Ao mar

D’um feixe de luz vindo da janela de madeira lascada, teus olhos de castanha projetavam-se no quarto e o cheiro de sal invadia-me as narinas.

Relutava em levantar-me e apreciava o som das ondas que quebravam-se nas rochas e mesclavam com uma proporção absurdamente perfeita a fúria e a delicadeza do Universo.

Ali, naquela cama, eu percebi como amava o mar.

Teu afago era areia nos pés descalços de quem vivia de meias. As pintas espalhadas pelo corpo eram pequenas conchas que eu descobria entre as rochas.

Mal saberia descrever meu apreço por sentar-me à beira-mar para contar as variações de tons do céu no arrebol e envolver-me pela gratidão por mais um dia vivido.

Ali, naquele quarto, eu percebi como precisava do mar.

Logo, veio a maré alta destruindo os meus castelos, levando embora a casa, o quarto e o feixe de luz da janela lascada.

Traiçoeira, a corrente de retorno inundou-me os pulmões, carregou-me os sonhos e milagrosamente devolveu-me ao cais.

Ali, naquela praia, eu percebi como machucava o mar.


Depois de tudo, aqui, a milhares de quilômetros de distância do litoral, eu percebo como amo as montanhas.