Trintar nem é verbo

Caroline Daga
Aug 31, 2018 · 3 min read

https://www.youtube.com/watch?v=rjSQNmC7M7g

Se fosse, significaria mudança de propósito, reviravolta, crescimento e evolução. Soa clichê, mas é verdade. Este ano, aprendi que as coisas passam e que são exatamente o que elas são. “A gente vive o que a gente tem”, disse quem me ensinou boa parte de como eu devo levar meus próximos 30 anos.

“Passa a noite comigo?”

Foi assim que toda essa história começou. A gente já se conhecia, claro. Talvez não tão bem, mas rolava aquela coisa gostosa de parecer ter intimidade e isso já era o bastante para ele ignorar as papas e ser o mais sincero possível. Eu, que tinha esperado algo em torno de oito meses por qualquer pergunta parecida com aquela, entrei em três colapsos, morri duas vezes e voltei para dizer “hoje não. Amanhã, talvez”. Por sorte, ele me convenceu de que “a gente vive o que tem” e o hoje foi aquele hoje mesmo.

Mas a história nunca termina aí. Alguns meses se passaram até que eu compreendesse que as pernas bambas não necessariamente significavam amor. Para que eu entendesse que o convite “passa a noite comigo?” não vem anexado à uma promessa de “te ligo amanhã”, “quero construir uma história contigo” ou “quero te conhecer ainda melhor”. Soava simples, soava cafajeste, soava bem publicitário e estampava o quão “hopeless romantic” eu sou, bem no meio da minha cara.

Mas aí, veio o tempo e vieram os trinta. Um belo dia, acordei e dei de cara com esse relato da Camila, que se chama tchananã: “eu te amo hoje”. Que reflexão linda das promessas que a gente faz hoje, sobre hoje e apenas para hoje — sem amanhã.

O amanhã a gente descobre. Juntos, separados, entre escorpiões e leoninos. O amanhã é outro dia e a minha promessa, o convite dele, e a promessa de tantas outras pessoas foram feitas hoje.

Nessa mesma semana, mandei uma mensagem para o cara do “passa a noite comigo”. Entendi que ainda tínhamos coisas sobre as quais precisávamos conversar e eu sentia uma clara necessidade de alinhar tudo o que havia acontecido entre a gente. Mas o destino — ah, esse safado! — achava que eu precisava mesmo era deixar tudo para lá. Por isso, o que encontrei foi exatamente o sentimento que eu tive por ele desde o dia em que tínhamos nos conhecido. A diferença, no entanto, estava bem dentro da minha pessoa. Eu não tinha nenhuma expectativa, nenhuma falsa esperança e minha paz em relação àquela noite era tamanha que falamos sobre toda a loucura que foi nosso encontro como quem comenta sobre uma memória que gostaria de revisitar.

Foi só depois de tudo isso que eu entendi. Entendi que os trinta são para a gente amar hoje. Para dizermos hoje, sentirmos hoje, fazermos hoje. Viver o que a gente tem, hoje. E se parece que tem muito hoje nesse parágrafo é porque você também precisa se lembrar.

Faça hoje. Viva hoje. Talvez, amanhã, o cara da Cami não a ame. Talvez, amanhã, não exista convite para “passar uma noite comigo”. Mas, hoje, nós somos infinitos. E amanhã a gente lida com o dia a dia (e as promessas que a gente fez hoje).

Caroline Daga

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There’s method in my madness.

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