Porque tudo que é vivo morre

No recuo da estrada, sem muro ou cerca, tinha um cemitério. Sete túmulos, dois pequenininhos, coisa que dá frio na espinha. Nenhuma foto ou nome, só uma vela recém apagada. Fiz o sinal da cruz em respeito e tirei essa foto. Chegou mais gente, e a conversa foi parar na infância. Eu costumava andar de bicicleta entre as sepulturas no cemitério da cidadezinha onde morava, tentando fazer de cabeça a conta dos anos quantos com que tal morto bateu as botas. Uma companheira lembrou que brincava de esconde-esconde sem medo de assombração, outro contou que, na cidade da avó, era comum o povo ir em velório para ficar a par das fofocas e a cerimônia ganhava leveza: “Maria tá até mais bonita”, diziam as comadres apontando pra defunta rodeada de flor no paletó de madeira, e riam.
Dez passos dali, na varanda duma casa cercada de árvore, parei pra assuntar com o senhor que olhava a passagem dos caminhantes.
- Aquele cemitério ali, o senhor sabe…?
- Ô, é nosso. Tá ali meu pai, minha mãe, dois irmão… Vamo chegá prum café?
Não podia, infelizmente, senão perdia o ritmo da caminhada.
***
- Um recorte de memória d’O Caminho do Sertão. Gostou? Deixa seu comentário, vamos prosear :)
- Escrevo também no Dislexicamente.
