Coisas pra admitir em público II: a maior birra do universo

A birra de pessoas que, com menos esforço que o cidadão comum, conseguem viver vidas lindas e ricas, com iMacs e viagens pra zoropa.

Esqueçamos tudo por um momento e analisemos o bruto desse sentimento aqui, cavei lá no fundo e achei a seguinte pedrinha:


A realização dos meus sonhos nunca alinhava com a realização dos sonhos das rhyckas que me cercavam no colégio. A realização dos delas era frequente. Muitas coisas definidas por dinheiro me fizeram inferior naquela realidade ali.

Bem, a raiz do sentimento taí. Agora vamos categorizar como essa pedrinha me manipula as entranhas hoje em dia:

Birra de leve: ver gente que tem extrema — foco no ex-tre-ma — facilidade em viver do jeito que bem entende, financeiramente falando, com rendas além do trabalho que não foi a própria pessoa que consquistou.

Birra DEMAIS: gente que não enxerga esse privilégio.

Birra AGUDA: gente que não consegue olhar pro lado e saber que seus hábitos são caprichos pra imensa maioria das pessoas. Não é comum comer em lugar caro com frequência e/ou pagar serviços não-essenciais enquanto reclama que tá sem dinheiro. Sua vida financeira é bem confortável, você que não enxerga a dificuldade que é a vida da maioria das pessoas.

Um dia pedi dica de lugar que entrega um almocinho decente em casa e, cara… qual é a dessa galera me indicando uns lugares onde 01 prato é R$50? Juro que não entendi.

Sempre acho impressionante a facilidade com a qual muitas pessoas com dinheiro igualam os outros à sua realidade financeira. É que nem aquele episódio de Friends que o os migos ricos nem vislumbram a possibilidade de que aquele restaurante é caro demais pros outros migos deles.

NEM. VISLUMBRAM. A. POSSIBILIDADE.

9___9

Saindo dessa bolha de auto-análise, parece um tanto coerente a birra. Pequena e mesquinha, talvez, mas coerente, certo?

Mas acho que a birra vem se invalidando por 02 motivos:

01. Ganho mais que a média dos meus amigos da mesma idade.

E ainda divido a vida e as despesas com um cara que trabalha pra cacete e já ganha mais que eu.

Não tenho iMac nem nada da Apple porque eu não acho que vale o preço, mas eu poderia ter. Ia ter que parcelar ou juntar dinheiro um tempo, mas poderia sim.

Não saio por aí cuspindo passagem pra zoropa, mas nada que um pouco de planejamento e pesquisa não me permitam fazer se eu quiser também.

Tô podendo reclamar de nada não.

02. De que me adianta a existência (adiantar no sentido de IR PRA FRENTE) essa carga negativa toda que eu permito que aleatoriedades da vida alheia tenham sobre mim?

No fim do dia, a pessoa rica herdeira tá lá feliz contemplando o mundo do alto da montanha — muitas vezes reclamando achando que a Lua era seu lugar de direito — e eu tô aqui no meio do caminho (porque, convenhamos.. tô LONGE da base dessa montanha também) achando a vida dela um absurdo de fácil. E dependendo do quanto a gente pára nosso meio-de-caminho pra analisar o alto dos outros, tamo é desperdiçando nosso tempo de caminhada também.

Sempre me vejo questionando essa birra. Ela me faz mal, sabe? Me sinto meio podrona. Ela é pequenininha no grande esquema da minha psique, mas é grande o suficiente pra às vezes afetar como eu vejo as pessoas e reajo a elas.

A garota que mais me odiou na vida levava uma vida bem assim. Até que ponto eu não frustrei a garota com a minha distância e indiferença porque achava a vida dela insuportável de fazer parte? Tenho plena noção — hoje, depois de muitos textinhos me analisando pra mim mesma — do quanto a minha indiferença não sabe ser discreta. Tenho dificuldade em manter aparências e ser falsa nessa esfera socialmente aceitável, onde você mantém casualidades quando encontra pessoas que não te fazem bem.

No fim do dia, a única prejudicada pela minha birra irritadiça com o cume de montanha alheio sou eu mesma.


Então, querido ser humano, me diga: se eu sei disso tudo PORQUE É que eu ainda me coça o juízo ver alguém vivendo sua vida de maneira fácil, simples e, sim, rica?

Tem muita gente que deve olhar a minha vida e achar que eu sou cheia da grana também. Vê meus planos de não ter casa, sair por aí em 2017 e pensa “Nossa, TÁ MILHONÁRAAAAH~~~~”.

Em comparação a muita gente eu tô no alto mesmo.

O problema não tá no sentimento em si. A birra é só um jeito — tantinho estúpido — de demonstrar um desgosto que é filho desse mundo escrotamente desigual.

Não é culpa da pessoa em si. Não é a ela que eu devo a minha irritação e a minha frustração. Mas é o mais próximo que eu tenho tido de depósito pra esses sentimentos ruins que vão acumulando.

Então me desculpa. Vou melhorar. Pensar mais em ajudar quem precisa do que julgar quem tem tudo.


2017 é pra ser um ano melhor, sem birra, tá?

Vou manter essa essa série de textos onde eu exponho o que eu preciso expor pra mim mesma. Analisar essa podreragem toda enquanto escrevo o que penso tem um valor terapêutico bem único, só de saber que tá aí pelo mundo traz uma carga de responsabilidade às promessas que eu faço pra mim mesma. Tem funcionado :)

Tinham me dito que tudo que vem pra mudar a sua vida oferece resistência e 2016 foi um muro enorme, cara. De situações e pessoas tentando me prender do lado de lá, onde eu até que tava muito bem e confortável, mas estagnada e deprimida. Se eu quisesse mesmo chegar do outro lado, ia ter que me forçar a tomar decisões bem menos sutis, mais duras e definitivas que tivessem a força de uma bola de demolição com Miley Cyrus rebolando em cima. E nem Smiley Miley conseguiu agradar todo mundo com essa inovação aí, que dirá euzinha e minha humilde metáfora.

2016 foi foda. E se a mudança é diretamente proporcional à resistência, tô é feita.

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