A caneta e a varinha: ou como eu me relaciono com a escrita

Talvez não seja uma analogia tão inusitada, essa de comparar uma caneta com uma varinha mágica, mas é menos óbvia do que poderia parecer à primeira vista: não associo as duas porque através de ambas se pode produzir coisas fantásticas, mas pelo modo como elas funcionam.

Olha eu, com as minhas referências a HP de novo!

Em Harry Potter, quando uma criança é bruxa, a magia dela se manifesta em picos espontâneos, sem muito controle. Daí quando ela faz onze aninhos, recebe a carta de Hogwarts e lá vai ela com papai, mamãe ou o Hagrid comprar uma varinha. Na escola, aprende a canalizar sua magia através daquele objeto, de certa forma uma extensão de sua mão, mas feito para essa função específica.

A escolha da varinha é mais glamurosa, é verdade.

A criança primeiro aprende os movimentos e as palavras certas, que no começo é preciso pronunciar em voz alta.

A Hermione até explicou como faz.

Depois, quando já aprendeu bem, consegue até lançar os feitiços só os mentalizando, sem precisar da voz. Ou seja, quanto mais avançado um bruxo, mais coisas ele consegue fazer, mas também mais estreita é a sua relação com a varinha. Pouquíssimos bruxos conseguem usar magia sem uma (e, mais especificamente, sem a sua), só os muito poderosos, e mesmo assim não para tudo.

No geral, nós, os muggles, que não temos magia, aprendemos a escrever à mão, primeiro com o lápis, depois com a caneta. Hoje em dia, também no computador, celular, tablet.

Escrever, para mim, é muito parecido com usar uma varinha mágica, no sentido de que desde uns oito aninhos eu me treinei para canalizar as minhas energias criativas para a caneta.

Eu não conto muito bem minhas ideias numa conversa, não sei resumir meus livros, nem explicar direito minha pesquisa acadêmica. Eu não escrevo da melhor maneira direto no computador; parece que os dedos no teclado são rápidos demais para a velocidade com que as palavras se moldam no meu cérebro. Quando escrevo direto no computador, preciso editar umas dez vezes ou mais, número que se reduz significativamente quando escrevo à mão.

Claro, estamos falando de uma prática ajustada ao longo de quase vinte anos. Comecei escrevendo com lápis em folhas de sulfite que eu dobrava e colava no formato livro. Mas nessa época era brincadeira e evoluiu como tal. Já com uns doze anos, eu passei a escrever com lapiseira em folhas de fichário. Eu era bebê? Muito. Mas foi quando comecei a levar muito a sério essa coisa de escrever e quando percebi que era o que eu mais gostava de fazer no mundo.

Até esta crônica eu escrevi primeiro à mão.

Só que grafite borra com mão suada, e folhas de fichário são frágeis demais. Passei à caneta Bic.

A Bic é uma coisa maravilhosa, se você só escreve no colégio ou faz anotações rápidas no trabalho, mas eu, que chego a escrever dezesseis horas num dia, terminava a jornada de escrita (sprint de criatura possuída, eu sei) quase sem conseguir mexer o braço, de tanta dor, porque é preciso forçar um pouco para escrever como qualquer caneta esferográfica. É tipo uma varinha que drena parte da sua energia.

Um dia comecei a usar canetas do tipo Stabilo e afins, e elas resolvem bem esse problema. Nenhuma ressalva contra elas. São ótimas e, por eu ter várias cores, podia tocar mais de um projeto por vez de um jeito fácil de sistematizar. A única dificuldade é que num caderno ou numa folha de fichário normal a tinta vaza pro outro lado, e daí ou você perde uma página ou não consegue ler nada do que escrever dos dois lados da folha.

Ostentação no mundo da internet

Por isso passei a escrever em caderninhos desses com folhas de gramatura maior.

Meu primeiro caderninho. Ponto negativo deles: são tão lindos que o coração dói um pouco ao escrever neles, no começo.

E, enfim, já cerca de cinco anos, encontrei algo bem mais parecido com uma varinha mágica (pros meus padrões, ao menos): canetas-tinteiro. Como as Stabilo e afins, você não precisa forçar para a tintar sair e, diferente delas, você pode mantê-las pra vida toda, porque a caneta fica; só o cartucho de tinta precisa ser trocado.

Bônus: a caneta-tinteiro “se molda” à sua mão conforme o uso, o que significa que só o dono consegue escrever direito com ela. Quando outra pessoa tenta usar, a tinta não sai direito, se é que sai, e esse pessoa pode ficar com a impressão de que usar uma tinteiro requer algum tipo de habilidade especial. Não requer.

Ou seja, uma caneta-tinteiro, como uma varinha mágica potteriana, só tem um dono e não funciona direito com outras pessoas (salvo alguma persistência da sua parte — se você quiser usar a caneta que era do seu avô — ou se você vencer o antigo dono num duelo — no caso se você estar querendo usar a Varinha das Varinhas).

Para terminar, preciso resgatar a associação entre escrita (principalmente de ficção) e magia, descartada por mim no começo do texto. Primeiro, porque ao descrever a escrita à mão como o melhor método para mim, pode parecer que acho que só assim funciona. Não é o caso. A magia não está na varinha, mas na mão que a manipula. A varinha é uma forma de canalizar a energia, assim como a caneta é para mim. A vantagem do ato de escrever é que podemos usar o meio de canalização que melhor nos convém.

Numa pegada mais Alan Moore, escrever é uma prática mágica; estar em contato com a sua consciência e acessar um mundo interior que não é aberto de qualquer jeito nem para qualquer um.

E você, como faz? Qual o seu canalizador de energias criativas?

A sua própria mão enquanto canalizador? Daí cabe tanto a varinha, quanto a caneta, quando o computador…

E, como às vezes me perguntam o que ando fazendo, e para dar um exemplo do meu sistema, aí vai uma explicaçãozinha sobre mim mesma.

Atualmente, eu tenho dois projetos prontos (pós-edição pós-leituras betas e críticas) e dois em andamento encaminhando-se para a conclusão. Às vezes me perguntam deles, então, uma curta resposta:

Dos prontos:

1) Feiticeira da Terra: fantasia histórica adulta;

2) A Arqueira e o Tirano: romance com ares de conto de fada na linha A Bela e a Fera que pode ou não ser YA (não sei, gente), histórico (mesmo que não se passe em nenhum lugar conhecido) e não-fantástico.

Dos não-prontos, mas quase lá:

1) Deserto: uma distopia utópica ou uma utopia distópica (a depender do leitor) em duas partes, onde a sociedade em reconstrução com o que sobrou da humanidade é proibida de ser alfabetizada, mas há rebeldes. YA, talvez.

2) O Outro Lado do Caos: distopia/ fantasia urbana com romance (classificação etária, gente).

Vermelho: OOLdC; Verde: Tirano; Turquesa: Deserto; Roxo: Feiticeira; Azul: anotações de todo tipo.

E eu também tenho um projeto não-fantástico na fila, mas estou segurando a vontade de começar até terminar um dos dois acima, ao menos.

Enfim, vai muita tinta e papel ainda. Mas eu não paro enquanto a mão não dói.

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