Os náufragos da História e a compaixão de Vassili Grossman

Uma resenha de “A estrada”, do autor e dissidente russo

Capa da edição brasileira de “A estrada”

Dada a energia que a União Soviética empregou ao longo do século 20 para silenciar os escritores “contrarrevolucionários” (senha para “ideologicamente inconvenientes”), o caso de Vassili Grossman (1905–1964), um dos autores mais sistematicamente proibidos do regime, não é, infelizmente, incomum. Incomum é o fato de que a melhor parte de sua obra tardia, suprimida, proibida e ameaçada de destruição durante toda a vigência do Império Soviético, tenha de algum modo sobrevivido e alcance hoje ressonância internacional — apenas para fins de comparação, é doloroso pensar no grande número de manuscritos de Isaac Bábel (1894–1940), incluindo várias novelas e contos inéditos, queimados pela KGB na sequência de sua condenação durante os grandes expurgos de Stálin.

Grossman é o autor de Vida e destino, romance monumental que, inspirado desde o título por Guerra e Paz, de Tolstói, recompõe a escala humana das dificuldades enfrentadas pelo povo russo durante os embates da II Guerra, em um carrossel de vozes que vão dos campos de prisioneiros nazistas ao front desabastecido, passando pela burocracia desumana a que estavam submetidos os cidadãos nas sitiadas cidades. O livro constava como obliterado, mas apareceu e foi publicado em 1980, e se tornou um romance consagrado após a queda do comunismo soviético. Publicado finalmente no Brasil em 2014, o livro abriu caminho para outros trabalhos do autor, como os contos, ensaios e reportagens reunidos no volume A estrada (Tradução de Irineu Franco Perpetuo. Objetiva, 336 páginas, R$ 54,90).

Compilados pelo tradutor inglês da obra, Robert Chandler, e pelo especialista russo Yuri Bit-Yunan, os textos vêm distribuídos em cinco seções, abrangem desde Na cidade de Berdítchev, publicado em 1934, uma das primeiras obras de Grossman a angariar reconhecimento crítico (merecido, comprova a leitura dessa poderosa reflexão sobre o dilema revolução-vida familiar que afligiu parte dos mais fervorosos soviéticos), até cartas de despedida que escreveu para a mãe já morta havia muitos anos (fuzilada pelos nazistas em 1941, com outros 12 mil judeus, na Berdítchev natal do autor).

Sobressai nos contos, desde os poucos do início da carreira até os mais tardios, o caráter compassivo da prosa de Grossman. Ao contrário da fascinação com a violência revolucionária que permeia desde um autor plenamente alinhado com os soviéticos, como Máximo Górki, até uma vítima do regime, como Bábel, Grossman se preocupa menos com os grandes tornados da História do que com as vidas que adernam à sua passagem. Não é à toa que ele tenha sido um dos primeiros, já em novembro de 1944, a retratar o horror de um campo de concentração nazista, em O inferno de Treblinka, também incluído neste volume:

Em pouco tempo, havia na praça de três a quatro mil pesoas, carregadas de sacos e malas, amparando os velhos e doentes. As mães seguravam os filhos nos braços, as crianças mais velhas se aconchegavam aos pais, olhando em volta. Havia algo de perturbador e sinistro nessa praça pisada por milhões de pés humanos. A vista aguçada das pessoas captava detalhes inquietantes; no chão varrido às pressas, evidentemente poucos minutos antes da chegada do grupo, viam-se objetos abandonados: uma trouxa com roupas, malas abertas, pincéis de barbeiro, panelas esmaltadas. Como tinham ido parar lá? E por que logo atrás da plataforma da estação acabava a ferrovia, crescia uma grama amarela e se estendia uma cerca de arame farpado de três metros de altura? Onde estavam os caminhos que levavam a Bialystok, Siedlce, Varsóvia e Wojkowice? E por que os novos guardas sorriam de maneira tão estranha ao fitar os homens ajustando as gravatas, as velhas esmeradas, os meninos de casaco de marinheiro, as meninas magras que conseguiam manter a roupa asseada depois da viagem, as jovens mães que carinhosamente ajeitavam as mantas de seus bebês? Todos aqueles Wachmänner de farda negra e suboficiais da SS pareciam arreeiros do rebanho à entrada do matadouro. Para eles, o grupo recém-chegado não era de gente viva, e sorriam sem querer ao ver as manifestações de pudor, amor, medo, preocupação com os próximos, com as coisas; divertiam-se com as mães repreendendo e arrumando os casacos dos filhos que tinham se afastado alguns passos, com os homens enxugando a testa com um lenço de bolso e fumando cigarros, com as moças ajeitando os cabelos e segurando as saias assustadas quando vinha uma lufada de vento. Divertiam-se com os velhos tentando ficar sentados nas maletas, com alguns que carregavam livros debaixo do braço, com os doentes protegendo o pescoço. (páginas 133 e 134)