“O louco do Cati”, um romance oral de Dyonelio Machado

Ditado em vez de escrito, livro do autor gaúcho tem uma musicalidade exótica que traduz na forma a desorientação insana de seu protagonista

Capa bonita, não?
…Era pequeno. Uma tarde. Caía o Sol. Gente, muita gente. Quase toda a população da cidadezinha. A cadeia (a “Cadeia Velha”) era um edifício raro. Velho, tinha uma espécie de sótão, que o distinguia das casinhas baixas da cidade e era como um remanescente duma edificação anterior, suntuosa, que devia ter existido, num passado misterioso e irreal. 
Ele estava com a mão fria e tremendo presa à mão da mãe. Todos, ali defronte da Cadeia, comentavam e esperavam. E quando o homem esquálido surgiu no terreno da frente (ela era metida para dentro), reatado em cima do cavalo, as mãos amarradas às costas, guascas maneando as pernas por baixo da barriga do animal, e vociferando numa revolta ao mesmo tempo enfática e triste, ele quis saber, saber! Já um pelotão de soldados o rodeava. Era a escolta.
- O que é que eles vão fazer com o homem, mãe?
- Psiu! Vão matar ele lá no Cati.

O Cati é o mal, a morada do demônio. Mas como fugir do Cati quando se leva o Cati na alma? É essa a questão a ser enfrentada pelo perturbado protagonista de O louco do Cati, considerado por muitos a obra-prima do escritor gaúcho Dyonelio Machado. O louco do Cati narra a história de um homem sem nome, sem passado e com poucas frases ditas ao longo das 270 páginas do romance. Sem personalidade definida e conhecido apenas por nacos oníricos de seu passado distribuídos aos poucos na narrativa, o “maluco” embarca em um bonde, vai até o fim de linha, tenta trocar uma nota antiga em um bar e acaba sendo levado por um grupo de jovens a uma excursão feita de caminhão pelo litoral. Quando os demais retornam, o louco segue acompanhando um deles, o malandro Norberto, até ambos serem detidos sem razão aparente em Santa Catarina. Daí, são levados para o Rio de Janeiro e amargam a cadeia. Solto, o louco refaz o trajeto até o Rio Grande do Sul terminando, de modo fantástico, no Cati, em Santana do Livramento, na fronteira com Uruguai.

A jornada do louco nos planos de Dyonelio

Meticuloso, Dyonelio fez o planejamento da viagem desenhando um mapa com percurso do protagonista e o tempo que cada passo do trajeto demandaria. Se, como querem alguns teóricos, o maior objetivo da literatura é causar estranheza, O louco do Cati é literatura em alto grau. O livro intriga desde a primeira linha, tanto na história narrada em clima de tédio e pesadelo quanto na forma. O louco do Cati não foi escrito. Muito doente depois de haver conhecido as prisões do Estado Novo, em 1941, Dyonelio ditou o romance a sua filha, Cecília. O escritor sentia-se alquebrado pela experiência do cárcere e acreditava não ter condições de pôr no papel a história que havia imaginado enquanto esteve preso.

Essa origem inusitada transparece no andamento do texto. Dividido em capítulos curtos, O louco do Cati é narrado de forma áspera, intercalando em uma melodia esquizofrênica frases curtas, espasmódicas, com sentenças mais longas. A oralidade da história está também presente na linguagem coloquial e repleta de expressões e gírias — algumas delas de sabor passadista. Minha primeira leitura desse livro se deu aos 16 anos, de um exemplar da edição antiga da Ática emprestado da Biblioteca Pública de São Gabriel (a capa, que vocês veem acima, era horrorosa, mas não deixava de, a seu modo, preparar o leitor para o desconforto que se seguiria). Era um verão quente como o inferno e a leitura coincidiu com uma gripe fora de época que me derrubou e me deixou de tal modo zonzo que a leitura pareceu correr em um tom de sonho, mais como se eu tivesse sonhado o absurdo da narrativa em um delírio de febre em vez de de fato lê-lo. Eu não conseguia entender muito bem qual era a daquele louco, e minha impressão também não foi das melhores, ele parecia ir muito bem até uma parte e depois simplesmente parecia não fazer mais sentido, embora continuasse sendo muito eficiente em transmitir com aquelas frases de andamento irregular um mal estar que eu já não sabia se era da gripe ou daquela prosa febril.

Tive a chance de reler o livro anos mais tarde quando ele foi reeditado pela Planeta (em uma edição que ainda deve se encontrar em sebos ou na Estante Virtual, a capa era bem mais elegante, branca com a metade superior ilustrada com um quadro de Iberê Camargo) e aí pude reencontrar algumas daquelas imagens e cenas que eu sabia serem do livro mas que pareciam não ter nada a ver com o que eu me lembrava. E tudo fez muito sentido, mesmo continuando não fazendo, consigo me explicar? Não foi a primeira vez que a releitura de um livro que li na adolescência me provava que eu não havia entendido nada, entre outros motivos porque não tinha muitas das referências.

A região do Cati (um dos sete distritos da cidade de Santana Livramento, na fronteira do Uruguai, nomeado assim por causa do arroio homônimo) ganhou celebridade na história gaúcha devido à atuação feroz do caudilho João Francisco Pereira de Souza nos combates da revolução de 1893. João Francisco castigou os derrotados da insurreição com violência, apelando para o bárbaro recurso da degola. Sutil, Dyonelio criou no romance uma atmosfera de mal-estar associando as lembranças esparsas que o louco tem de sua infância, passada sob o terror do coronelismo na região, e a ditadura Vargas, retratada e sempre presente, mas nunca mencionada. Publicado em 1942, o romance recebeu a aprovação entusiasta de Mario de Andrade, Guimarães Rosa e Erico Verissimo, mas foi tratado com desdém pelo restante da crítica. Só foi redescoberto depois de relançado, em 1979, o que renovou o interesse pela obra de Dyonelio. O livro, contudo, apesar de seus grandes méritos, padece de intermitências editoriais. Depois de anos fora das livrarias, foi reeditado em 2004 pela Planeta, e já está de novo esgotado.