Insistência
[As Cartas que não Publiquei]

Não sei quanto tempo levei para chegar até aqui. O quarto está do jeitinho que deixei antes de sair. Era só um passeio noturno, apenas para deixar os pensamentos partirem. Minha cabeça não tem estado em ordem desde que você se foi.
A cidade continua a mesma: as luzes, os faróis de carros, pessoas andando de um lado pro outro sem se atrever a dar um olhar àquele que está jogado na sarjeta. Os postes piscando aquela luz amarelada.
Fui ao mesmo bar de sempre, aquela aura de fumaça que cobre o ambiente se misturava a tudo que poderia sair da minha mente. Vai uma cerveja, no jukebox toca Chico. Não obstante, era a música que você me enviara logo quando começamos a nos conhecer.
Lembro-me da última vez que fomos a este bar. Não conseguiria imaginar o tanto de coisas que mudaria. Naquele tempo seus sorrisos ainda eram por minha causa.
Percebo, então, que cerveja ainda é muito fraca para afastar a sua imagem de meus pensamentos. Chamo o garçom e peço um whisky. Ele me pergunta por você. Como tenho feito, digo que está em casa. Não deixa de ser verdade, acredito eu. Apenas não é a nossa.
Anotação mental: preciso mudar de bar.
O whisky corta a minha garganta de um jeito, aquela fumaça, peço um cigarro à moça da outra mesa. Não tenho vícios, mas você consegue tirar minha sobriedade, minha razão.
Aquela fumaça toda. A amargura da bebida. Nada funciona. Nada consegue tirar de mim esse aperto no peito, essa sensação de dias cinza. Nada é pior do que ficar sem você.
Saio do bar perdida em pensamentos. Estou bêbada de pensar, é como se minha cabeça não obedecesse à ordem de não pensar em você, na sua boca perfeita e de como éramos felizes apesar de tudo. Não consigo parar.
Saio andando sem rumo. Deve haver ainda aquele coreto onde costumávamos sentar apenas pra tomar uma cervejinha no fim do dia. Pessoas vão e vem pelas calçadas. Cada banco, cada esquina daquela avenida, me lembra dum fato sobre ti.
Essa cidade era sem graça e vazia até você chegar. Como em toda luta contra você, novamente estou na lona, nocauteada.
Volto pra casa. Minha cama ainda está do jeitinho que deixei: bagunçada, úmida das lágrimas e o pior, sem você. Onde eu tinha os melhores momentos do meu dia se tornou um ninho de solidão. Travesseiros não conseguem ocupar todo o espaço em branco que você deixou.
Era só um passeio para deixar os pensamentos irem embora. Mas, diferentes de você, eles insistem em ficar.
