João dos Livros: o livreiro amoroso

Uma homenagem a um homem simples que fez dos livros ofício e identidade

O livreiro João dos Livros em sua Garagem dos Livros, no centro de Porto Alegre. Foto: Jean Schwarz, ZH
Durante a Bienal do Mercosul de 2011, uma das atrações da mostra foi o projeto Cidade Não Vista, uma série de intervenções de artistas em lugares de Porto Alegre. Cada obra buscava fazer a população olhar com uma mirada menos automática a coisas que pareciam estar sempre ali. Lembro que havia umas caixas de som instaladas no jardim do Palácio do Piratini e uns tubos de vento colocados embaixo do aeromóvel. Também ali por perto, a artista Elida Tessler “tomou posse” de uma livraria, um simples espaço em uma garagem em que o seu “João dos Livros” mantinha um mistura de sebo, livraria, sapataria e ateliê de costura (explicaremos melhor adiante).
Senhor João era uma figura fantástica, que estava ali não apenas para vender livros, mas para conversar sobre eles, e por isso organizava um sarau literário periodicamente para receber a presença de outros leitores como ele. Como parte da equipe do Segundo Caderno que cobria a Bienal, fui escalado para ir até lá e conversar com ele. Fomos eu e o fotógrafo Jean Schwarz, que produziu lindas imagens num espaço que era quase uma fábrica de doces imagética, tão rico e cheio de ângulos. O artigo resultante, publicado na edição de 19 de setembro de 2011, falava, como não podia deixar de ser, da arte que estava sendo apresentada na livraria, mas principalmente daquele personagem memorável. Descobri seu João ali, e muitas outras vezes voltei à Garagem dos livros depois disso — embora, infelizmente, não no último ano, absorvido por essa corrida da vida.
Fiquei sabendo ontem, dia 14, que o seu João dos Livros morreu. Como homenagem, republico aqui aquele texto no qual eu dividia com os leitores o personagem fascinante que havia tido o privilégio de conhecer.
Recorte da capa do Segundo Caderno de 19 de setembro de 2011, com a reportagem em sua versão original

O LIVREIRO AMOROSO

Apesar dos letreiros pintados na fachada, o lugar é pequeno e discreto, fácil de ser ignorado por quem passa por ali na pressa motorizada de todos os dias. As paredes da casa térrea na Rua General Salustiano, 214, no Centro, protegem uma história de vida de 72 anos marcada pela descoberta e pela paixão dos livros. Uma trajetória tão rica que, se não virou um romance, inspirou uma obra de arte desta 8ª edição da Bienal do Mercosul.

O prédio da General Salustiano aloja o sebo Garagem dos Livros, instalado ali há dois anos por João de Souza Machado. Em estantes que ocupam todas as paredes, seu João dos Livros, como ele mesmo se denomina, mantém exemplares antigos de obras literárias, manuais técnicos, enciclopédias e uma grande quantidade de literatura de temas esotéricos. O espaço da livraria, localizado bem defronte os pilares do aeromóvel e a Usina do Gasômetro, foi apropriado pela Bienal com uma intervenção de Elida Tessler, que transformou o lugar em obra de visitação artística — o que fez de seu João anfitrião informal dos que aparecem na livraria para testemunhar ao vivo o encontro entre livraria e galeria de arte.

– Tem vindo um pessoal bacana. Entram, dão uma olhada, perguntam o que tem aqui da obra da dona Elida, e eu explico. Eu sou muito conversador, não tenho medo nem vergonha de puxar conversa – diz seu João.

E a Bienal não poderia ter melhor mestre de cerimônias. Magro e rijo, de aparência mais jovem que os 72 anos de sua idade, seu João é um conversador rico em causos e em estilo para contá-los. Com uma memória prodigiosa tanto
para as leituras quanto para os episódios da própria vida, ele entretém seu interlocutor com histórias da infância em Tapes, onde nasceu, das diversas atividades que exerceu, das muitas amizades que fez. Ele já foi plantador de arroz, servente de pedreiro, auxiliar de serviços gerais, sapateiro, mas foi como livreiro que garante ter finalmente realizado uma vocação que o
encontrou desde que aprendeu a ler, com a ajuda de um vizinho, sem frequentar a escola,em Tapes.

– Já tive mais de 20 profissões, mas os livros sempre ocuparam uma parte importante da minha vida, eu sempre gostei de comprar e juntar livros. Os livros me proporcionaram encontros fundamentais na minha vida — diz.

Embora a livraria exista há apenas dois anos, seu João vende livros desde 1999 — ofício ao qual se dedicou depois de seguir o conselho de um amigo para diminuir a vasta biblioteca que havia montado ao longo de sua trajetória. Mantinha uma sapataria no bairro Cristal e, nos fins de semana, se deslocava para a Usina do Gasômetro,com caixas de livros no bagageiro de um automóvel Gol ano 1985 — o carro é o mesmo até hoje. Vendia os livros em uma banquinha na feirinha do Gasômetro e acabou fazendo amizades no
bairro, incluindo a do dono da casa para onde se mudou em 2009 para fazer do espaço ao mesmo tempo casa e livraria.

– Até aquela época eu ainda mantinha a sapataria. Agora fiquei só com a livraria, mas ainda faço uns serviços para os clientes da dona Irene ali.

