Como não ajudar alguém

Eu não tenho nenhum problema de comunicação. Pelo contrário, quem me conhece sabe que onde chego tenho bastante facilidade de lidar com pessoas. Me enturmo e procuro, sempre que possível, ser agradável. Por isso pedir ajuda seria uma coisa fácil a se fazer, certo? Errado.

Na foto: vários papéis picados com pontos de interrogação.

Venho de comunicação, um mercado onde apesar de muitas coisas diferentes acontecerem o tempo todo, existe uma fundamentação básica que é extremamente utilizada no meio acadêmico, você sai da graduação um papagaio de teoria da comunicação, das cores e tudo mais. Conceitos como comunidade, open source etc, não faziam parte do meu vocabulário até eu decidir me tornar uma pessoa desenvolvedora, ai minhas amigues, pedir ajuda se tornou uma coisa complicada.

O mercado de tecnologia é racista, misógino, LGBTQ+fóbico. Só é. “Ah, mas Carol existem empresas e pessoas e blablabla.” Eu to falando da regra, não das exceções. A comunidade, a firma, o rolê é legal — pros brother. Estamos todos cansados de jogos de ego, de cabo de guerra para ver quem sabe mais, quem é a nova pessoa foda- com selinho de empresa expert-jedi do hype. Falta falarmos de gente de verdade, gente que não dá conta tudo, que não sabe tudo de programação, gente que não consegue morar do lado do trabalho e que isso faz ficar sempre cansado, que não dá pra estudar todo dia, que faz freela para fechar o mês.

A gente precisa de ajuda, eu preciso de ajuda.

Mas pra conseguir ter ajuda, vocês precisam aprender a ajudar.

Temos uma porrada de conteúdo, mas exigir autodidatismo de todo mundo é acreditar em meritocracia e se você acredita neste conceito, por favor, considere ler o texto abaixo, por Startup da Real.

Todo mundo começou de um “Hello World”. Todo mundo.

Todo mundo já esqueceu de um “;” e demorou horas para achar o que quebrava o código.

Todo mundo já deu um commit errado.

Todo mundo teve problema para configurar seu primeiro setup de trabalho — provavelmente isso aconteceu mais de uma vez até.

Bom, você entendeu meu ponto.

A gente esquece que aprendemos coisas novas todos os dias, que o processo de aprendizagem também tem a ver com errar. O erro fixa coisas. Importante mesmo é errar diferente, para aprendermos cada vez mais.

No dia a dia, precisamos ficar atentos se o que falamos, comentamos em códigos, piadas que fazemos no meio trabalho, vai fazer aquele ambiente, aos poucos, se tornar hostil ou vai intimidar pessoas a terem dúvidas.

O que não fazer:

Falar coisas do tipo:

  • “Mas é óbvio que é assim”
  • “Não se faz assim” — Melhore com “O ideal é que se faça de X jeito”
  • “Como você não sabe disso?”
  • “É só olhar a documentação” — Considere que se a pessoa te perguntou, ela precisa de ajuda humana, não de interpretação de texto.
  • “Isso é muito fácil” — Fácil e difícil é relativo.

Ter atitudes como:

  • Desmerecer pequenas conquistas das pessoas;
  • Fazer piadas sobre coisas que as pessoas nunca foram alertadas de que era “errado”;
  • Microgerenciar o dia a dia das pessoas;
  • Fazer o trabalho em vez de mostrar como foi feito.

A lista ficaria infinita, mas vocês entenderam o conceito.


Se você considera ajudar alguém, ter uma pessoa júnior em seu departamento/empresa ou algo do tipo você pode:

  • Preparar o ambiente para receber/responder a pessoa — nada de voz alta, de exposição desnecessária etc;
  • No caso de empresas, conversar com seu time e alerta-lo sobre posturas tóxicas;
  • Acompanhar o processo da pessoa, ofereçer ajuda, as vezes as pessoas precisam de uma mão estendida do outro lado;
  • Compartilhe suas experiências e conhecimentos, mas não torne isso verdade absoluta do universo. Nada é definitivo;
  • Elogios em público, críticas em particular.

Um ótimo texto que complementa isso aqui é o do William Oliveira:

E por fim, fica a dúvida, você é/age como a pessoa que gostaria que te ajudasse lá no seu primeiro Hello World?


Se você gostou desse texto, não esqueça das palminhas. E comenta aqui embaixo sua experiência para trocarmos.

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Carol Soares {divaloper}

Written by

Front End Developer, instructor, speaker, diversity and inclusion activist in tech. Podcaster. Information, security and privacy are powerful. Open Source fan.