“Você se lembra que a gente te chamava de Choroline?”

O ano era 2006 ou 2007. Como todo ano, ia visitar meus parentes lá na minha cidade natal e ia caçando os amigos de infância para passar um tempo, tentando não perder relações. Nesse dia estava na casa de um desses amigos, com quem estudei da primeira até a quinta série. Entre algumas conversas do passado, ele me pergunta isso, entre risos.

Me vem um gosto amargo na boca. Como esquecer esse apelido que me colocaram lá em 97 e que durou até eu me mudar da cidade? Como esquecer a musiquinha irritante que cantavam junto enquanto eu chorava depois de ter apanhado ou sido xingada pelos meus amiguinhos de sala? Por ele, principalmente. Como esquecer o fatídico dia em que eu fui lanchar escondida no fundo da escola, sozinha, para que ninguém fosse me encher, e mesmo assim me encontraram, vindo gritando aos montes, gente da minha sala, gente de outras salas que talvez nem me conhecesse? O terror, a pequenez, a indefensibilidade de uma menininha de menos de 10 anos rodeada e acuada por pessoas que estavam se divertindo em vê-la chorar.

Volto à realidade. Dou um riso forçado para não estragar a tarde. Era coisa de criança, já passou, né? Não importa que eu tivesse me tornado uma adolescente que vivia tentando esconder a insegurança e o medo das fofocas e do ridículo. Não importa que até hoje eu carregue tudo isso comigo. Era coisa de criança.

Como passado bom é passado presente, tudo voltou esses dias. Meu irmão se casou semana passada e todos os amigos dele de infância estavam lá, incluindo o irmão desse amigo meu. Quatro dias depois, recebo um convite de amizade no Facebook. Era ele. Como fui madrinha, apareci nas mesmas fotos que o irmão dele e ele resolveu adicionar, provavelmente. Lembrei que já tinha tido ele adicionado uma vez, mas que deletei em uma grande limpeza (muito boa, por sinal) por não acompanhar as postagens nem ter conversado alguma vez. Aceitei. Quem sabe ele se tornou uma pessoal legal e gostaria de socializar com uma velha conhecida?

Não deu nem 15 minutos quando ele me marcou em uma postagem. Sente só a caca:

Eu realmente fiquei olhando para a tela, abismada. Como vocês puderam ver na foto que coloquei ali em cima, o meu cabelo era gigante. Lindo. Dava um trabalhão para cuidar, mas eu não cortava ele por nada. “Crina de cavalo” era como chamavam enquanto puxavam todos os dias. Um dia meu cabelo estava preso em um rabo ou uma trança. Não me lembro quem, talvez esse amigo, talvez outra pessoa, começou a puxar novamente o meu cabelo, balançando-o como se fosse um chicote e eu um cavalo. Comecei a correr para ver se ele soltava. Não adiantou. O cadarço do meu tênis estava desamarrado, tropecei e caí de cara no chão. Sangue. Dor. Mais sangue. Comecei a chorar. Professora atravessou os risos e me levou ao banheiro. Duas coisas aconteceram nesse dia: criei um trauma de cadarços desamarrados (aviso até mesmo estranhos quando vejo isso) e, com muita dor, decidi cortar o cabelo. Eu tinha 7 anos.

Como responder uma piada tão sem graça? Como tentar ser educada com algo que me causou tanta tristeza? Com um passado inteiro de sofrimento que ainda me persegue? Pensei em rir como da outra vez. Só que não dava. Eu não estava rindo. Estava incrédula. Puta. Aquela foi a melhor resposta que consegui dar. Talvez ele se tocasse. Talvez ele pedisse desculpas.

Mas ele riu.

Riu da mesma forma que ria ao me ver chorando há quase 20 anos atrás. Riu porque para ele é só uma brincadeira. Foi coisa de criança, como era divertido, não é? Lembra que a gente te chamava de Choroline?

Eu ia deixar quieto. Ia ficar silenciosamente inconformada. Para quê arranjar confusão? Então percebi que isso é o que fiz durante todos os anos. Me calei. Deixei estar. Pensei mais nas inconveniências do que nos meus sentimentos. Posso não ter escrito esse textão em um chat para ele, mas aqui está, porque há muito a ser tratado e refletido.

Primeiro passo: deletar a pessoa. Do Facebook. Da vida. E eu me senti malvada. Eu não estava sendo educada e isso me deixava estranhamente feliz.