Dona Irene é a terceira mulher de seu João. Foram casados de 1983 até 2008 — depois disso, ele ainda se casaria e se separaria uma quarta vez. Ambos têm um acordo pelo qual ela mantém sua oficina de costura na Garagem dos Livros e atende os fregueses dele na livraria, enquanto Seu João conserta sapatos e solados para os fregueses dela.

– Escrevi um livro de poesias certa vez chamado Sete mulheres, em que eu homenageava grandes mulheres, grandes amizades que passaram pelo meu caminho. Minha mãe, uma senhora de Tapes que me convidou para um grupo de leitura quando eu ainda lia mal e mal, é outra. E a Dona Irene, claro.

A transformação de leitor apaixonado em livreiro passou também pela identidade de leitor — que seu João faz questão de partilhar com seus fregueses. As paredes são decoradas com fotos e cópias de retratos de autores agrupados por nacionalidade. Sobre a porta para o corredor ao fundo, os alemães. Brasileiros na coluna à esquerda de quem entra, ao lado dos ingleses. Há um espaço ainda vazio.

– Ali vou fazer o cantinho ibérico. E por ora, no lado dos italianos, tenho só o
Papini. Mas ainda tenho tempo.

ORFEU NA GARAGEM

A livraria de seu João, defronte a Usina do Gasômetro, tornou-se a única da Capital incluída no módulo Cidade Não Vista, da 8ª Bienal. No projeto, artistas convidados realizam intervenções e instalações em uma paisagem local muitas vezes ignorada por seus habitantes na correria da rotina. O trabalho serviu também para aproximar seu João de dois novos amigos, a artista Elida Tessler e o professor e tradutor Donaldo Schüler.

– São duas grandes aquisições a essa altura da vida.

Elida foi apresentada à garagem dos Livros por Fernanda Albuquerque, uma das curadoras assistentes da Bienal. Foi ao local pela primeira vez em fevereiro, apresentando-se, de início, como uma frequentadora comum. Mais tarde, levou até lá Donaldo — seu colaborador na obra que pretendia apresentar na Bienal.

– Eu fiquei fascinada. Eu vinha muito para esta parte da cidade e conhecia o Gasômetro, mas nunca havia reparado na livraria antes — diz a artista.

Para modificar a loja, Elida imprimiu com técnicas de serigrafia 137 exemplares de livros com páginas inteiramente pretas,e os posicionou em prateleiras ao fundo da loja, junto a enciclopédias. Cada um desses exemplares traz, impresso em tinta prateada, um único poema de Donaldo em uma página no interior do livro — o número está na lombada, o que não torna a procura mais fácil nas folhas pretas sem numeração. Os poemas são uma releitura de Donaldo, tradutor de clássicos como Ifigênia em Áulis e Odisseia, do mito do herói grego Orfeu, o poeta que desce aos infernos para buscar sua amada, aprisionada no reino dos mortos. O professor teoriza:

– O sebo também é um reino dos mortos. São livros muitas vezes oriundos de coleções de pessoas mortas,em edições fora de circulação. O sebo reúne livros mortos e às vezes alguém os resgata da morte, como Eurídice.

UM LAR ENTRE OS LIVROS

Seu João no corredor que leva da garagem, área principal da livraria, à cozinha de sua casa. Foto: Jean Schwarz, ZH

Seu João não é apenas um homem que vende livros, ele mora com eles — os aposentos nos fundos da casa são sua residência. Os fregueses que avançam pelo o corredor ao fundo da garagem, setor principal da livraria, vão parar na cozinha. O fato de ter começado sua livraria com um bom número das obras que ele próprio tinha — e já lera — fez de seu João um tipo de atendente raro de encontrar nas megastores da vida: um erudito autodidata.

Outra parte da intervenção de Elida Tessler na Garagem dos Livros foi espalhar pelas estantes etiquetas de identificação, feitas em impressora e cobertas por uma plaqueta de acrílico. As pretas fazem parte da obra da artista na loja — intitulada Ist Orbita — e trazem todos os nomes citados nos poemas de Donaldo Schüler nos livros pretos (o próprio título vem da tradução do intelectual para o Finnegans wake de Joyce). As brancas são versões das que o próprio Seu João havia feito a mão para a loja.
Elas agrupam as obras seguindo as preferências do dono: há etiquetas específicas para os autores que mais ocupam as estantes, como John Steinbeck, Catulo da Paixão Cearense ou Humberto de Campos.

– O Humberto de Campos é autor de uma obra maiúscula, não sei por que hoje está esquecido e dele se fala tão pouco.

Seu João tem as opiniões formadas por anos de leituras. Para ele, José de Alencar, um dos clássicos escolares do Brasil, era muito melhor poeta do que romancista. Já Machado, mestre da prosa, era poeta irregular, o que não impede que seu João considere o poema Uma criatura (escrito em tercetos, como A divina comédia, de Dante) o suficiente para alçar Machado ao topo.

– Mesmo se ele não tivesse publicado romance algum, só com esse poema ele já seria um gênio — diz o livreiro, buscando o livro na estante para recitar os versos.

Seu João também organiza um sarau às segundas sextas- feiras de cada mês.A Bienal também pensa em fazer um em breve, com a presença de Donaldo.

Até lá, a garagem, com seus livros antigos e o mais gentil dos anfiitriões, espera sua visita, diariamente, das 9h às 21h.