Especial || 4ª Feira de Cinzas

Carnavalhame
Nov 4 · 5 min read

Para alguns é privilégio poder voar no céu de um Brasil de promessas — de progressos e avanços insaciáveis e de desenvolvimento assumido. Para outros, e tantos outros, integrantes de um cenário à margem do espírito de evolução tropical vendido tabloide afora, o privilégio não passa de uma palavra presente no dicionário.

Percepção aguçada e pleno domínio de fala são as ferramentas mais notáveis que a banda 4ª Feira de Cinzas dispõe para se movimentar e mostrar contextos de corrupção, denunciar descasos, apontar cenários onde o privilégio não tem vez e a negligência de políticas públicas mostra-se capaz de mudar em definitivo o curso dos dias de um número incontável de gente. A banda, cujo trabalho apresenta sonoridade singular, marca a pele de quem cruza seu caminho ao explorar movimentos e timbres diversos, indo do samba de bumbo ao afrobeat, do rock and roll ao ethio jazz. É assim que 4ª Feira de Cinzas combate a hegemonia rítmica e eleva o experimentalismo nacional à outro patamar.

É pelas cidades de Pirapora do Bom Jesus, Santana de Parnaíba, Barueri e Embu das Artes que os integrantes da banda moram e aproveitam a diversidade geográfica para colocar luz nas diferenças, buscando inspiração nos detalhes do cotidiano, provando assim que a veia para a pluralidade é de natureza ainda mais ampla. 4ª Feira de Cinzas carrega em seu histórico a passagem por importantes palcos brasileiros, como SESC, SESI, CCBB, Virada Cultural, Festival de Inverno de Paranapiacaba, Festival Candeia, Cooperifa, Centro Cultural Rio Verde entre outros.

A banda lançou o seu primeiro EP, “7 Léguas”, disponível nas plataformas de streaming, em 2018, o single “Linha Amarela”, uma crítica bem-humorada sobre a demora na construção do Metrô de São Paulo. Para 2020, está finalizando dois singles, produzidos por Décio 7 e mixados por Bruno Buarque — conta.

4ª Feira de Cinzas participa do tributo a Marcelo Yuka, parte da 4.ª edição do projeto lítero-musical Carnavalhame.

4ª Feira de Cinzas sob as cores do cotidiano

Carnavalhame entrevista

1. Podem nos contar um pouco sobre a trajetória da banda?

A 4ª Feira de Cinzas completou em 2019, 7 anos de existência, desde a formação que solidificou o projeto. No entanto, a cerne da banda fora iniciada um ano antes, em 2011, nas oficinas de musicoterapia ministradas pelo Miromar Cintra Jr. no Instituto Sufrutuverdeus, que foi o berço da banda, na cidade de Santana de Parnaíba. No decorrer dos anos nos apresentamos na Virada Cultural, SESI, Centro Cultural Rio Verde, COOPERIFA, Festival de Inverno de Paranapiacaba entre tantos outros.

2. Quais eram os planos no início de carreira? O que mudou?

Partindo da premissa criativa experimentalista underground, começamos a explorar sonoridades regionais, como o Samba de Bumbo, Batuque de Umbigada, Jongo — ritmos estes até então restritos à eventos tradicionais além do famigerado carnaval de rua de Santana de Parnaíba — misturando com influências externas comuns entre os integrantes como Ethio jazz, Afrobeat, Cumbia e o Rock and Roll. Ao longo do tempo e do amadurecimento coletivo e individual, começamos a absorver e tender à sonoridades mais urbanas, eletrônicas, adicionando novas cores de possibilidades de som, e uma outra parcela de público.

3. Podemos dizer que 4ª Feira de Cinzas é uma banda experimental? Por que?

Com certeza. Desde a criação da banda, até o momento atual, o processo criativo inicialmente é tomado pelo experimentalismo. Um garimpo de ritmos, harmonias, timbres. O experimentalismo é a liberdade musical que nos é comum. É buscar certezas coletivamente, em meio ao desconhecido.

4. Que tal compartilharem conosco um pouco sobre as referências e inspirações que marcam o processo criativo de vocês?

Como citado temos uma influência grande de Ethio jazz como o Mulatu Astatke, Samuel Yirga, obviamente de música brasileira também das mais antigas, tradicionais, às novidades, como Jorge Ben, Elis, Caetano, Gilberto Gil, João Donato, Azymuth, Geraldo Filme, Clara Nunes. Flertamos com sonoridades orientais, caribenhas, pop e tudo que nos for aprazível. Nos aquecimentos dos ensaios mais despretensiosos e criativos, geralmente aquecemos improvisando, e quando surge algo interessante, vamos lapidando e organizando mais efetivamente a proposta sonora e não raramente, tornam-se canções consolidadas.

Foto: Anne Rocha

5. Recentemente Milton Nascimento afirmou que “a música brasileira está uma merda”. O que acham sobre?

O mercado fonográfico nacional está praticamente monocromático e aponta um foco gigantesco mirando apenas neste Neo-Sertanejo, Funk, que numa infeliz maioria possui músicas de conteúdos duvidosos. Este holofote visando apenas imediatismo e lucro deixa na penumbra a riqueza cultural que temos tão prolífica e plural no país. Mas a música boa irá perdurar e adentrar na brecha da rocha sólida do pífio interesse comercial, e projetos honestos com a arte nunca deixarão de brotar.

6. Existe uma fórmula para que uma banda autoral e independente sobreviva no Brasil? O que de fato é necessário?

Obviamente não existe uma fórmula eficaz pois cada projeto possui ideias e integrantes distintos, mas acredito que para sobreviver certos conceitos devem ser aplicados, como proposta do projeto, frequência de shows e a unidade entre seus envolvidos. Um projeto musical sólido segue preceitos de empresas comuns, a 4ª Feira levou muitos anos para entender isto organicamente, e é imprescindível este entendimento por parte de todos integrantes, infelizmente leva muito tempo aprender na marra (risos).

Fundamentalmente a base é a organização nos processos criativos, ensaios, manutenção de equipamentos e eficácia em captar recursos e shows, um ciclo empresarial com base na natureza quase mística da criação.

7. Em termos de música, o que é o mais importante para vocês?

Ela mesma. A música é o catalisador de toda parte positiva do projeto, desde a junção de todos os integrantes, o arrepio gerado num ensaio causado por alguma boa frase melódica, até o êxtase fulguroso de estar em cima do palco e ver pessoas dançando ao som que tocamos. A boa música é o foco da 4a Feira de Cinzas e a música, a religião de seus integrantes.

Foto: Anne Rocha

8. Qual a conexão entre o Yuka e a 4a Feira de Cinzas?

O Marcelo Yuka é uma grande referência individual e coletiva dentro do projeto, suas músicas e mensagens são grande influência para nós e nos aproximamos em nossa forma de criticar as agruras sociais que desde sua época até hoje, praticamente nada mudou.

9. O que a banda deixa e o que ela leva, desse encontro com o Carnavalhame?

Deixamos um registro honesto e profundo de nossa percepção de uma canção tão foda como a que interpretamos, Lado A Lado B. Para nós, uma grande honra e um prazeroso desafio participar deste projeto e demonstrar nossa ótica perante a obra do Yuka. Levamos a alegria da missão cumprida de estar na coletânea, novos amigos e possíveis parcerias.

Carnavalhame

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Manifesto lítero-musical

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