Segundo passo: aceitar de todo o coração que essa pessoa não é minha amiga. Não é e nunca foi. Amiga mesmo foi uma menina que ficou pouquíssimo tempo na minha escola naquela época, mas que me disse uma das coisas mais valiosas: “Você é uma menina legal, Carol. Por que chama de amigos todas essas pessoas que só te maltratam? Até mesmo sua melhor amiga te humilha!”. Pois é, Karina, por quê? Talvez porque eram as pessoas que eu via todos os dias, com quem deveria brincar e me enturmar para não ficar sozinha? Talvez porque as professoras e meus pais insistiam que eram amiguinhos sim e que não podia brigar?

A questão é: como teria sido se desde cedo me ensinassem que eu não deveria aceitar esse tipo de relacionamento? Que eu não deveria ser educada e passiva? Que amigos não nos machucam, mas nos apoiam?

Engraçado como as professoras e minha mãe justificavam as atitudes desse menino como uma demonstração dele gostar de mim. Pais, educadores e afins, AGRESSÃO NÃO É AFETO! Não botem isso dentro da cabeça das meninas!! Não façam-nas achar desde cedo que é ok ser agredida fisica e verbalmente. Sabem aonde isso leva? RELACIONAMENTOS ABUSIVOS. Não ter xingado essa pessoa anos atrás quando ele riu de algo que era doloroso para mim só mostra que eu estava em um relacionamento abusivo. Sentir uma pitada de culpa quando decido não ver essas pessoas quando volto àquela cidade, mesmo sabendo que nenhuma delas se importou comigo nesses anos todos, é um sinal de relacionamento abusivo.

Meninas e meninos, aprendam comigo: relacionamento abusivo não é só x namoradx que te agride. É aquelx amigx que só te coloca para baixo e faz parecer que é um favor estar com você. É aquele parente machista que você suporta só por ser família. Relacionamento abusivo é essa presença tóxica na sua vida que você não consegue largar por causa das convenções. Como eu poderia me chamar de feminista e lutar contra todas essas formas de opressão se eu mesma me deixava ser oprimida? Como eu posso pensar em ensinar meus futuros filhos a serem fortes e confiantes se tenho medo de reagir?

Por isso, a partir de agora me recuso a chamar ele e outras pessoas de amigos. Colegas está mais do que justo. Não quero guardar mais ressentimentos nem mágoas. Em honra de quem fui, decidi ser forte. A Carol de antigamente não precisa mais chorar de medo de se sentir sozinha. Se ela pudesse me ouvir, diria isso: “Você vai ser respeitada e admirada por muitos. Você terá muitos amigos que gostam de verdade de você . Você vai ainda ser insegura, mas vai respirar fundo e assumir para o mundo quem você é. Você vai cair muito, mas vai se levantar todas as vezes. Você vai segurar muito choro, mas também vai se permitir chorar e ter raiva. Por tudo o que você passou, vai se tornar uma pessoa bondosa e solidária. Minha querida, a dor de hoje não vai ser em vão.”.

Caro colega, que não me é caro, caso você esteja lendo isso, espero que algo entre no seu coração e na sua consciência. Não precisa me responder nada, só deixe isso ir trabalhando dentro de você. Anos atrás minha mãe me contou que você tinha se assumido gay e que a situação estava feia na sua casa. Nunca tive que passar por isso, porém imagino como deve ter sido difícil. Sei como é se sentir julgada, alvo de risos, incompreendida e abandonada. Você deve ter sentido isso também, de uma maneira diferente. A diferença entre nós é que eu não dou risada de você. Não te chamaria de bicha ou anormal. Se fôssemos realmente amigos, seria com prazer que eu ofereceria todo o meu tempo em apoio à sua dor. Como nunca fomos, não pude estar do seu lado nessa época difícil, mas deixo aqui minha solidariedade. Até peço desculpas pelas vezes em que tirei sarro de você e do seu peso (saca aquela coisa do oprimido virar opressor? Pois é. Eu também errei.).

Não ria mais de ninguém. Pense na dor que aquela pessoa pode estar carregando por coisas que você considera “brincadeiras”. E não, eu não estou sendo super sensível ou exaltada. Rir com uma pessoa é bom. Rir dessa pessoa, ainda mais anos depois, é cruel. Não seja mais esse tipo de gente.

Fica a dica

Sim, eu me lembro que me chamavam de Choroline. Nunca vou esquecer. A diferença é que agora não finjo achar a piada engraçada. The shame is on you.

Eu estou livre de você.