando informar que eles teriam assistido ao mais recente de Almodóvar (ela adoraria, ele acharia uma bosta, mas não seria tão enfático para não causar má impressão) e mais tarde teriam comido um cachorro-quente em uma esquina da Cidade Baixa e ele a deixaria na porta de casa, em Teresópolis. E neste ponto seria essencial informar que eles se beijariam no carro naquela mesma noite, mas só viriam a transar dois encontros mais tarde, no apartamento dele, na Tristeza, ocasião em que Jorge finalmente comprovaria que as nádegas redondas sob a calça de tecido branco vaporoso eram também macias e quentes. Deitada na cama de lençóis trocados naquela manhã, Elisa o receberia ansiosa enquanto ele, meio desajeitado pela ansiedade na boca do estômago, confundiria velocidade com potência, e ambos demorariam a encontrar um ritmo satisfatório, e mesmo quando a sincronia já fosse uma realidade úmida de suor sobre a cama desfeita, ela só gozaria quando ele se dispusesse a completar o serviço com a boca, 20 minutos mais tarde.

Chegando a este ponto, nosso relato divagaria sobre as delícias que ambos experimentariam ao construir gradativamente uma intimidade de equívocos e coincidências inacreditáveis, e sobre como após três meses resolveriam se assumir como casal, e falaríamos do nervosismo ingênuo com que ela conheceria os pais dele, e do tédio discreto com que ele seria apresentado à mãe e às irmãs dela. E saltaríamos no tempo até um ano e meio após o primeiro encontro, quando eles já estariam dividindo apartamento e desfrutando suas primeiras férias conjugais no Nordeste, destinadas à ruína devido a uma violenta indisposição estomacal que ele apresentaria depois de comer um baião-de-dois muito apimentado, responsável pelo retorno mais cedo depois de três dias de Jorge convalescendo no quarto do hotel.

E talvez, para ser honesta, esta história devesse seguir Jorge e Elisa por mais quatro meses após as desastradas férias, quando uma discussão se iniciaria em um shopping e os acompanharia no carro transformada em silêncio enjoativo acondicionado entre as sacolas de compras no banco traseiro. E narraríamos como a tensão entre eles explodiria em discussão e posterior sexo amargo depois do jantar de arroz, bife e purê de batatas (ela comeria pouco e ele não tocaria em quase nada). E ainda seminus no meio da sala onde haveriam acabado de trepar vingativamente — ela ofegante de pernas abertas sobre o sofá e ele soluçando jogado no tapete, com as calças nos tornozelos — não precisariam se olhar para decidir, ainda meio perplexos, que seria hora de terminar tudo. E contaríamos como ele sairia de casa levando pouca coisa — decisão de que se arrependeria a cada uma das sete vezes em que precisaria voltar ao antigo apartamento para buscar uma caixa com 47 CDs e cinco vinis, 14 livros, um blusão de lã amarelo puído no cotovelo direito, uma calça de abrigo, três camisetas e quatro moletons. E talvez isso fosse o bastante para contar esta que deveria ser a história de Jorge e Elisa.
 
Deveria. Mas o fato é que às 14h13min daquela sexta-feira de novembro, enquanto Elisa deixava a agência bancária conferindo distraidamente o extrato, Jorge parou a metros de distância, ao lado de um homem que vendia doces em um tabuleiro na calçada da Felipe Camarão e comprou um saco de azedinhas, e gastou certo tempo até abrí-lo e catar na embalagem a bala totalmente vermelha que enxergava quase no meio do pacote. E ao saborear o confeito, ele resolveu mordê-la e ela se revelou mais dura do que ele havia esperado e quebrou na metade o incisivo à direita do canino esquerdo superior, enviando uma sensação de dor gengiva acima que atravessou o crânio como um fio elétrico desencapado, fazendo-o retorcer o rosto em uma das caretas de dor mais feias que Elisa lembraria de já ter visto enquanto cruzava por ele. E ela desviou do sujeito magro com cara monstruosa e seguiu em frente, atravessando a rua em direção ao trabalho.

Jorge e Elisa não se veriam mais. Chegariam a estar bem próximos durante um show no Anfiteatro Pôr do Sol, mas não reparariam um no outro.

Publicado originalmente no 10º número da Revista Coyote (dezembro de 2005)
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