Ismail Kadaré e o amor por acidente

Uma resenha do autor albanês para torcer por ele no Nobel deste ano

Nota: como saberemos logo quem será o Nobel de Literatura, e Ismail Kadaré, para variar, NÃO deve ser agraciado novamente, embora leve minha torcida, republico aqui uma resenha que escrevi para um de seus romances lançados há alguns anos no Brasil, O Acidente (Tradução de Bernardo Joffily. Companhia das Letras, 232 páginas, R$ 47).
Ismail Kadaré durante uma leitura literária em Zurique. Foto: Lars Haefner, Wikicommons.

Sabe-se que em literatura o mote não passa justamente disso, um ponto de partida ao redor do qual os grandes e os não tão grandes ficcionistas tecerão suas teias narrativas. Portanto, dizer que O Acidente, novo romance de Ismail Kadaré, começa com um desastre de automóvel é pouco. É na condução do livro que Kadaré torna seu o mote – e, o que mais surpreendente para quem é familiarizado com suas obras desesperançadas, como O general do exército morto ou Abril despedaçado: tece uma história de amor, ainda que amarga.

À primeira vista o título não poderia ser mais explícito. O “acidente” está descrito na primeira cena: um táxi sai da pista em uma autoestrada de Viena, a caminho do aeroporto. O casal sentado no banco de trás morre. Ele, um sérvio chamado Bessford Y. Ela, uma albanesa de nome Rovena St. E o que provoca o acidente é a cena perturbadora testemunhada pelo taxista, único sobrevivente: ao olhar pelo retrovisor, o homem perde a concentração porque os dois “tentaram se beijar”.

Há um quê de absurdo nesse mote, um absurdo reconhecido pelo desenrolar do romance, composto de cartas, fragmentos de diários, relatórios e de uma narrativa descarnada, clínica, que passeia um tanto perplexa pelos eventos. O acidente, depois de investigado de modo protocolar pelas autoridades policiais, passa a ser alvo de interesse minucioso dos serviços secretos de Albânia e Sérvia. Depoimentos são retomados, testemunhas são ouvidas, correspondências são analisadas, tudo para esmiuçar a natureza da relação que unia Rovena, bela jovem suspeita de prostituição, ao misterioso Bessford, cujas associações políticas na Sérvia o colocam sob suspeita e atiçam o interesse pelos seus passos durante a já longínqua Guerra dos Bálcãs, nos anos 1990.

Embora o resumo algo empobrecedor da trama a aparente com um romance de mistério, não é um enigma policial o que Kadaré constrói em O Acidente. O caso passa pela mão de sucessivos investigadores, mas sempre conduz a uma encruzilhada — representada até na inicial do sobrenome de Bressford: Y. É um mistério o que unia os dois personagens, ela, “bela e branca”, e o sombrio
homem com quem mantém encontros clandestinos por “cerca de quinhentas
semanas”.

É no alinhavar dos diferentes elementos tão característicos de sua prosa que Kadaré transforma o mote inusitado em um romance plenamente seu: estão lá a paranoia da autoridade, os movimentos clandestinos de toda uma rede repressiva destinada a manter o controle das individualidades e até mesmo o brutal pessimismo (a ninguém passará despercebida a circunstância de que o romance inteiro é a arqueologia de uma história de amor, e não a própria história, e só começa no momento em que a relação dos dois protagonistas termina em tragédia).

Mas mesmo nesse pessimismo reside uma triste redenção: a da impermeabilidade do sentido mais íntimo da história de amor dos dois personagens, ilesa às maquinações da estrutura de vigilância — ao ponto de o leitor se perguntar, continuamente, se o título enganosamente simples O acidente se refere ao desastre da primeira cena ou ao encontro dos amantes em algum momento além do tempo da narrativa.