O mundo da voltas, mas eu que escolho onde ficar

Eu deveria ter mais ou menos uns 13 anos. Não era lá a menina mais bela da escola, mas eu gostava de mim. Afinal, era tão destemida quanto um ratel. Fiquei sabendo da existência desse animal nas aulas de biologia. Sorrateira, intrometida e bastante corajosa. Nunca tive muitos amigos, e consequentemente aprendi a me virar sozinha, como já dizia minha xará Carol, Ana Carolina. Conheci um garoto, lindo, diga-se de passagem. O amei, porque assim que sou, me jogo e não penso nas tretas posteriores. E quando elas finalmente chegaram, era tarde e eu já estava sofrendo.

A primeira vez que, de fato, senti tristeza por causa de um garoto foi nesta época. Na primeira vez que nos beijamos, ou melhor, na primeira vez que eu o beijei — não era recíproco, e foi um único e mísero beijo — as coisas foram se desenrolando de uma maneira que eu cheguei a perder o controle e no fim, minha coragem.

Passei a sentir-me constrangida toda vez o que o via na rua, chorava quando ninguém percebia, e tamanha era a confusão em minha cabeça que passei a ir mal na escola. Por diversas vezes pegava minha mochila, colocava uns livros quaisqueres e fica a manhã toda em uma praça tentando entender o sentido daquilo tudo. Me senti revoltada. Como alguém tinha esse poder de entrar em minha vida e me devastar desta forma?. Não sou uma pessoa vingativa, e nunca fui de criar planos mirabolantes para me reerguer, mas pensei por algumas vezes na possibilidade de fazê-lo sentir o que eu senti naquela época. Tudo é passageiro, né não? Mas passar na vida de alguém em vão, ou talvez apenas por uma pequena atração física não é algo que uma garota de 13 anos deseja e merece. Uma coisa que me marcou nessa história, é o fato de eu não ter tido ninguém para desabafar e ao menos, me dar um abraço e dizer “olha essas coisas acontecem”. Não precisava engajar-me em uma luta para reverter a situação. De fato, esquecer era a melhor solução. E foi o que aconteceu, apesar de ter demorado dias, meses e até anos — anos esses que mudaram até meu jeito de ser -, passei de destemida à cautelosa.

Certo dia, eis que ele retorna, assim como o mundo dá voltas, ele fez reviravolta na minha vida, e então voltou.

- Oi, como você vai?

- Eu vou muito bem! Voltei a jogar futebol, tô estudando para o vestibular e tal. E você?

- Há, eu to na mesma, desempregado, meio sozinho.

- Poxa, espero que consiga um emprego logo. Se eu souber de algo te aviso.

- Sabe… As vezes sinto falta da nossa adolescência, você não sente?

- Ah, eu não sinto não. Tenho me divertido tanto atualmente, que a minha adolescência nem vale mais a pena ser lembrada.

Não me interessa as voltas que o mundo dá, interessa a movimentação do meu corpo e a direção que quero levá-lo.